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Uma Questão de Nervos

| segunda-feira, 16 de janeiro de 2012 | 16 comentários |
O homem tem uma reunião importante e já está atrasado, muito atrasado. A senhora idosa, munida de umas andas de quatro pernas, está parada no meio da passadeira exibindo um ar introspectivo. Há uns bons dois minutos que a cena dura; o homem aperta o volante com as duas mãos como se este fosse o pescoço da velha; sua em bica e morde o lábio de nervosismo «não pode ser, isto não me está a acontecer» - rumina.
A senhora no meio da estrada mostra-se indecisa, tenta lembrar-se de algo, parece ter-se esquecido do que a levou ali, como chegou e até de como se ir embora. Dá dois passos à frente, estaca, tenta fazer meia volta e queda-se pensativa. «Seria à farmácia que eu queria ir? Não, já fui ontem, deve ser à mercearia...P'ra que lado fica a mercearia?» O homem dentro do carro já tirou a gravata e agora apita como se estivesse num engarrafamento, mas não lhe vai servir de nada porque a senhora esqueceu-se do aparelho em casa.
«Espera lá...,Da mercearia não preciso de nada que eles levam-me tudo a casa, eu devo ir é à cabeleireira...» outra meia volta e mais dois passos em frente. Pára outra vez.
O homem puxa o cabelo para trás e desabafa ansioso «velha do caralho nunca mais morre!» E nisto surge-lhe uma ideia luminosa: olha para a esquerda e para a direita e novamente para a esquerda, mira de soslaio o retrovisor, mete a primeira e arranca a patinar numa chiadeira de pneus estrondosa. A senhora é que não ouviu nada, nem o arrancar do motor, nem a barulheira dos pneus: esqueceu-se do aparelho em casa, já se disse.

Uma Questão de Comércio

| sexta-feira, 13 de janeiro de 2012 | 9 comentários |
O homem bêbado está apaixonado pela mulher do café. Então todos os dias vai ao estabelecimento e encosta-se ao balcão a beber mines e a suspirar. Passa os dias inteiros nisto: a beber e a admirar a apaixonada, com os olhos melosos de amor e bebedeira. Ela, uma vez por outra, sorri-lhe; pisca-lhe o olho, roça a mão na dele quando lhe entrega uma cerveja, incentiva-o. Não que goste dele, não, odeia bêbados; mas o homem é um bom cliente.

Uma Questão de Tempo

| quinta-feira, 12 de janeiro de 2012 | 8 comentários |
«Um poema por dia, não sabe o bem que lhe fazia» disse-lhe o médico. «Mas...é para ler ou para escrever, doutor?» Questionou o homem. «Tanto faz!»
O homem foi para casa, sentou-se à escrivaninha e desatou a escrever poemas. Primeiro foram-se-lhe as dores de cabeça, depois as dos ossos, a seguir as insónias e ao fim duma semana já nem sequer fumava. A notícia espalhou-se rápida pelo bairro, havia um poeta milagroso ali mesmo à mão de semear. Não durou muito tempo para que longas filas de enfermos se formassem à sua porta. O homem escreveu poemas a torto e a direito: alexandrinos, de verso livre, sonetos, o que melhor se adequasse à condição do doente. Dia e noite era só que fazia, escrever e escrever e escrever.
Os patos, os gansos e as galinhas que os clientes lhe deixavam em forma de pagamento não serviram de nada, e o homem um dia acabou mesmo por morrer de fadiga e à fome. Pelo bairro, no entanto, respirava-se um profundo ar de saudável cultura e erudição.

Uma Questão de Energia

| quarta-feira, 11 de janeiro de 2012 | 8 comentários |

Ora, depois de ouvir dizer que os hidratos de carbono e as leguminosas eram excelentes fontes de energia, o homem, decidiu comer uma feijoada antes de ir para o ginásio. Serviu-se de um prato generoso, enfardou como se tivesse a troika à perna e ala que lá vai ele para o ginásio. Um pouco ensonado, sim, mas sentindo realmente uma estranha energia.
Fez-se ao tapete rolante, furibundo, como quem diz «é hoje que eu te vou domar meu sacana». Pouco depois de começar a correr, em passo arrastado, notou uma estranha movimentação nos intestinos que se traduziu no comum peidar. Um, dois, três de seguida. A príncipio sentiu-se um pouco embaraçado mas depois reparou que cada vez que soltava uma ventosidade, um pequeno efeito propulsor empurrava-o para frente acrescentando um novo alento à corrida. «Eh lá! Afinal não é só quando um homem sonha que o mundo pula e avança».
Às tantas dominou as contracções do intestino ao ponto de poder soltá-los a seu bel-prazer. Parecia uma mota a soltar rateres na Concentração de Faro. Correu desvairado, como se o vento o empurrasse. Naquele dia fez uns bons 5km, o que pare ele era um record pessoal, nunca antes havia passado da marca dos 300 metros.
Quando acabou, a sala estava vazia e a senhora da recepção apresentava um ar ligeiramente agoniado. Ele sentia-se um homem novo, mais leve, mais enérgico.

Uma Questão de Código

| terça-feira, 10 de janeiro de 2012 | 5 comentários |
Se a rua está congestionada e o sinal dos peões, vermelho, o homem tenta a todo custo atravessar a estrada. Corre, atrasa o passo, desvia-se, equilibra-se em bicos de pés até conseguir por fim, chegar ao outro lado. Por outro lado, se o sinal está verde e a estrada desocupada, o homem queda-se estático em frente da passadeira.
O homem não sofre de nenhuma perturbação mental e compreende perfeitamente o código da estrada. O que o homem não gosta é que lhe digam o que fazer.   

Uma Questão de Espaço

| segunda-feira, 9 de janeiro de 2012 | 7 comentários |
O homem passa sempre à mesma hora e assiste sempre ao mesmo filme: os arrumadores, muito juntinhos, formam um quadrado perfeito, virados uns para os outros, numa figura geométrica humana fechada em si mesmo. Ocupam somente uma pequena porção do passeio, um metro quadrado, admita-se. Entre os transeuntes que passam àquela hora, indíviduos que não têm o olhar treinado do homem, diz-se que por ali há tráfico de droga. Nada poderia estar mais longe da realidade, pensa o homem com um sorriso interno. O que o comum indivíduo não sabe; o que o cidadão cumpridor não sonha, é que é tudo uma questão de espaço. Os arrumadores são muito arrumadinhos: daí o arrumarem-se, sempre àquela hora, uns aos outros.

Não Vai Nua

| sexta-feira, 6 de janeiro de 2012 | 9 comentários |
A velha grita impropérios no meio da sala. Está senil e rabugenta, mas ainda mantém o grau superior de hierarquia e por isso respeitam-na. Não é bem respeito; é subserviência canina.
Pertencesse ela à nobreza e, talvez uma criança já lhe tivesse apontado com o dedo a nudez, que é evidente. Mas não sendo rainha, e como ninguém lhe quer ver o corpo nú: um corpo seco, engelhado, estéril; a velha grita e a escória abana o rabo.

Dedos que Procuram Aliviar Um Tal de Prurido Sub-Abdominal

| sábado, 31 de dezembro de 2011 | 7 comentários |














Um poema senhor,
pede o homem no lugar da esmola;
Um poema apenas, um verso só: livre como se fosse ruivo.
Das dores ninguém me cura e da morte ninguém me salva:

Um frase simples, um verbo...todas as palavras contam na vida, todas!
As demais magoam as costelas, por isso há que contá-las...como os tostões.

Há que contá-las e rimá-las e confundi-las e acasalá-las, como se de amorzinhos se tratassem.
Mas nada que rime com cordões...Nada!
Há o perigo de  induzir nas falanges mal intencionados, ruins, escabrosas, morgadas, adjectivas, veja só:
ligações metamórficas dessa bolsa testicular, proverbial e rugosa, conhecida por: 
- Escroto!


#271

| | 2 comentários |
Ao que parece, quando a senhora Parker levou o neto a visitar o museu de história natural de nova iorque, nunca lhe passou pela cabeça que o miúdo fosse picado por uma aranha radioactiva. Estremeceu a idosa senhora só de pensar nas consequências:
  • Ai mê deus – Disse ela como quem invoca...Deus. - E se o mê néte desata a amarinhar p'las paredes sem mai' nem ménes, feite parve, todo vestide de vermelhe e azúle como um maulquinhe qualquer saíde do asile? Cruz Créde, livrai-nes senhôr.
Todos os dias úteis, vigiou a senhora Parker o sacrossanto neto, filho do seu filho, neto do seu avô, primo do seu primo, irmão da sua irmã, amigo do seu amigo. Mas nada! As mutações a nível celular que a senhora Parker temia, resquícios da radiação aracnídea: o lançar das teias, o sexto sentido , o subir p'las paredes, a agilidade de portageiro; nenhuma se revelou visível em tempo útil.
A única coisa que o TAC confirmou foi um cancro nos pulmões. O que muito aliviou a senhora Parker: lá em casa ninguém fumava.


http://www.youtube.com/watch?v=y8AWFf7EAc4&ob=av2e

White Russians (agora aprendeu esta dos títulos em inglês, diz que é para agradar a troika)

| sexta-feira, 30 de dezembro de 2011 | 4 comentários |

A esperança é sempre a última a morrer, dizem eles. Ora eu, uma vez quando tinha para aí seis anos, ou sete vá, fui numa excursão a Sagres pela 125, não a azul, aquela da morte de que se fala tanto agora, e nisto o autocarro dá uma guinada forte para esquerda, seguido de uma para a direita, perde o controlo e capota por uma ribanceira abaixo. Só parou por que havia lá embaixo umas rochas enormes que lhe serviram de travão. A minha colega de turma, a Esperança, moça que eu gostava secretamente com afinco desde que tinha começado a gostar de pessoas, para aí aos cinco anos, foi a primeira a morrer. Eu sei porque os contei. Primeiro foi a Esperança, que foi cuspida pelo vidro da frente indo abrir o crânio de encontro a uma das rochas supracitadas. Depois foi o Gustavo que morreu esgasgado com o gelado que lhe entrou de supetão pela garganta adentro. A Adelaide, que era amiga da Esperança e tinha apostado que esta seria a última a morrer, também espatifou a fronte no granito. O Diogo e o Tiago morreram espezinhados quando toda a gente fugiu em debandada, e, como eram gémeos, quando um morreu o outro ressentiu-se morrendo também e vice-versa. Eu só não morri porque estava a dormir e, como cantou o bardo uma vez: you are innocent when you dream. Além de que a morte é uma coisa séria; diga-se de passagem que eu, com seis anos, não estava nada preparado para morrer, por isso acho que tomei a opção correcta.

Ao que parece tudo aconteceu porque uma abelha entrou pela janela do motorista - é motorista ou condutor? Uma abelha, dizia eu, entrou pela janela do chauffeur a zunir para a frente e para trás, tipo abelha Maia (lá está) mas sem a permanente, e o pobre homem, o desgraçado moço digo eu, olha-me para a abelha e pensa: abelhas-flores-rosas. E nisto desata a invocar anos de outrora em que ofereceu pelo aniversário um ramo de rosas, a uma tia sua, mulher do seu tio, ou seja, tia emprestada, mas que era muita mais nova que o tio, muito bonita a magana, que por coincidência era mais ou menos da sua idade, e que, também por coincidência era portadora de umas protuberâncias mamárias dignas de registo mental, ou até mesmo de registo físico, se é que existem actas para tal, e que ele sem querer, quando o tio não estava a ver, escorregou e acabou por fazer o amor com ela.

A imagem da tia, que o visitava todos os anos por alturas das festas, alterou-lhe a disposição de tal forma que, imaginem só, o sangue que normalmente irriga o cérebro e o coração e outras cenas do corpo humano, tipo, concentrou-se todo, feito parvo, no coitado do orgão do homem.

Ora, como todos sabemos, o efeito erectus involuntarius, é uma das principais causas de morte nas estradas deste país. Ainda o homem não tinha feito bem a ligação consciente entre a abelha e a tia mamalhuda, e já o orgão erecto estava a empecer com o volante da viatura, para a esquerda e para a direita, a torto e a direito, como se tivesse vida próprio, o bandido.

Os olhos da Esperança eram verdes; verdes de Esperança, brincávamos nós quando a descreviámos ao Arnaldo que era um amigo nosso daltónico que não foi na excursão porque tinha acordado de manhã com uma diarréia por mór de comer muitos chocolates na véspera.

Anos mais tarde tive contacto com um filme que abordava a história verídica de um escocês highlander, McClaúdio de seu nome, que, esse sim seria o último a morrer. Se a Esperança o tem conhecido a tempo, talvez nunca se lhe encasquetasse na cabeça que seria a última a ir. Hoje se calhar até podíamos estar casados há trinta anos, com pequenas esperançazinhas a correr pelo jardim, a puxar as orelhas ao labrador e a cantar o atirei o pau ao gato. E daí talvez não: se bem me lembro, ainda a Esperança não tinha arrefecido já eu estava vidrado nos olhos azuis da Helena, que por sinal tinha as partes todas do corpo, que como vim a descobrir mais tarde: estavam todas no sítio certo.


Para a Fábrica de Letras - Crise