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por mais alguns 50 minutos

| sexta-feira, 27 de abril de 2012 | 1 comentários |

Espera lá, se a outra do meu futuro esperou por mim 50 minutos, e não me encontrou por eu estar aqui, não deveria ter chegado aqui 50 minutos depois, uma que pertencesse ao meu presente, à hora do nosso encontro, ainda que não soubesse nada deste tropeção quântico? Aquela que corresponde a este presente não marcou nada contigo. Como assim? Tu neste presente só existes a partir do momento em que chegaste aqui às 13h30; ainda não tiveste interacção com ninguém a não ser com essa outra que te piscou o olho e que tu deixaste ir. A tua existência neste tempo tem apenas 150 minutos, és um recém-nascido. 'pera lá, atão agora dizes-me que sou um bébé, 'tás parvo? Temporalmente neste espaço és uma criança, ninguém te conhece, és um estrangeiro. Um estrangeiro? O que é que isso quer dizer? Que tens que começar tudo outra vez, lamento. O quê, mas isso não é a reincarnação? Não quero, não vou repetir tudo outra vez. Tecnicamente não reincarnaste, antes destemporalizaste, por isso o começar tudo de novo não tem que ser mau, vê pelo lado bom, podes corrigir ou evitar os erros do teu antigo passado, construir aqui um presente melhor, serás um homem mais evoluído, terás as presciência do engano. Serei um homem do futuro! Exacto, um homem do futuro, mas no passado é claro. Sempre à frente. Nem que seja por 50 minutos.
Deus dá nozes a quem toca guitarra.

Mão ao Ar! Isto é um Governo

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"Sei que pareço um ladrão
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer o que são
são aquilo que eu pareço"

António Aleixo

Asneira

| terça-feira, 17 de abril de 2012 | 9 comentários |

Sai do banho e cometi uma das maiores anseiras da minha vida: desfiz a barba. Senti-me despido. Uma brisa incómoda e estranha atravessou todo o meu ser. Lembrei-me depois que estava efectivamente despido e vesti-me. Mas já não era o mesmo. O indivíduo que se levantou de manhã não era o mesmo que saía de casa agora; tinha havido uma evolução. Cortei cerce com o passado cro-magnon e revesti-o de bálsamo perfumado homo sapiens. Na rua ninguém me reconhece. A cara descoberta encobre paradoxalmente a minha entidade, sou outra pessoa. O carteiro não me reconhece, nem a menina no café; eh lá, pensei, olha que isto ainda é capaz de ter as suas vantagens. Não mais vou ter que aguentar as desmesuradas secas que o maluquinho da bola me dá todos os dias, junto ao quiosque, quando compro o jornal. Dou-lhe os bons dias e ele embrenhado nas páginas sebentas do benfica-sporting-porto, não retibui, grunhe apenas.
Ao passar em frente de uma loja reparo com o canto do olho que sou acompanhado por um esbelto jovem modesto, quem será, interrogo-me. Viro-me repentinamente e apercebo-me que o jovem não passa da minha própria imagem reflectida na montra. Olha que surpresa agradável, inclino-me para frente e cumprimento-me respeitosamente, o duplo faz o mesmo.
Como se de um verdadeiro estranho se tratasse ninguém me reconhece no local de trabalho. Mas se sou eu, reclamo. Eu também sou eu, diz-me um, eu somos todos, atira outro. Mas eu sou mesmo eu, sou aquele eu que estava aqui ontem, afirmo veementemente. Aquele que estava aí ontem era outro, responde o chefe de secção. Outro que sou eu! Gritei já um pouco irritado. Se é outro não pode ser voçê, além do mais ainda há pouco disse que era eu. E nisto chamou a Segurança. Fui arrastado para a rua por dois gorilas que me empurraram porta fora sem apreço maior pela minha identidade. O dia não me está a correr nada bem, cogitei por momentos. Olha do que eu me havia de lembrar logo de manhãzinha, eu e as minhas ideias idiotas, agora nem sou eu nem o outro; havia de cair-me um piano em cima por cada asneira que faço na vida.
De caminho para casa sou atingido por algo. Olho para trás e não vejo ninguém, aliás, toda a rua está deserta. Agacho-me para examinar o estranho objecto quando sou atingido outra vez, tu queres ver, tu queres ver, irrito-me um bocado. Olho para o céu e toda a pele se me arrepia em modo galináceo: do nada começara a cair uma chuva forte de pianos de cauda.

...Ex-Machina

| terça-feira, 10 de abril de 2012 | 6 comentários |

A máquina de encher egos cresce de dia para dia, a olhos vistos. Quem diria que um dia, um simples engenho: duas rodas dentadas, uma manivela, se tornaria no mastodonte tecnológico que agora vemos aqui. No ínicio uma alma apenas operava a máquina; sem pressas, sem ajudas, uma senhora, já velhinha até, dava uma voltas à manivela e nem se dava conta de que o ego lhe crescia acrescentando assim tamanho à maquina. Hoje, já nem conseguimos apontar o sítio original onde ficavam as rodas dentadas e muito menos a manivela. A senhora ainda continua lá, ela e pelo menos mais trinta indivíduos, todos empenhados em fazer crescer a máquina enchendo consequentemente o ego. Agora sentam-se em circulo, adoptam a posição fetal que é a posição em que melhor podem observar o próprio umbigo, e, em vez da manivela pressionam-se botões, teclados e acendem-se monitores e ecrãs LED. Longe vão os tempos da simplicidade digo-vos eu, a máquina já atingiu mesmo o estatuto de hardware de alta qualidade; há até quem lhe chame EGOTRON, um nome que aponta caminho para o futuro e para mais crescimento e ego, eu cá chamo-lhe MASTURBATORIUM, que é o que aquilo é.

#290

| quinta-feira, 5 de abril de 2012 | 7 comentários |

Romualdo um dia descobriu que cada vez que tomava banho perdia cabelo. Ó inglória realidade que bates mais que um camião TIR desgovernado no meio da EN125. Será isto o começo, pensou; perder cabelo todos os dias ao sair do banho, num lenta ainda que asséptica descida aos infernos da calvície?
São estes pequenos sinais que nos alertam para a chegada da vida mais adulta ainda. Um rol de dúvidas que assalta a mente do indivíduo quando este se depara com o princípio do fim da juventude e o fim da ramboia por princípio.
Em Romualdo um prurido dramático sobressaía por entre todos os outros que se acotovelavam no seu estiramento filosófico:
- Ficar careca ou deixar de tomar banho – eis a questão.


porque foi inspirado no post dela e, para dar continuidade ao velho hábito tibetano de não dar selos a ninguém, ofereço esta posta virtual à Maria.  

Autopsicografia Clínica

| quarta-feira, 28 de março de 2012 | 12 comentários |

- Ajude-me doutor que me doi aqui a poesia!
Já está: o médico já não trata só das dores nos ossos, nem do atrofio dos músculos, nem sequer das maleitas dos intestômagos; o clínico actual também trata da alma. O paciente já não é paciente, é ansioso e exige respostas imediatas, quer a nível da linguística quer a nível da metafísica.
Este que aqui vemos tropeçou num verso e deslocou uma rima. Há que medir os níveis silábicos e realinhar os quartetos com os tercetos. Corre o sério risco de infectar o Soneto se não forem tomadas as devidas precauções. Mas o médico que passou longas horas a estudar o luar sabe o que fazer para amenizar essa dor que vem de dentro e que arde sem se ver.
- Vá p'ra casa homem! – exorta o médico– E não pense mais nisso.
- Só assim doutor, não me passa nada para as dores?
O médico sabe ao que o doente vem, já lhe conhece as manhas «quer que eu lhe receite Pessoa, está viciado».
- Dois de Bocage: ao acordar e depois do almoço e um de Camões à noite. E nada de escrever verso livre depois das dez, ouviu? Volte cá daqui a duas semanas.
- Obrigado doutor – agradece o homem resignado: sai cabisbaixo mas aliviado, já não carrega nos ombros o peso do mundo, parte desse fardo deixou-o no consultório, com o médico, que já não sabe o que fazer com tanta desgraça.


Como não tenho por hábito oferecer selos (nem recebê-los), ofereço ao Catsoman esta pequena prosa em formato de posta cibernética. 

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| quinta-feira, 22 de março de 2012 | 5 comentários |
Surge quase sempre de mansinho, pela madrugada, como quem não quer a coisa, insinuando-se pelos lençois como se fosse uma gripe de qualquer espécie. No entanto a temperatura não sobe. Depois, já entranhado no corpo adopta o comportamento do cancro e espalha-se em todas as direcções. Abate leve, levemente, como quem chama por mim...Ainda pensei que fosse droga ou alguma espécie de aguardente, mas nem o medronho me abate assim. Fui ver, não era nada, absolutamente nada, era o vazio de tudo e de todas as coisas. A ausência que incomoda. Zero, o número inventado pelos indianos. Cabrões dos indianos.

O Rebanho

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Tal como o heterónimo do outro também Abrenúncio tem os pensamentos em rebanho. Um rebanho que leva a pastar pelos campos empedrados da urbe quando sai de casa a pé. O rebanho de Abrenúncio é agitado e convulsivo, o que provoca o maior tumulto entre os transeuntes velhos, que são empurrados contra a parede à passagem de Abrenúncio que vai a pensar à força toda: tem as ovelhas mais rápidas a sul do Vascão.
Por vezes um ou outro pensamento tresmalha-se e Abrenúncio perde muito tempo à sua procura, por entre canteiros e debaixo dos carros mal estacionados. Outras vezes, de tão organizados, atravessam as passadeiras em fila indiana, como se fossem bem educados. À noite é que é o diabo, saltam obsessivamente por cima da cerca enquanto gritam obscenidades.
Já pensou em comprar uma caçadeira e acabar de vez com este rebanho selvagem e indisciplinado que o atormenta. Por ora, e como é preguiçoso até a tomar decisões drásticas, Abrenúncio vai levando a coisa com pachorrenta ansiedade, limitando-se a tosquiar um ou outro pensamento em época de crise, por cima da moleirinha, que é onde eles são mais guedelhudos.

O Nariz Vermelho

| quarta-feira, 21 de março de 2012 | 6 comentários |
O Palhaço Anacleto cai pela centésima vez e o resultado é o esperado, a gargalhada geral. Tropeça, cai, levanta-se, é esta a mecânica do bobo. Magoa-se, estão lá as lágrimas pintadas para o provar, levanta-se desentorpece o corpo e sorri. É o que se espera dele: cair e aleijar-se. É um trabalho como outro qualquer; ele desempenha-o na perfeição e o público aplaude.
O público fiel do Palhaço Anacleto não são as criancinhas como era de esperar, antes os pais destas. As crianças estão lá é certo, a acompanhar os pais, mas só para aprenderem desde cedo a fina arte de ser cruel.
O Palhaço Anacleto é a medida de todas as coisas negativas na Cidade. Existe para nos relativizar no fracasso. «Ao menos não sou o Palhaço Anacleto» pensa o sujeito ao ver a vida transformada numa fossa de infelicidade e frustração. É o maior insulto quando se quer magoar alguém «és um Palhaço (Anacleto)!» ouve-se frequentemente.
Ninguém quer ser como o Palhaço Anacleto e é por isso que o vamos ver, para nos certificarmos que não somos ele. O Palhaço Anacleto vicia mais que a heroína. Cada queda, cada trambolhão, é um chuto de tranquilidade superior que nos percorre o corpo e nos ameniza o sofrimento.
Jesus pode ter morrido pelos nossos pecados mas o Palhaço Anacleto cai todos os dias pelas nossas dores.

#282

| terça-feira, 20 de março de 2012 | 9 comentários |
- Há dias em que só me apetece começar a beber de manhã e só parar dois anos depois.
- Porquê dois anos?
- Não sei, pareceu-me adequado.
- Se tivesses dito três, podias depois justificar-te dizendo que três foi a conta
que deus fez.
- É uma sede existencial que me assola mal abro os olhos. Parece que acordo com o sabor do esquecimento a escorrer-me p'las goelas abaixo, é uma sensação tão forte que quase consigo tocar-lhe, sabes?
- Não sei mas imagino. Tive um tio que às vezes acordava assim, a última vez que isso lhe deu, saiu de casa para beber um copo 3 e desapareceu ao fundo da tasca.
- Desapareceu?
- É verdade. Sentou-se ao fundo da tasca a beber e foi desaparecendo, desaparecendo, sem ninguém dar por isso, e quando finalmente alguém deu pela sua falta já ele não estava lá.
- Às vezes também me sinto assim, sabes, como se fosse invisível, como se não produzisse sombra, como se fosse um espectro.
- Se calhar estás morto.
- Acho que não. Mas sinto a falta de qualquer coisa.
- Do tal copo?...
- Não, mais forte que isso...
- Posso dar-te com um banco na cabeça.
- Sinto que estou a deixar escapar qualquer coisa, por entre os dedos, como se fosse areia fina, e quando tenho esta sensação só me apetece fazer disparates.
- Sei o que é isso. Tive um primo que também tinha essas sensações. Um dia resolveu jogar roleta russa sozinho, mas como não sabia as regras do jogo, carregou a arma por completo e perdeu logo à primeira jogada.
- Ui!
- Pois, foi o que ele disse.