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#282

| terça-feira, 20 de março de 2012 | 9 comentários |
- Há dias em que só me apetece começar a beber de manhã e só parar dois anos depois.
- Porquê dois anos?
- Não sei, pareceu-me adequado.
- Se tivesses dito três, podias depois justificar-te dizendo que três foi a conta
que deus fez.
- É uma sede existencial que me assola mal abro os olhos. Parece que acordo com o sabor do esquecimento a escorrer-me p'las goelas abaixo, é uma sensação tão forte que quase consigo tocar-lhe, sabes?
- Não sei mas imagino. Tive um tio que às vezes acordava assim, a última vez que isso lhe deu, saiu de casa para beber um copo 3 e desapareceu ao fundo da tasca.
- Desapareceu?
- É verdade. Sentou-se ao fundo da tasca a beber e foi desaparecendo, desaparecendo, sem ninguém dar por isso, e quando finalmente alguém deu pela sua falta já ele não estava lá.
- Às vezes também me sinto assim, sabes, como se fosse invisível, como se não produzisse sombra, como se fosse um espectro.
- Se calhar estás morto.
- Acho que não. Mas sinto a falta de qualquer coisa.
- Do tal copo?...
- Não, mais forte que isso...
- Posso dar-te com um banco na cabeça.
- Sinto que estou a deixar escapar qualquer coisa, por entre os dedos, como se fosse areia fina, e quando tenho esta sensação só me apetece fazer disparates.
- Sei o que é isso. Tive um primo que também tinha essas sensações. Um dia resolveu jogar roleta russa sozinho, mas como não sabia as regras do jogo, carregou a arma por completo e perdeu logo à primeira jogada.
- Ui!
- Pois, foi o que ele disse.

29

| quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012 | 7 comentários |
Quando acordou de manhãzinha, Abrenuncio soube de imediato que o dia lhe ia correr mal.  Os ossos latejavam por todos os lados, as articulações rangiam e sentia um frio ligeirinho correr dentro de si.
«Tu queres ver que eu estou doente?» Virou-se para um lado e depois para o outro como que a tomar coragem para sair da cama. Mas havia uma força maior que o empurrava para o fundo dos lençois, uma vontade maligna que o incitava a ficar na cama, enredava-se nas suas malhas cada vez que se movia e, cada vez  se atascava mais; como quem se afunda em areias movediças. Quanto mais pensava em sair da cama mais lhe pesavam os olhos e a cabeça. «Que força é esta que trago nos braços que me aconchega os travesseiros e desliga o rádio?». Abateu-se de cansaço e ressonou um bocadinho para se recompor.
Levantou-se num salto, carregado de uma nova energia cheia de boa disposição. Fez o café e tomou o pequeno almoço com apetite. Agora sim o dia começava bem. Enquanto lavava os dentes lembrou-se de uma Ária d’ A Flauta Mágica e pôs-se a cantar: Der Hölle Rache kocht in meinem Herzenao que o bidé e a banheira replicaram: Tod  und  Verzweiflung  flammet um mich her!
Que alegria estar vivo!
Estava nestes preceitos quando o seu bissexto sentido deu o alarme, «pera lá…, mas eu não sei falar alemão, e o bidé parece-me um pouco desafinado», e como quem cai duma nuvem Abrenúncio acordou outra vez, mais enredado ainda nos lençóis e mantas que o aprisionavam.
A hora de se levantar já zarpara há muito e a manhã de trabalho dada como perdida em delírios de bidé e Mozart. Abrenúncio, vencido, chorou muito; havia sido traído pelo  cérebro, o seu melhor amigo. Certo era que não faria mais nada o resto do dia – o seu corpo não lho permitiria. Estava prisioneiro de si mesmo.
Aos poucos o choro intempestivo foi dando lugar a uma relaxante acalmia, e Abrenúncio, abatido de cansaço, ressonou mais um bocadinho, para se recompor. 

A Automotora

| terça-feira, 7 de fevereiro de 2012 | 17 comentários |
Em dias soalheiros de calor primaveril, Romualdo sente-se em baixo. Não lhe agradam as pessoas na rua que passeiam em manga curta como se não fosse Inverno. É um insulto à Natureza, pensa ele. O Inverno é uma estação de tragédia e calamidade; vai bem com trovoadas ribombantes e enxurradas devastadoras. Deve ser cinzento e frio, e escuro. Que vem a ser isto de passear no jardim e preguiçar nos bancos à beira ria.  Até os pescadores se desfazem em rasgados sorrisos para as objectivas dos turistas. E os turistas que fazem eles aqui? Vão-se embora, invectiva mentalmente Romualdo. Não há poesia nenhuma nas ruas cheias e luminosas deste Inverno. As vielas têm que estar desertas, como as folhas caídas que se movem num bailado fantasmagórico, embaladas pela ventania que ecoa nas paredes dos prédios. Que é isto de fazer piqueniques ao domingo como se não houvesse frio? Gostavam que nevasse na praia em pleno Agosto? Como é que uma pessoa pode trabalhar nestas condições?
Romualdo sente-se como um urso bipolar; e nisto chega à estação dos comboios: a única estação que o compreende. Junto à linha, um maquinista olha embevecido a sua automotora que reflecte dourada o sólinho da manhã.

Uma Questão de Nervos

| segunda-feira, 16 de janeiro de 2012 | 16 comentários |
O homem tem uma reunião importante e já está atrasado, muito atrasado. A senhora idosa, munida de umas andas de quatro pernas, está parada no meio da passadeira exibindo um ar introspectivo. Há uns bons dois minutos que a cena dura; o homem aperta o volante com as duas mãos como se este fosse o pescoço da velha; sua em bica e morde o lábio de nervosismo «não pode ser, isto não me está a acontecer» - rumina.
A senhora no meio da estrada mostra-se indecisa, tenta lembrar-se de algo, parece ter-se esquecido do que a levou ali, como chegou e até de como se ir embora. Dá dois passos à frente, estaca, tenta fazer meia volta e queda-se pensativa. «Seria à farmácia que eu queria ir? Não, já fui ontem, deve ser à mercearia...P'ra que lado fica a mercearia?» O homem dentro do carro já tirou a gravata e agora apita como se estivesse num engarrafamento, mas não lhe vai servir de nada porque a senhora esqueceu-se do aparelho em casa.
«Espera lá...,Da mercearia não preciso de nada que eles levam-me tudo a casa, eu devo ir é à cabeleireira...» outra meia volta e mais dois passos em frente. Pára outra vez.
O homem puxa o cabelo para trás e desabafa ansioso «velha do caralho nunca mais morre!» E nisto surge-lhe uma ideia luminosa: olha para a esquerda e para a direita e novamente para a esquerda, mira de soslaio o retrovisor, mete a primeira e arranca a patinar numa chiadeira de pneus estrondosa. A senhora é que não ouviu nada, nem o arrancar do motor, nem a barulheira dos pneus: esqueceu-se do aparelho em casa, já se disse.

Uma Questão de Comércio

| sexta-feira, 13 de janeiro de 2012 | 9 comentários |
O homem bêbado está apaixonado pela mulher do café. Então todos os dias vai ao estabelecimento e encosta-se ao balcão a beber mines e a suspirar. Passa os dias inteiros nisto: a beber e a admirar a apaixonada, com os olhos melosos de amor e bebedeira. Ela, uma vez por outra, sorri-lhe; pisca-lhe o olho, roça a mão na dele quando lhe entrega uma cerveja, incentiva-o. Não que goste dele, não, odeia bêbados; mas o homem é um bom cliente.

Uma Questão de Tempo

| quinta-feira, 12 de janeiro de 2012 | 8 comentários |
«Um poema por dia, não sabe o bem que lhe fazia» disse-lhe o médico. «Mas...é para ler ou para escrever, doutor?» Questionou o homem. «Tanto faz!»
O homem foi para casa, sentou-se à escrivaninha e desatou a escrever poemas. Primeiro foram-se-lhe as dores de cabeça, depois as dos ossos, a seguir as insónias e ao fim duma semana já nem sequer fumava. A notícia espalhou-se rápida pelo bairro, havia um poeta milagroso ali mesmo à mão de semear. Não durou muito tempo para que longas filas de enfermos se formassem à sua porta. O homem escreveu poemas a torto e a direito: alexandrinos, de verso livre, sonetos, o que melhor se adequasse à condição do doente. Dia e noite era só que fazia, escrever e escrever e escrever.
Os patos, os gansos e as galinhas que os clientes lhe deixavam em forma de pagamento não serviram de nada, e o homem um dia acabou mesmo por morrer de fadiga e à fome. Pelo bairro, no entanto, respirava-se um profundo ar de saudável cultura e erudição.

Uma Questão de Energia

| quarta-feira, 11 de janeiro de 2012 | 8 comentários |

Ora, depois de ouvir dizer que os hidratos de carbono e as leguminosas eram excelentes fontes de energia, o homem, decidiu comer uma feijoada antes de ir para o ginásio. Serviu-se de um prato generoso, enfardou como se tivesse a troika à perna e ala que lá vai ele para o ginásio. Um pouco ensonado, sim, mas sentindo realmente uma estranha energia.
Fez-se ao tapete rolante, furibundo, como quem diz «é hoje que eu te vou domar meu sacana». Pouco depois de começar a correr, em passo arrastado, notou uma estranha movimentação nos intestinos que se traduziu no comum peidar. Um, dois, três de seguida. A príncipio sentiu-se um pouco embaraçado mas depois reparou que cada vez que soltava uma ventosidade, um pequeno efeito propulsor empurrava-o para frente acrescentando um novo alento à corrida. «Eh lá! Afinal não é só quando um homem sonha que o mundo pula e avança».
Às tantas dominou as contracções do intestino ao ponto de poder soltá-los a seu bel-prazer. Parecia uma mota a soltar rateres na Concentração de Faro. Correu desvairado, como se o vento o empurrasse. Naquele dia fez uns bons 5km, o que pare ele era um record pessoal, nunca antes havia passado da marca dos 300 metros.
Quando acabou, a sala estava vazia e a senhora da recepção apresentava um ar ligeiramente agoniado. Ele sentia-se um homem novo, mais leve, mais enérgico.

Uma Questão de Código

| terça-feira, 10 de janeiro de 2012 | 5 comentários |
Se a rua está congestionada e o sinal dos peões, vermelho, o homem tenta a todo custo atravessar a estrada. Corre, atrasa o passo, desvia-se, equilibra-se em bicos de pés até conseguir por fim, chegar ao outro lado. Por outro lado, se o sinal está verde e a estrada desocupada, o homem queda-se estático em frente da passadeira.
O homem não sofre de nenhuma perturbação mental e compreende perfeitamente o código da estrada. O que o homem não gosta é que lhe digam o que fazer.   

Uma Questão de Espaço

| segunda-feira, 9 de janeiro de 2012 | 7 comentários |
O homem passa sempre à mesma hora e assiste sempre ao mesmo filme: os arrumadores, muito juntinhos, formam um quadrado perfeito, virados uns para os outros, numa figura geométrica humana fechada em si mesmo. Ocupam somente uma pequena porção do passeio, um metro quadrado, admita-se. Entre os transeuntes que passam àquela hora, indíviduos que não têm o olhar treinado do homem, diz-se que por ali há tráfico de droga. Nada poderia estar mais longe da realidade, pensa o homem com um sorriso interno. O que o comum indivíduo não sabe; o que o cidadão cumpridor não sonha, é que é tudo uma questão de espaço. Os arrumadores são muito arrumadinhos: daí o arrumarem-se, sempre àquela hora, uns aos outros.

Não Vai Nua

| sexta-feira, 6 de janeiro de 2012 | 9 comentários |
A velha grita impropérios no meio da sala. Está senil e rabugenta, mas ainda mantém o grau superior de hierarquia e por isso respeitam-na. Não é bem respeito; é subserviência canina.
Pertencesse ela à nobreza e, talvez uma criança já lhe tivesse apontado com o dedo a nudez, que é evidente. Mas não sendo rainha, e como ninguém lhe quer ver o corpo nú: um corpo seco, engelhado, estéril; a velha grita e a escória abana o rabo.