É triste. É tudo
tão triste. Começa com um piano que marca preguiçoso um compasso simples,
pergunta e responde conforme avança. O executante parece não querer mais
levantar as mãos cada vez que as pousa no teclado. Arrasta depois uma melodia:
uns versos lentos e melancólicos como quem boceja nostálgico, como quem acorda
drogado de saudade.
Entra o violino…
Que angústia! Um sofrimento que se prolonga quase até deixar de ouvir-se, um
esgar no rosto, uma nota suspensa de aflição. O piano martela aqui e ali como
que a chamar para a realidade, mas o que se mantém é aquela expressão
paralisada de medo: uma boca de braços em baixo, um olhar de mãos pendidas. O
ambiente aquece com a voz semi-rouca do violoncelo que surge qual bálsamo
conciliador. Ameniza acolá a ferida aberta com uma escala ou duas.
Depois parece deixar-se levar pela entropia e mais não faz que sublinhar a dor.
Harmonizam os instrumentos; reparamos agora que também há uma espécie de
xilofone baixinho a sustentar todo o edifício. Agora estão todos de acordo: não
há nada a fazer, é deixar sufocá-lo, é deixá-lo ficar. Saem de cena, um a um,
os instrumentos ao de leve, como uma brisa que se deixa de sentir. Fica apenas
o violino, em suspenso como entrou: um chorar baixinho sem lágrima, uma nota só
que se mantém equilibrada sob ameaça de extinção, indelével, incorrupta, como o
passado que paralisa à noite, como uma droga.
Moon
Moon
3 comentários:
25 de janeiro de 2013 às 22:24
É bonito. É tudo muito bonito neste texto.
25 de janeiro de 2013 às 22:24
tenho pena que tenha sido essa a música.
27 de janeiro de 2013 às 23:47
Parece triste mas não é.
O violino é difícil e não é para todos. Isso eu sei!
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