O Corte

| quinta-feira, 30 de julho de 2009 | |

Como não lidava bem com a rejeição, rejeitava antes de ser rejeitada. Para Zelmira o mundo era um sítio hostil, governado por deuses de dentição ofuscante e porte espadaúdo. Atravessava as ruas com a timidez própria de quem não se sente entre iguais. Sentia que a sua aparição em público era algo pouco tolerado pelos outros, os perfeitos. Por todo lado deparava com a felicidade de mãos dadas com a boa semelhança. A sua dor era não tanto a rejeição a que os outros a votavam, mas mais a exclusão a que ela própria se obrigava.
Quando chegava a casa, ao fim do dia, revia mentalmente as suas frustrações e por cada uma delas, abria um corte no corpo. Pernas e braços expunham-se cicatrizados como um mapa rodoviário do sofrimento. De solidão falavam os cortes mais profundos, invisíveis ao olhar; os sofridos no interior de si, no âmago do seu ser. Os pistoleiros costumavam talhar o cabo do revólver, por cada morte obtida em duelo, os pilotos da primeira grande guerra faziam o mesmo. Ao pôr-do-sol, no final dos duelos e poisadas as máquinas voadoras, os guerreiros repousavam junto das suas amantes e amadas e faziam amor. Ao mesmo tempo, noutra época do futuro, ou talvez do passado, Zelmira bebia chá e fazia amor com quem lhe dava mais atenção: o canivete.