O Calor

| terça-feira, 14 de julho de 2009 | |
«Calor do caraças!». Era Labregoísio quem se queixava. Andava para baixo e para cima, no Palácio da Justiça a mover processos e outras caixas cheias de papelada para a cave. A cave era o único sítio onde os magistrados conseguiam trabalhar sem tirar a roupa. Há muito que as salas do primeiro e segundo andar eram um espectáculo para a população. Não porque se julgava o caso de um sanguinário serial killer, não. Quem enchia as salas, ia lá, não para ver a justiça ser feita, mas para poder ver a Assistente do Ministério Público em cuecas. Era algo que no meio do calor abrasador, distraía as pessoas.
Labregoísio gostava da Assistente do Ministério Público, a Eufrázia. Foi por ela que aceitara aquele trabalho a meio do verão. Foi também por causa da Eufrázia que destruíra o sistema de ar condicionado dias antes. Queria vê-la sem roupa. Já uma vez tinha tentado, numa saída à noite. Depois do cinema ele pediu para ela se despir e ela deu-lhe um estalo. Agora que ela finalmente se apresentava nos preparos que ele desejara, andava ele num vaivém intermitente entre a cave e o primeiro andar. «Não é justo!» resmungava Labregoísio no edifício onde todos se pautavam pela justiça. Subia e descia as escadas, com ar maldisposto e a camisa colada ao corpo, de vez em quando suspirava:«Calor do caraças!»

4 comentários:

calamity Says:
14 de julho de 2009 às 21:52

é o que se chama justiça poética ;)

El Matador Says:
14 de julho de 2009 às 22:04

A maldita da justiça poética(rsrs).

Joaninha Says:
17 de julho de 2009 às 13:57

A justiça tarda mas mão falha, mais tarde ou mais cedo, ele há-de apanhar a zeferina talvez a caminha da casa de banho quem sabe ;)

HOmem tu escreves muito bem pá.

beijos

El Matador Says:
17 de julho de 2009 às 14:11

Sim, um encontro fortuito a caminho da casa de banho ia mesmo a calhar no caso dele.

Obrigado Joaninha.