Quando bateu a meia noite o senhor Honório ergueu o copo de whisky e com a voz entaramelada brindou: «À tua puto,... Mais um aninho hein? Se soubesses o que se faz por aqui em teu nome, deixavas de nascer todos os anos». Emborcou o copo e como se lhe faltasse qualquer coisa voltou a enchê-lo. O senhor Honório na sua idade avançada aprendeu a desgostar o Natal. Sentado na poltrona em frente da televisão assistia a todo aquele espectáculo triste de ignomínia e publicidade. Acendia uma vela, que colocava à janela para alumiar o caminho das almas, e bebia whisky até desmaiar. A alma que ele queria encaminhar até junto de si era a da sua mulher que tinha morrido no Natal. Ele, que era um anarquista dos antigos, nem sequer acreditava em almas, nem em milagres nem no menino Jesus, mas o peso da solidão tornara-se ao longo dos anos numa saudade impossível de carregar. Sentia saudades da sua companheira e das noites de Natal passadas com ela. As recordações mescladas com a dor que sentia nos ossos traziam ao de cima o seu mau feitio e logo se punha a gritar impropérios contra um deus invisível: «P'RA QUÊ QUE FOSTE FAZER O NATAL NO INVERNO?» Dizia coisas destas e os olhos enchiam-se-lhe lágrimas, «Ai, ai» choramingava. Sentia saudades de si próprio, da sua força e juventude. Bebeu mais um copo e voltou a dialogar consigo próprio: «Já não sou ninguém, sou farrapo...um farrapo OUVISTE?» Voltaram-lhe as memórias da mulher, de como ela o acordava sempre com mimos na manhã do dia 25, e foi embalado nessas recordações de tempos felizes que se entregou a Morfeu. Morfeu, apiedou-se da tristeza engelhada do velho e na manhã seguinte já não o devolveu ao século.
Para a Fábrica de Letras - Natal
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