O Aterro

| quarta-feira, 15 de julho de 2009 | |
Zeferino olhava para a cidade e entristecia-se. O que antes fora um local aprazível para se viver, brindado com o recorrente espectáculo do por-do-sol, hoje não passava de um mero galinheiro. Um aterro, melhor dizendo. As asneiras feitas em nome do progresso e o milagre da multiplicação dos corruptos, tinham conseguido tornar a cidade numa amálgama cinzenta de pó, cimento e esterco. De onde estava, Zeferino já não conseguia ver a casa onde tinha nascido, nem as ruas onde aprendera a andar de bicicleta. Agora só havia prédios e carros. Prédios onde moravam as pessoas que, tinham carros para se deslocarem até aos prédios. No antigo estádio de futebol, os dois candidatos digladiavam-se, na ânsia de assumir todo o poder e todo o exército de lambecusistas que lhe era inerente. Do pouco que assistiu, Zeferino viu, o candidato da Rua X a mastigar um bocado do nariz do candidato da Avenida Principal. Mas, num volte-face inesperado, o candidato da Avenida conseguira colocar-se numa posição de vantagem e arrastava agora o da Rua X pelas orelhas. O povo delirava ao rubro. Havia sangue, o povo gosta de sangue. As crianças, embrutecidas, comiam carne e rebolavam-se pela relva.
Zeferino recolheu ao quarto, agarrou numa folha de papel e começou a escrever:«Caro Eric, a tua profecia cumpriu-se: chegámos a 2009 e os porcos continuam a triunfar».

4 comentários:

roserouge Says:
15 de julho de 2009 às 20:19

Em qualquer subúrbio perto de si...

El Matador Says:
15 de julho de 2009 às 20:22

Aberto aos domingos.

roserouge Says:
19 de julho de 2009 às 21:39

Comé, pequeno? Não há mais histórias? Estás com a síndrome da folha de papel em branco, ou mais exactamente, a síndome do monitor negro?!...

El Matador Says:
19 de julho de 2009 às 22:15

Tou com cãibras no cérebro.