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5 de Junho

| sexta-feira, 10 de junho de 2011 | 15 comentários |
-É como te digo, esta situação faz-me lembrar aquela história do urologista. - Abrenúncio exclamava em gestos largos para um Labregoísio atento ainda que um pouco desconcertado.
- Depois de um longo dia de trabalho deu-se conta de que lhe faltava a aliança de casamento. Analisou rápida e criticamente a situação e concluiu que tinha perdido o anel durante um dos inúmeros toques rectais que havia feito durante o dia. Podia ter seguido para casa e explicado à mulher o incidente e a coisa resolvia-se por ali sem mais delongas, na verdade e sinceridade que haviam jurado um ao outro perante deus. Mas o médico escolheu o caminho mais longo, como tantas vezes na vida todos fazemos. Agarrou nos processos e telefonou a cada um dos pacientes a quem tinha feito o exame. «Procure nas fezes» dizia ele, «remexa bem com atenção, que ele há-de aparecer». Os doentes, na ânsia de ajudar o doutor, quando iam à casa de banho lá se punham a remexer o fundo da retrete com o intuito de subitamente verem aparecer no meio da merda um brilhante anel de ouro. Ao fim e ao cabo é o que todos desejamos.
A um outro, que sofria de prisão de ventre, pediu-lhe que com o dedo indicador, procurasse pelo reto, o precioso anel. «Insira bem para dentro o dedo, em movimentos circulares» e o homem, por respeito ao médico lá ia fazendo tudo o que este lhe pedia. Era a segunda vez naquele dia que tinha um dedo espetado pelo cu acima. A situação, que até podia ser cómica se não fosse já trágica desde o começo, tomou proporções surrealistas quando a mulher do paciente entrou de repente na casa de banho e deu de caras como marido, calças pelos tornozelos, telemóvel encostado à orelha, olhos esbugalhados e a mão direita já quase toda dentro do cú.
- E o médico, chegou a encontrar o anel? - Inquiriu Labregoísio.
- Encontrou, encontrou – Suspirou Abrenúncio – Estava no lavatório da casa de banho do consultório.
- Tchhhh!!!
- Pois é – concluiu Abrenúncio depois de mais um gole de cerveja – há dias em que também eu me sinto assim.
- Como se tivesses perdido um anel?
- Não, como se me tivessem a meter o dedo no cú.

O Passeio

| quinta-feira, 9 de junho de 2011 | 16 comentários |

"Poente, fogo na Ria,
Sete cores desiguais.
Chilram aves morre o dia
E vertem sangue os sapais..."
Raul de Matos


Labregoísio sentiu a chapada forte que Abrenúncio lhe deu no cachaço e voltando-se lentamente perguntou: era mesmo necessário? Abrenúncio fez tenção de abanar a cabeça afirmativamente quando foi interrompido pelo real chapadão que Romualdo lhe espetou na testa, parecendo-lhe ter ouvido o eco dentro da cabeça. 
- Temo que isto não tenha acabado aqui! - Declarou Romualdo com ar zangado. Abrenúncio mordia o lábio de irritação quando surgiu Anacleto, que tinha ficado para trás a apertar os atacadores dos sapatos, e, sem pré-aviso, começou a distribuir chapadas por toda a gente: na testa de Abrenúncio, na cara de Romualdo no braço de Labregoísio, que se tentava defender a todo o custo. A situação era tensa e os presentes miravam-se com desconfiança e cautela. As marcas por todo o corpo começavam a dar um ar rosáceo de sua graça e a fazerem-se sentir no incómodo que eram para os seus portadores.
Depois de mais uma chapada de mão aberta que lhe apanhou parte da testa e parte do olho direito, Romualdo, que era o mais pragmático do grupo, resolveu por os pontos nos ii. Largou um estaladão na orelha de Anacleto e declarou:
 - Irmãos! Receio que tenha chegado a hora de partirmos. A situação torna-se insustentável.
- É verdade! Pois claro! - Concordavam os outros, que agora se auto-flagelavam com os olhos postos em Romualdo.
- Como nota futura sugiro que para a próxima vez alguém se lembre de trazer repelente para mosquitos. Isto de andar à estalada é muito bonito mas começa a ser cansativa esta batalha contra as melgas.
- Tem razão! – Concordaram todos, e ao som de chapadas secas a ecoar nos corpos, de lástimas e pruridos, abandonaram apressadamente o sapal. Na Ria, como no poema, o sol incendiava o horizonte em sete cores desiguais.

Para a Fábrica de Letras - Os Problemas Resolvem-se À Chapada

#248

| segunda-feira, 30 de maio de 2011 | 13 comentários |
"Mares convulsos, ressacas estranhas
Cruzam-te a alma de verde escuro
As ondas que te empurram
As vagas que te esmagam…"
Xutos e Pontapés

Abrenuncio, por vezes, sente-se encurralado entre dois mundos. Um sentimento crescente que agora lhe dá para analisar. Do ponto de vista romanesco-literário situa-se entre Kafka e Pedro Paixão. Vive o absurdo de um no meio da extrema solidão do outro.
A angústia tem a forma de duas espirais, pensa; uma que sobre outra que desce. Abrenúncio percorre a segunda com um extremo sentimento de não compreender o rumo da sua própria vida; o como e porquê de se encontrar nesta ou naquela situação, nem como ali chegou. A ignomínia é um fardo de chumbo que carrega sobre os ombros. Assim como a incompreensão e a culpa. Mais que tudo é a vergonha que o puxa para baixo, como vagas gigantescas no mar bravo. Não é moço de remar contra a maré, nem só com um braço como se vivesse sob o signo de Camões. Sente o peso e deixa-se ir; cansado. Os olhos pedem descanso , o corpo pede repouso, a alma implora por silêncio.
No fim de contas é tudo o que precisa: silêncio. Um pouco de silêncio para dormir, um  silêncio que dure dez anos.

Ó Mãe, Ó Mãe, Os Outros Meninos Dizem Que Eu Tenho a Cabeça Grande...

| segunda-feira, 2 de maio de 2011 | 20 comentários |
Mother! You had me
I never had you...
John Lennon

Quando a senhora Laden soube da morte do seu filho estava a untar de manteiga uma forma para fazer um bolo. Entraram-lhe as vizinhas aos gritos pela casa adentro, como era de costume sempre que havia uma desgraça, e lançaram-lhe a má-nova à cara sem qualquer aviso ou preâmbulo: ai mulher és uma desgraçada, mataram o teu filho! A senhora Laden deixou cair a travessa ao chão e acto contínuo desatou a chorar. Cabrões dos americanos, invectivou entre soluços; jogou as mãos ao ar numa expressão de dor que só quem é mãe é que pode entender e parafraseou o Cristo: Eli, Eli, Lama Sabachthani? Que quer dizer mais ou menos, meu deus, meu deus porque me abandonaste? As outras entreolharam-se incrédulas com a erudição da vizinha e com o despropósito da citação bíblica, e logo ali perderam a coragem de lhe perguntar onde havia ela aprendido o aramaico.
Na América, os americanos que conseguiram sair à rua, saíram. Os outros, a maioria, ouviu a boa nova pela televisão, de hamburguer de três andares numa mão e copo de 2 litros de coca-cola na outra. Entre um arroto e um refluxo, limpavam a gordura que lhes escorria dos queixos à bandeira nacional enquanto ruminvam o hino. As mães americanas também festejaram muito. É sempre uma alegria quando são os filhos dos outros a morrer.
Algures em Portugal a senhora Sócrates estremeceu. Ai meu deus e se o próximo for o meu filho? Apertou inquisidora as mãos da vizinha que ouvia a radio-novela com ela. Nã se preocupe vizinha, que eles aqui nã matem ninguém, atã nã viu o 25 de Abril? Mais a mais, já se sabe que cá em Portugal quem charinga toda a gente é o sê filhe.
De onde veio o sotaque algarvio da vizinha da mãe do Sócrates, não sabemos. Nem sequer podemos atestar da originalidade da conversa. Uma coisa sabemos porém: num mundo governado por cabrões, somos todos filhos da mãe.

Para a Fábrica de Letras - Mãe

A Esmola

| sexta-feira, 15 de abril de 2011 | 8 comentários |
A primeira vez que Romualdo viu o homem foi como se tivesse apanhado um soco no estômago e dois nos rins. O ar rareou-lhe nos pulmões e o vómito subiu-lhe à garganta num refluxo de repugnância e dor. O que era aquilo? O homem-elefante sem pernas? Não sabia se o pedinte era baixo ou alto uma vez que as pernas lhe estavam cortadas por alturas do joelho. As rótulas apresentavam feridas vivas, talvez causadas pelo rastejar do homem como forma de locomoção, e outras já antigas, viam-se pela cor arroxeada que desenhavam uma espécie de mapa de sofrimento por todo o corpo da criatura. A cicactriz que exibia no pescoço deixava a advinhar que talvez tivesse sido vítima de algum ataque com arma cortante, ataque esse que lhe custou as cordas vocais: o homem não falava, esticava a mão, rojava-se pelo chão e soltava abafados: Ahhh! Ahhh!
Como era cego de um olho, e do outro parecia sofrer de um caso grave de zona, o homem contorcia o pescoço de um lado para o outro na direcção das sombras que se lhe cruzavam.
Romualdo estava sentado na esplanada do café Aliança e não aguentou ver tanto sofrimento sem intervir. Chamou o empregado de mesa e mandou-o arranjar um pequeno almoço em estilo de farnel. Ele próprio o entregou ao mendigo, juntamente com uma generosa esmola. Um homem que se diz humano não pode passar ao lado de situações deste calibre sem que nada faça; temos que ser solidários – é o que nos distingue dos animais. Eram Estes os pensamentos de Romualdo enquanto satisfeito consigo próprio deixava que o homem lhe agarrasse a perna das calças e a beijasse em forma de agradecimento: Ahhhh! Ahhhh!
Passados meses deste episódio, estando Romualdo e os seus colegas do Banco na esplanada do Aliança, a tomar um copo no meio de uma acesa dicussão sobre a crise e o FMI e toda a conjuntura vigente, quando se ouve, como que arrancado das profundezas do inferno, um som cavo e arrepiante: Ahhhh! Ahhhh! Era o pedinte que rastejava rua baixo. Romualdo já mal se lembrava do homem e os seus colegas fizeram cara de enojados. O que é isto? Perguntavam. Já não se pode beber um copo descansado sem que apareça uma criatura destas? O pior foi quando o indigente se agarrou aos beijos às calças de Romualdo sempre com aqueles latidos mal paridos: Ahhh! Ahhh! Ahhh!
Romualdo demonstrou um embaraço proporcional à repugnância dos colegas, mas como era um espírito sagaz, rápido largou de uma nota de cinco euros, e, magnânimo mais uma vez entregou-a à criatura: Tome lá homem, agora vá à sua vida que nós estamos a discutir assuntos importantes. Ahhh! Ahhh! Respondeu o entulho que era aquela pessoa e saiu a rastejar pela calçada, deixando atrás de si um trilho escarlate que todos deduziram ser o sangue que lhe escorria das rótulas em carne viva.
Sempre que ia tomar o pequeno almoço, Romualdo dava de caras com o homem; Ahhhh! Ahhhh! Fazia ele ao mesmo tempo que uma pasta ramelosa e brilhante lhe escorria pelo canto do olho bom, isto é, daquele que ainda conseguia ver, apesar da zona. Romualdo considerou ser aquela pasta pustulenta o resultado das lágrimas do homem. 
Com o passar dos dias começou a sentir-se gradualmente nauseado. O pequeno almoço começou a saber-lhe  mal e cada vez que mastigava era como se estivesse a provar daquela mistela ranhosa que caía do olho do homem. Sempre que ouvia: Ahhhh! Ahhh! Era como se um berbequim lhe furasse os tímpanos, e sempre que alguem lhe tocava ou lhe agarrava pelo casaco reagia bruscamente.
Um dia não aguentou mais; levantou-se da esplanada do café Aliança, foi direito ao homem quando este já grunhia excitado, Ahhh! Ahhhhh!, sempre com aquele ar agradecido, sem dentes, de lágrima empastada no olho, e deu-lhe um valente pontapé com toda a força. Ahhhh! Ahhh! Soluçou o homem com sangue a saltar-lhe pela boca. Pára!!! Ordenou Romualdo e deu-lhe um soco na cara que o deitou por terra. Ahhh!!! Continuava o homem. Mas tu não aprendes? Perguntou Romualdo e nisto desatou aos pontapés com o empecilho, aleatoriamente, na cabeça nos rins, no estomâgo, na cara... Uma multidão que por sinal também tinha estado sentada na esplanada rodeou Romualdo. Força! Dê-lhe mais! Assim, agora outro! Até que enfim que aparece alguém com coragem. E Romualdo, galvanizado com o apoio da multidão, desferiu pontapés a torto e a direito com toda a raiva que encontrou no âmago do seu ser. O homem acabou por deixar-se dos Ahhh, Ahhhh, limitando-se apenas a encaixar os chutos que Romualdo lhe dava, abanando a cada impacto como se de um boneco de trapos se tratasse. Quando Romualdo parou de aviar, suava copiosamente. Um senhor de aspecto aristocrático que fumava cachimbo e assistira a toda a cena com um certa lassidão, sancionou o acto com verborreia filosófica: O sofrimento do próximo quando é moderado, é bom de se ver, até porque nos transmite dó e alívio ao mesmo tempo; mas mais que isso não, quando se insurge aos nossos olhos, todos os dias, como um despertador irritante, torna-se repulsivo – há portanto que eliminá-lo.  

Click

| quarta-feira, 6 de abril de 2011 | 19 comentários |
O homem que escreve com luz passa na rua sempre de mansinho, como que temendo que o barulho dos seus passos afugente a claridade do dia, aquela luz ténue da manhã que tão gentilmente se desenha nos seus retratos. É todo um jogo complicado de aritmética que se balança no seu olhar; as aberturas, as velocidades, a sensibilidade do sensor, a sua própria sensibilidade que muitas vezes não se coaduna com as medições exactas da máquina..
Há uma nova realidade para ser criada ou re-criada todos os dias, disserta o homem quando encontra um amigo que a páginas tantas, olha para o relógio, desculpa-se com o trabalho e segue a sua vida; uma realidade que só depende de quem olha, de como olha e para onde escolhe olhar primeiro, uma realidade que se constrói, acaba por dizer o homem para si mesmo quando o amigo já vai longe. Tudo depende da luz! Conclui. Há que saber manuseá-la, acariciá-la e torná-la nossa amiga: só desta forma conseguiremos desenhar com ela.
Os retratos do homem eram simples como ele. Possuíam no entanto uma espécie de encanto que ninguém conseguia decifrar. Seriam as cores? Podia ser, argumentavam alguns, no entanto como explicar o mesmo factor nas fotos a preto e branco?
O homem olha para o que não está à vista; através do silêncio dos movimentos, da discrição dos modos, duma solidão que de tão modesta é quase impossível de ser vista.
A ternura do homem só, não é fácil de se observar nos seus contornos. É como a relação entre a noite e o escuro. O homem é invisível na sua solidão: aí está! Clamaram alto como quem grita eureka, o segredo do homem, o factor X, é a sua invisibilidade.
O segredo porém, não é nada de especial, comenta o homem em conversa consigo mesmo enquanto espera que chegue a hora de sair à rua. O segredo, a haver algum, é a forma como se comove com as coisas e com as pessoas; a forma como a luz as envolve, a geometria que as enquadra, os ângulos que as subjectivam; a ternura, já que se falou nela, está na forma como olha para o mundo. 

para a Fábrica de Letras - Ternura 

O Cansaço

| quinta-feira, 24 de março de 2011 | 10 comentários |
 Foi desde muito cedo que começou a sentir-se cansado. Um cansaço existencial, que carregava na alma como um fardo, como uma mula de carga. Chegou a questionar-se se não teria já nascido cansado e, toda a sua vida não fosse apenas um consciencializar-se desse facto: um recordar do peso que lhe tinha sido imputado à nascença, como se tivesse nascido já velho; de cansaço, não como o outro do filme. Os budistas acreditam que carregamos no presente o peso cósmico de outras vidas passadas, mas ele não era budista.
O peso do cansaço que trazia na alma reflectia-se-lhe no corpo e toda a sua imagem era uma anúncio ao desalento. Passava na rua com os ombros descaídos, a cabeça baixa fixando a calçada, como se tivesse recebido uma má notícia ou alguém lhe tivesse batido. Quem o via podia sempre dizer: Olha! Ali vai um homem cansado.
Não raras vezes pensou numa forma eficaz de se matar. No entanto, tudo lhe pareceu complicado e doloroso; eram tantos os preparativos e os trâmites a cumprir que, de tão minuciosos lhe tiravam a vontade e cansavam-no ainda mais; por isso sempre que pensava na morte acabava sentado. Foi num desses dias que reparou em algo curioso. Um ambiente pesado gerara-se à sua volta sem que tivesse dado por isso. Havia uma atitude cinzenta nas pessoas que se cruzavam com ele; um mau estar,uma azia, um desgosto; uma cinzentitude que ele conhecia bem e que se podia traduzir numa única palavra: cansaço! Levantou-se e sem saber porquê desenhou um pequeno sorriso de felicidade; começou a andar e seguiu o mesmo caminho de todos os dias, desta vez porém não se sentiu sozinho.

12 de Março

| segunda-feira, 14 de março de 2011 | 11 comentários |
Às 15h30 a confusão já é grande, o que sempre acontece quando se agregam tantas pessoas num espaço tão exíguo; as sub-reptícias cotoveladas são inevitáveis. Há um nervosismo miudinho que ameaça tornar-se adulto num curtíssimo espaço de tempo. Começam os desabafos, soltos como quem não quer a coisa, mas em voz alta, para que sejam perfeitamente ouvidos «o estado a que isto chegou» ou «isto é uma vergonha».
Embora lá fora o sol expluda em todo o seu esplendor, saudando um dia primaveril antecipado, na sala de espera a luz amarelada projecta sombras castanhas nas cinzentas pessoas que aguardam. Quem espera também é paciente.
Numa parede desfazem-se mitos e dúvidas sobre as doenças crónicas. Ao alto, duas placas em azul e branco indexam os variados serviços: da cardiologia à obstetrícia, passando pela nefrologia até à pneumologia. Sob a autoridade tácita das placas, a multidão (des)organiza-se em duas filas onde se empurram e afastam como numa pequena batalha campal. São quase quatro horas, a impaciência cresce com o aproximar da hora da visita; uma mulher baixinha, mais afoita, corta a fila e decidida dirige-se à porta de acesso; é barrada pelo segurança ao mesmo tempo que um clamor de protestos se levanta «Ó minha senhora, onde é que pensa que vai?» grita uma mulher do meio da fila. «Tem que esperar como toda a gente, minha senhora, aqui não há cunhas» grita outra quando os empurrões começam como forma de protesto. Vista de fora a multidão faz lembrar os ajuntamentos à porta duma qualquer livraria em dia de lançamento do último Harry Potter, ou o Harrods em dia de saldos, ou qualquer loja americana durante a Black Friday.
Um homem enraivecido, visivelmente  magoado no seu sentido de dever cívico, rasga o cartão de dador de sangue quando se apercebe que não tem livre circulação e que tem de aguardar na fila como toda a gente. Desfaz o cartão em mil pedaços em frente das auxiliares lívidas e grita para toda a sala que neste momento é a sua audiência, «Vaiem vocês dar sangue que a mim já não me apanham mais» e depois acrescenta, a confirmar o que todos os outros já tinham concluído «isto é uma vergonha!»
16h00: A multidão ansiosa avança desarvorada pela escadaria acima. O rosto dos visitantes denuncia o estado dos visitados. A euforia bem disposta dos que visitam um recém-nascido ombreia com a desolação velada de quem procura o doente terminal. Para os que esperam lá dentro, a hora das visitas é sagrada,  como a manhã de natal.
Lá fora, a multidão em protesto desce a avenida de volta ao Largo de S.Francisco. A Luta Continua.

#243

| segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 | 20 comentários |


Perguntaram a Romualdo se era capaz de escrever uma estória só com uma linha. Ele disse que sim.


A Desilusão

| terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 | 19 comentários |
Zubaida decidiu divorciar-se no dia em que se convenceu que o marido, Labregoísio, era homossexual. Foi uma ideia que se lhe escarrapachou na mente, e por muito que as suas amigas e os amigos do marido dissessem o contrário, nada a demovia. O seu homem era gay e acabou-se.
Já há tempos que ela vinha sentido uma certa apatia da parte de Labregoísio pela sua pessoa. O ar de enfado com que ele se punha quando ela se apresentava de negligé, o desinteresse total pelas suas coxas roliças, não enganava: tinha um homem-sexual em casa.
O raio do homem, só pensa em jogar playstation com os amigos – reclamava Zubaida a quem a quisesse ouvir, ou seja, quase ninguém.
Labregoísio confrontado com as acusações que punham em causa a sua macheza latina, limitou-se a responder com a bonomia e indolência característica dos maconheiros:
- Oh mulher, tu ‘tás doida.
Mas Zubaida não ia em conversas, e sabia muito bem quando o marido estava a esconder algo, ou não estivessem juntos há mais de 6 meses. Um dia, depois de ler o correio sentimental da revista Maria, as suas fervorosas suspeitas, que já de si cresciam exponencialmente, depressa se tornaram em certezas absolutas, que por sua vez escalaram o monte Everest do preconceito. Saiu alvoroçada do trabalho e seguiu decidida para casa. Pelo caminho treinou cuidadosamente o que diria a Labregoísio, de forma a que este percebesse e não houvesse margem para mais desentendidos. Rejeitou mentalmente várias abordagens até ter chegado àquela que lhe pareceu ser a fórmula perfeita:
- Homem! Tu és guei e eu quero um divórcio.
Chegou a casa e dirigiu-se ao quarto «ainda deve estar a dormir, o calão». Abriu a porta de rompante e deparou-se com um quadro que não correspondia bem ao que ela tinha imaginado. Labregoísio praticava selvaticamente o sexo com a vizinha do 3º andar que era uma moça jeitosa, estudante de Biologia Marinha. Zubaida, desiludida, não com a cena em si, mas por não poder jogar-lhe à cara a tirada que tanto trabalho lhe dera a compor, exclamou em forma de desabafo:
- Ai homem, homem! As coisas que tu fazes só para me contrariar.