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Sexta-feira 14

| sexta-feira, 14 de maio de 2010 | 10 comentários |


«Depois da festa vem a tempestade». Era um ditado inventado à pressão por Romualdo, depois de assistir na televisão ao desbocar deprimente do Engenheiro da Nação. Percorria as ruas sujas do desperdício de alegrias e êxtases, contratadas para exultar a estéril passagem do pescador de homens; sentia-se triste por aquela gente, sentia-se triste por si, por fazer parte daquela gente. “Só saímos à rua pelos motivos errados ”- Cogitava Romualdo e um vento frio despenteou-lhe o cabelo como castigo. O próprio tempo pusera-se cinzento e ventoso e frio como que a anunciar a ressaca que aí vinha. Mais valia que chovesse e as pessoas se fechassem em casa e escondessem a sua vergonha; «doem-me os ossos, o tempo está a mudar». Dobrou uma esquina e pontapeou uma pedra que rolou pela calçada, um pedaço de cão irritante latiu enfezado e feriu Romualdo nos nervos. «Se lhe dou um pontapé encolhe-se todo a ganir, se lhe faço uma festa esquece-se que lhe dei um pontapé».
Cruzou-se com Esmeraldina e foram beber café. Estava ansiosa mas parecia radiante. Vestia de preto; a ansiedade ficava-lhe bem.

Malditas Consoantes

| segunda-feira, 10 de maio de 2010 | 17 comentários |
"Purple haze all in my brain
Lately things just don't seem the same
Actin' funny, but I don't know why
'Scuse me while I kiss the sky"

Jimi Hendrix

Abrenúncio acordou de uma sesta tardia, sobressaltado, com o barulho que a populaça fazia na rua. Era toda uma multidão que ora semi-nua, ora de rubras cores encasacada, alardeava pela via pública as suas consoantes preferidas. Três letrinhas apenas faziam a loucura de toda aquela gente. «Ah! Sim, chegou finalmente o dia» exclamou em voz alta Abrenúncio. Há muito que Abrenúncio esperava por aquela celebração, estivera quase para desistir, mas uma vozinha no canto do cérebro segredava-lhe que mais dia menos dia o Dia chegaria.
Remexeu o velho baú de alto a baixo e logo deu com a t-shirt cor-de-rosa do Jimi Hendrix que, basicamente era a sua farda para dias como aquele; estava um pouco coçada, o que só atestava da sua militância naquelas ramboiadas.
Saiu para a rua e deparou-se com um espectáculo mirabolante: no meio da celebração encontravam-se idosos e crianças, e também eles gritavam e pulavam para cima dos carros e buzinavam e agitavam-se ao som da música que era sempre a mesma. «Meu Deus!» pensou Abrenúncio «isto no meu tempo não era assim», mas depressa se desligou destes pensamentos e foi com alegria se entregou à festa – Purple haze all in my brain, lately things just don't seem the same – Cantarolou Abrenúncio enquanto se preparava para beijar o céu. De súbito a multidão, toda a uma voz, como se tivesse ensaiado durante anos desatou a berrar a plenos pulmões: BENFICA! BENFICA! BENFICA!
Foi por esta altura que Abrenúncio foi atropelado pela realidade como se esta conduzisse um camião TIR. Um safanão popular fê-lo acordar do sonho em que estava prestes a embarcar; o que o povo afinal gritava era SLB, SLB e não LSD, LSD, como ele originalmente pensara.
Cabisbaixo, com beicinho de amuo, retornou a casa arrastando os pés; «Pfff! Tanto barulho por causa da bola». Aquela não era definitivamente a sua festa. O Jimi Hendrix estampado na camisola cor-de-rosa voltou triste para o fundo do baú e Abrenúncio contentou-se com um cházinho de camomila que, assim como assim, também dá sono.

O Camelo e o Buraco da Agulha

| quinta-feira, 6 de maio de 2010 | 16 comentários |
O recinto estava polvilhado de vendilhões, como convém a qualquer templo que se preze.
Um homem arrasta-se trôpego pelo pavimento. No fim, uma parede; o homem insere uma moeda na ranhura e uma lâmpada de 30 watts acende-se. Um minuto certo está a lâmpada acesa, e com precisão matemática extingue-se ao sexagésimo segundo, reclamando assim a sua fome de vil metal. Para o homem prostrado a missão chega ao fim; a sua prece seguiu para Deus, o seu dinheiro para a EDP.
A multidão acotovelava-se, já não havia mais espaço, nem para a imaginação. Pessoas desmaiavam de pé; um helicóptero dos bombeiros sobrevoava a área e despejava uma carga de água em cima dos crentes, como se apagasse um fogo; a fé essa nunca se apagava e por isso eles continuavam ali, à espera; tinham pago a dízima, tinham cumprido a promessa, faltava a atracção principal.
Por entre holofotes coloridos acompanhados por uma orquestra monumental, o Grande Padre surgiu numa plataforma elevatória, sentado imponente num trono debruado a ouro e tisnado com a mais fina púrpura. Visto assim ninguém desconfiaria que o homem calçava as humildes Sandálias do Pescador; antes lembrava alguém que astuciosamente usurpara o ceptro de César – O Imperador. Era ele quem comandava a chusma naquela noite. Era o MC do momento. Estalou os dedos e milhares de velas acenderam-se a um tempo, dando conta do número de almas que por ali penavam; e o seu número era grandioso.
Quando a Senhora, no alto do andor finalmente surgiu, foi acometida de uma profunda tristeza; a sua expressão não deixava dúvidas, era de pura angústia. O espectáculo não era para menos: os pobres coitados, de joelhos em sangue, batiam palmas e gritavam hossanas; as mulheres acenavam um lencinho branco com uma mão e com a outra seguravam um funil por onde urinavam. Pairava no ar uma toada digna do seu povo: lamuriante, mansa, mal paga. Sob as luzes fortes do palco principal sobressaía o Grande Padre; com um sorriso enjoado não conseguia mais do que chocalhar as jóias.
Cá fora, no mundo real, a miséria continuava na mesma.

A Paixão Num Dia de Maio

| sábado, 1 de maio de 2010 | 27 comentários |
Amanhecera finalmente o dia em Remulak – A Grande. Não era um dia qualquer; era o dia que iria definir a vida de toda uma geração. Um risco invisível havia sido traçado na Cidade e, ou se estava de um lado ou do outro; não havia meio termo. A época das indecisões acabara. A inércia há muito que vinha fazendo os seus estragos, e, aquela que um dia tinha sido uma das mais belas repúblicas do cosmos, jazia quase morta, de tão apática se tornara. Os tecnocratas haviam corrompido o poder. Governavam com a ajuda de andróides que fiscalizavam e faziam cumprir as suas leis. As leis eram de betão armado ou tinham a forma de microchips de silica. Os remulakianos eram cordeiros marcados para abate; peças de carne para sacrifício; tudo em nome da Grande Máquina. Eram absorvidos, mastigados e reciclados em humanóides sem espírito; que fiscalizavam e faziam cumprir...
Pasquináceo agarrou na sua bandeira rubra e negra e dirigiu-se para o centro da Cidade. De todas as ruas, de todas as vielas e becos foram surgindo outros pasquináceos; remulakianos, que de tanto serem ofendidos e humilhados, caminhavam obstinados para o local marcado, puxados por uma força invisível que os unia a todos: a miséria.
O centro da Cidade cedo se tornou numa massa informe, qual coágulo de sangue a espraiar os seus tons de vermelho escuro. O burburinho daquela gente depressa se transformou num clamor que de tão estrondoso foi confundido com trovoada; na agitação alguém comentou: - Porra! Até que enfim que acordámos – e nesse momento o Palácio foi tomado de assalto, e os andróides que o defendiam nada puderam contra uma multidão ávida de mudança, sequiosa de justiça; reconheceram-se nela e abriram alas.
O senhor Engenheiro(ideólogo da Grande Máquina) e seus sequazes foram arrastados das faustosas poltronas dos seus gabinetes para a rua, puxados pela orelha, como se faz aos meninos mal comportados. E logo ali foram julgados por toda a população que exclamou a uma voz: Condemno!
O castigo foi aplicado de imediato a todos os meliantes e seus acólitos; a todos os juízes que os justificaram, a todos banqueiros que os sustentaram, a todos os sacerdotes que os benzeram. Foram atirados ao rio de pernas e braços atados. Não foi uma condenação à morte; os remulakianos sabiam que a merda geralmente boiava.
E era tal a paixão que vibrava naquele povo que até o céu começou a chorar de emoção. A chuva varreu das ruas os restos de ingnomínia, e sublinhou a necessidade de limpeza que a Cidade há muito exigia.

Para a Fábrica de Letras - Paixão

A Mão Esquerda

| quarta-feira, 28 de abril de 2010 | 13 comentários |
Uma mão lava a outra; sempre ouvira dizer, e, foi precisamente quando ia lavar as mãos que Labregoísio reparou que lhe faltava a esquerda. «Oh Diabo!» exclamou «isto não augura nada de bom». Desaparecera-lhe a mão esquerda, assim sem mais nem menos, do pé para a mão. Era uma constante na vida de Labregoísio as coisas desaparecerem-lhe; um efeito secundário da sua distracção crónica, do seu estado de permanente esquecimento. «Ai homem, só não perdes a cabeça porque está agarrada ao corpo!» admoestara-lhe tantas vezes a mulher, e desta vez a coisa acontecera mesmo; não com a cabeça claro está, mas com a mão esquerda, que também tem a sua importância no dia-a-dia dum indivíduo. Já havia perdido ou esquecido muitas coisas na sua vida: o chapéu de chuva, as chaves do carro, o carro, os óculos de sol, os óculos de ver, as lentes de contacto e uma vez esquecera-se da mulher na praia, e só se lembrou dela no outro dia de manhã. Mas aquilo era demais; um pedaço inteiro do corpo? Nunca lhe tinha acontecido.
Lembrou-se que nessa tarde tinha ido ao dentista e de lá voltara directamente para casa. Telefonou.
 -Boa tarde, o meu nome é Labregoísio, eu estive aí em consulta há pouco e queria saber se por acaso não teria  deixado aí esquecida a minha mão esquerda?
 -A sua mão esquerda?...Como é que ela é?
 -É uma mão normal, acho eu, cinco dedos...
 -Algum sinal distintivo?
 -A unha do dedo mindinho é maior que as outras...
 -Pois claro...Um momento que eu vou ver.
Labregoísio aguardou em suspenso. Olha que chatice. É que a mão esquerda, por muito que fosse mal vista, dava um jeito do caraças em certas ocasiões. A mão direita por exemplo, quando se apanhava sozinha, assumia de imediato comportamentos autocráticos e punha-se com a mania que mandava no corpo todo...Era por isso que ele precisava desesperadamente da esquerda, para contrabalançar.
 -Não, aqui não está, encontrámos foi uma luva preta...
 -Oh! Deixe estar, a minha mão não tinha luva. Obrigado e desculpe a maçada.
E agora? Como é que ele podia voltar para casa sem a mão esquerda? A mulher de certeza que ia por-se logo a ralhar. Parece que já a estava a ouvir «andaste, andaste e perdeste mesmo a mão esquerda, Ah! Eu bem que te avisei...»
Entrou em casa e a mulher já o esperava para jantar, mal o viu não durou mais de dois segundos a perceber que algo estava errado, mas não disse nada. Foi só quando estavam sentados à mesa, enquanto Labregoísio tentava disfarçar contando anedotas do trabalho, que ela com o seu ar polar, lançou o tema como quem lança um infiel à fogueira:
- Onde é que está a tua aliança?

120 Km/h

| domingo, 25 de abril de 2010 | 11 comentários |
Abrenúncio estava aborrecido. Então, decidiu atacar a vaga de tédio com algo que lhe garantia sempre uma boa distracção: correr atrás dos automóveis na auto-estrada. Desta vez porém, resolveu inovar um pouco e foi todo nu. Não havia maior sensação de liberdade para Abrenúncio do que aquela de correr livremente pela estrada a fora, de braços abertos, com as partes pudibundas ao vento. Era outra vez o homem no seu estado puro a perseguir a artificialidade brutal da máquina. Gostava da auto-estrada porque não tinha semáforos e era uma via de trânsito rápido, onde podia portanto, atingir as maiores velocidades. Os automobilistas, ao passar por ele, buzinavam muito e faziam-lhe gestos com o dedo médio em sinal de incentivo, o que lhe dava um maior alento quando se sentia cansado. Quando corria, não pensava na vida, nem no aborrecimento nem em nada; ouvia apenas as batidas cardíacas e a respiração cadenciada, como num acalento. Aos poucos, ia deixando de ser o animal racional para se tornar de novo no animal selvagem; numa selva asfaltada; com acessos condicionados e separação física de faixas de rodagem.

O Descanso

| quinta-feira, 22 de abril de 2010 | 9 comentários |


O homem-aranha precisava urgentemente de dormir. É um dado adquirido, um super-herói precisa do seu descanso. Os camionistas são obrigados a descansar de tantos em tantos quilómetros; aos heróis exige-se exactamente contrário – o que é perigoso. Dependurado na sua teia, olhava absorto a rua 14 e os seus vendedores de electrodomésticos. Entre o trabalho de dia e a vigilância nocturna, pouco tempo sobejava para um repouso digno desse nome. O pior era a ingratidão dos nova-iorquinos que à mínima falha, ao mínimo deslize, exigiam o seu escalpe. Como fazer uma vida assim? Os biscates para o jornal nem sempre compensavam e o pagamento muitas vezes era tardio. Como herói protector inquestionável da grande maçã, actividade que lhe ocupava a maior parte do tempo, nem sequer tinha ordenado. O super-homem, que só dava barraca, era considerado um herói a sério, e ele que se matava com trabalho, tinha que contar os cêntimos para beber um café. «Deve haver qualquer coisa num homem de capa ao pescoço e cuecas por cima das calças que seduz as pessoas» resmungava o aranhiço «Ou então é por ser extra-terrestre, as pessoas babam-se sempre com os ETs».
Pensava nisto o homem-aranha e a cabeça pendia-lhe involuntariamente para frente; os olhos ardiam de tanto esforço para se manterem abertos e o seu sentido aranha, aquele que o alertava de todos os perigos, enviava-lhe sinais dúbios e enganadores. E para completar: um pombo caga-lhe em cima e esvoaça feito parvo, como só os pombos sabem; jurou ter visto um um sorriso trocista na cara do estúpido animal. «Isto já é demais!» indignou-se. Num repente, lança-se em queda livre e desata a mandar teias a torto e a direito contra os prédios, saltando de umas para as outras num bailado acrobático que impressiona sempre quem o vê. Atravessa ligeiro a Times Square e os seus leds multicolores, recupera o fôlego junto ao Central Park e continua para norte em direcção ao Bronx – ia dormir finalmente – o seu destino: o apartamento 13A - a sua casa, a sua pátria, o seu último refúgio.

It

| terça-feira, 20 de abril de 2010 | 9 comentários |
«Esse corpo que te carrega a alma, vai contigo para todo o lado!», dissera ela ao despedir-se dele no aeroporto. Era verdade, ela tinha razão, como sempre. Foi pelo corpo que se separaram e foi pelo corpo que nunca mais estiveram juntos, fisicamente, como um homem está com uma mulher. Ele sofria do síndrome de Quasimodo: que é quando as pessoas não conseguem olhar directamente para alguém que está mesmo à sua frente.
A sua presença incomodava, como se estivesse um réptil dentro da sala. Metia medo a alguns, nauseava outros e era raro quem não desviasse o olhar. Era fácil encontrá-lo numa multidão pois era aquele que tinha sempre uma clareira à sua volta. Por isso viajar não resolvia nada, como ela tão bem asseverara. Viajar era chegar a um sítio completamente diferente e constatar que a cara de nojo das pessoas era a mesma. Ela tinha razão.
Também a ela lhe custava fixar o olhar naquela massa disforme durante muito tempo. Antes de ele ser atacado pelo mal, costumavam ser amantes e andavam sempre juntos. Ela sentia-se orgulhosa de si mesma por o ter conseguido para si e gostava de usá-lo para fazer inveja às outras mulheres. Mas depois surgiu aquele inconveniente e, já se sabe, ninguém gosta de ter uma coisa daquelas parada à porta de casa, quanto mais viver com uma. No entanto, era a única pessoa que o visitava, nunca faltava a um encontro. Estava apaixonada pela sua alma.
«Um dia ainda havemos de estar juntos outra vez», pensava ele insistentemente, enquanto ela ia à casa-de-banho vomitar.

A Promoção

| sábado, 17 de abril de 2010 | 15 comentários |
"I'm all lost in the supermarket
I can no longer shop happily
I came in here for that special offer
A guaranteed personality"
The Clash

Ildefonso estava perdido. Procurava desesperadamente encontrar uma saída mas não havia maneira. As luzes brancas e brilhantes ofuscavam-no, deixavam-no confuso, baralhado. Era muita informação, muito assédio, não estava habituado. Era uma pessoa simples Ildefonso; gostava da rotina e das pequenas coisas, e, quando entrou no supermercado era isso que procurava, uma coisa simples: cerveja.
O seu plano era conciso: entrar no estabelecimento, comprar um pack de cerveja irlandesa que estava em promoção (ofereciam o copo de half pint), pagar e sair o mais rapidamente possível. Como depois se viu as coisas não foram assim tão simples. Era todo um mundo alternativo que surgia por detrás das portas de vidro automáticas; havia fruta biológica e fruta da outra, sumo natural e sumo não natural, pão de todas as cores e feitios, marisco com fartura e farturas com recheio, havia sabonetes, torradeiras, presunto, raquetes de ténis, iogurtes, tremoços e comida para cão. E leite! Leite de vaca e leite de soja: Como é que se ordenha a soja?
E havia música de fundo que saía dos altifalantes, era a Lena d'Água que exortava a clientela: ...Deus é o dinheiro, só é salvo quem o adorar... E toda uma população consumista seguia o adágio como se de uma profecia se tratasse. Nos seus fatos de treino e sandálias, coçando a nuca com a unha grande do dedo mindinho, tiravam os produtos das prateleiras obedecendo a um mantra zombie de um deus desconhecido. Há quanto tempo estaria ali? Perguntava-se Ildefonso junto à tenda de campismo com oferta do tapete de fitness. Arrastava o carrinho já cheio, pelo cabo, como se dum animal de estimação com rodas se tratasse; da cerveja nem sombras. A última vez que foi visto estava junto à secção de literatura, folheava um exemplar da explicação do resumo do Código Da Vinci.
Nunca mais foi encontrado.Desapareceu. Há quem diga que saiu sem pagar, mas todos sabemos que isso é impossível. Outros afirmam que ele próprio foi consumido numa época de descontos. Os responsáveis do supermercado insistem que em dias de chuva ainda o conseguimos ver a vaguear pelos corredores, em busca de cerveja; para tal basta adquirirmos uns óculos especiais 3D, que por acaso estão em promoção: na compra de dois leva três.

Idos de Março

| quinta-feira, 15 de abril de 2010 | 10 comentários |
Ao cabo de longas horas, César parou de trabalhar. Anoitecia. Aproximou-se da janela e contemplou toda a Cidade, a mais bela e divina de todos os tempos.
CORO: César aproxima-se da janela!
Lá em baixo os conspiradores reuniam-se algures, planeavam e maquinavam contra si, César sabia-o bem, há muito que a sua ousadia havia criado anti-corpos entre o Senado e a guerra civil só tinha piorado a situação. Sim, havia traição pelo ar, tão densa que quase se podia cortar à faca. Riu-se da fraca escolha de palavras.
CORO: César ri-se das palavras!
Quem seriam eles, questionava-se, e quando viriam? Havia ainda tanto para fazer; temia que não lhe restasse tempo suficiente para acabar a obra.
CORO: César receia não ter tempo!
A pior facada, cogitava César, não é aquela que nos dão pelas costas; essa é incógnita e cobarde e só humilha o agressor. Não, a pior facada é a que vem pela frente.
CORO: César cogita sobre as fac...
CÉSAR: CALEM-SE IMBECIS!!! Já não vos posso ouvir mais. Que melguice, sempre a narrar tudo o que faço, por Júpiter, mas de quem foi a ideia de vos plantar aqui a cagar sentenças? Desapareçam imediatamente! Ouviram? RUA!
CORO: César despede o coro.
Mais uma táctica do inimigo, concluiu César, o desgaste nervoso. Ahrggg! A espera. A própria morte era melhor que aquela espera.
A traição..., César recupera o fio do pensamento, a pior é a que nos surge pela frente e nos olha nos olhos, cheia de amabilidades, sempre com um sorriso nos lábios, muito amiga e prestável e é com um sorriso no rosto que nos desfere o golpe fatal. Sentimo-nos humilhados por não termos sido capazes de prever o atentado; sentimos-nos humilhados por ter confiado, por termos acolhido o inimigo entre nós.
Desconfiar sempre de quem se ri sem ter vontade, advertiu César a si mesmo e voltou ao trabalho.
Noutro canto da cidade, Marco Júnio Bruto afiava a lâmina do seu punhal. Sorria. Sorria sempre que estava nervoso.