Páginas

Ó Mãe, Ó Mãe, Os Outros Meninos Dizem Que Eu Tenho a Cabeça Grande...

| segunda-feira, 2 de maio de 2011 | 20 comentários |
Mother! You had me
I never had you...
John Lennon

Quando a senhora Laden soube da morte do seu filho estava a untar de manteiga uma forma para fazer um bolo. Entraram-lhe as vizinhas aos gritos pela casa adentro, como era de costume sempre que havia uma desgraça, e lançaram-lhe a má-nova à cara sem qualquer aviso ou preâmbulo: ai mulher és uma desgraçada, mataram o teu filho! A senhora Laden deixou cair a travessa ao chão e acto contínuo desatou a chorar. Cabrões dos americanos, invectivou entre soluços; jogou as mãos ao ar numa expressão de dor que só quem é mãe é que pode entender e parafraseou o Cristo: Eli, Eli, Lama Sabachthani? Que quer dizer mais ou menos, meu deus, meu deus porque me abandonaste? As outras entreolharam-se incrédulas com a erudição da vizinha e com o despropósito da citação bíblica, e logo ali perderam a coragem de lhe perguntar onde havia ela aprendido o aramaico.
Na América, os americanos que conseguiram sair à rua, saíram. Os outros, a maioria, ouviu a boa nova pela televisão, de hamburguer de três andares numa mão e copo de 2 litros de coca-cola na outra. Entre um arroto e um refluxo, limpavam a gordura que lhes escorria dos queixos à bandeira nacional enquanto ruminvam o hino. As mães americanas também festejaram muito. É sempre uma alegria quando são os filhos dos outros a morrer.
Algures em Portugal a senhora Sócrates estremeceu. Ai meu deus e se o próximo for o meu filho? Apertou inquisidora as mãos da vizinha que ouvia a radio-novela com ela. Nã se preocupe vizinha, que eles aqui nã matem ninguém, atã nã viu o 25 de Abril? Mais a mais, já se sabe que cá em Portugal quem charinga toda a gente é o sê filhe.
De onde veio o sotaque algarvio da vizinha da mãe do Sócrates, não sabemos. Nem sequer podemos atestar da originalidade da conversa. Uma coisa sabemos porém: num mundo governado por cabrões, somos todos filhos da mãe.

Para a Fábrica de Letras - Mãe

A Esmola

| sexta-feira, 15 de abril de 2011 | 8 comentários |
A primeira vez que Romualdo viu o homem foi como se tivesse apanhado um soco no estômago e dois nos rins. O ar rareou-lhe nos pulmões e o vómito subiu-lhe à garganta num refluxo de repugnância e dor. O que era aquilo? O homem-elefante sem pernas? Não sabia se o pedinte era baixo ou alto uma vez que as pernas lhe estavam cortadas por alturas do joelho. As rótulas apresentavam feridas vivas, talvez causadas pelo rastejar do homem como forma de locomoção, e outras já antigas, viam-se pela cor arroxeada que desenhavam uma espécie de mapa de sofrimento por todo o corpo da criatura. A cicactriz que exibia no pescoço deixava a advinhar que talvez tivesse sido vítima de algum ataque com arma cortante, ataque esse que lhe custou as cordas vocais: o homem não falava, esticava a mão, rojava-se pelo chão e soltava abafados: Ahhh! Ahhh!
Como era cego de um olho, e do outro parecia sofrer de um caso grave de zona, o homem contorcia o pescoço de um lado para o outro na direcção das sombras que se lhe cruzavam.
Romualdo estava sentado na esplanada do café Aliança e não aguentou ver tanto sofrimento sem intervir. Chamou o empregado de mesa e mandou-o arranjar um pequeno almoço em estilo de farnel. Ele próprio o entregou ao mendigo, juntamente com uma generosa esmola. Um homem que se diz humano não pode passar ao lado de situações deste calibre sem que nada faça; temos que ser solidários – é o que nos distingue dos animais. Eram Estes os pensamentos de Romualdo enquanto satisfeito consigo próprio deixava que o homem lhe agarrasse a perna das calças e a beijasse em forma de agradecimento: Ahhhh! Ahhhh!
Passados meses deste episódio, estando Romualdo e os seus colegas do Banco na esplanada do Aliança, a tomar um copo no meio de uma acesa dicussão sobre a crise e o FMI e toda a conjuntura vigente, quando se ouve, como que arrancado das profundezas do inferno, um som cavo e arrepiante: Ahhhh! Ahhhh! Era o pedinte que rastejava rua baixo. Romualdo já mal se lembrava do homem e os seus colegas fizeram cara de enojados. O que é isto? Perguntavam. Já não se pode beber um copo descansado sem que apareça uma criatura destas? O pior foi quando o indigente se agarrou aos beijos às calças de Romualdo sempre com aqueles latidos mal paridos: Ahhh! Ahhh! Ahhh!
Romualdo demonstrou um embaraço proporcional à repugnância dos colegas, mas como era um espírito sagaz, rápido largou de uma nota de cinco euros, e, magnânimo mais uma vez entregou-a à criatura: Tome lá homem, agora vá à sua vida que nós estamos a discutir assuntos importantes. Ahhh! Ahhh! Respondeu o entulho que era aquela pessoa e saiu a rastejar pela calçada, deixando atrás de si um trilho escarlate que todos deduziram ser o sangue que lhe escorria das rótulas em carne viva.
Sempre que ia tomar o pequeno almoço, Romualdo dava de caras com o homem; Ahhhh! Ahhhh! Fazia ele ao mesmo tempo que uma pasta ramelosa e brilhante lhe escorria pelo canto do olho bom, isto é, daquele que ainda conseguia ver, apesar da zona. Romualdo considerou ser aquela pasta pustulenta o resultado das lágrimas do homem. 
Com o passar dos dias começou a sentir-se gradualmente nauseado. O pequeno almoço começou a saber-lhe  mal e cada vez que mastigava era como se estivesse a provar daquela mistela ranhosa que caía do olho do homem. Sempre que ouvia: Ahhhh! Ahhh! Era como se um berbequim lhe furasse os tímpanos, e sempre que alguem lhe tocava ou lhe agarrava pelo casaco reagia bruscamente.
Um dia não aguentou mais; levantou-se da esplanada do café Aliança, foi direito ao homem quando este já grunhia excitado, Ahhh! Ahhhhh!, sempre com aquele ar agradecido, sem dentes, de lágrima empastada no olho, e deu-lhe um valente pontapé com toda a força. Ahhhh! Ahhh! Soluçou o homem com sangue a saltar-lhe pela boca. Pára!!! Ordenou Romualdo e deu-lhe um soco na cara que o deitou por terra. Ahhh!!! Continuava o homem. Mas tu não aprendes? Perguntou Romualdo e nisto desatou aos pontapés com o empecilho, aleatoriamente, na cabeça nos rins, no estomâgo, na cara... Uma multidão que por sinal também tinha estado sentada na esplanada rodeou Romualdo. Força! Dê-lhe mais! Assim, agora outro! Até que enfim que aparece alguém com coragem. E Romualdo, galvanizado com o apoio da multidão, desferiu pontapés a torto e a direito com toda a raiva que encontrou no âmago do seu ser. O homem acabou por deixar-se dos Ahhh, Ahhhh, limitando-se apenas a encaixar os chutos que Romualdo lhe dava, abanando a cada impacto como se de um boneco de trapos se tratasse. Quando Romualdo parou de aviar, suava copiosamente. Um senhor de aspecto aristocrático que fumava cachimbo e assistira a toda a cena com um certa lassidão, sancionou o acto com verborreia filosófica: O sofrimento do próximo quando é moderado, é bom de se ver, até porque nos transmite dó e alívio ao mesmo tempo; mas mais que isso não, quando se insurge aos nossos olhos, todos os dias, como um despertador irritante, torna-se repulsivo – há portanto que eliminá-lo.  

Click

| quarta-feira, 6 de abril de 2011 | 19 comentários |
O homem que escreve com luz passa na rua sempre de mansinho, como que temendo que o barulho dos seus passos afugente a claridade do dia, aquela luz ténue da manhã que tão gentilmente se desenha nos seus retratos. É todo um jogo complicado de aritmética que se balança no seu olhar; as aberturas, as velocidades, a sensibilidade do sensor, a sua própria sensibilidade que muitas vezes não se coaduna com as medições exactas da máquina..
Há uma nova realidade para ser criada ou re-criada todos os dias, disserta o homem quando encontra um amigo que a páginas tantas, olha para o relógio, desculpa-se com o trabalho e segue a sua vida; uma realidade que só depende de quem olha, de como olha e para onde escolhe olhar primeiro, uma realidade que se constrói, acaba por dizer o homem para si mesmo quando o amigo já vai longe. Tudo depende da luz! Conclui. Há que saber manuseá-la, acariciá-la e torná-la nossa amiga: só desta forma conseguiremos desenhar com ela.
Os retratos do homem eram simples como ele. Possuíam no entanto uma espécie de encanto que ninguém conseguia decifrar. Seriam as cores? Podia ser, argumentavam alguns, no entanto como explicar o mesmo factor nas fotos a preto e branco?
O homem olha para o que não está à vista; através do silêncio dos movimentos, da discrição dos modos, duma solidão que de tão modesta é quase impossível de ser vista.
A ternura do homem só, não é fácil de se observar nos seus contornos. É como a relação entre a noite e o escuro. O homem é invisível na sua solidão: aí está! Clamaram alto como quem grita eureka, o segredo do homem, o factor X, é a sua invisibilidade.
O segredo porém, não é nada de especial, comenta o homem em conversa consigo mesmo enquanto espera que chegue a hora de sair à rua. O segredo, a haver algum, é a forma como se comove com as coisas e com as pessoas; a forma como a luz as envolve, a geometria que as enquadra, os ângulos que as subjectivam; a ternura, já que se falou nela, está na forma como olha para o mundo. 

para a Fábrica de Letras - Ternura 

O Cansaço

| quinta-feira, 24 de março de 2011 | 10 comentários |
 Foi desde muito cedo que começou a sentir-se cansado. Um cansaço existencial, que carregava na alma como um fardo, como uma mula de carga. Chegou a questionar-se se não teria já nascido cansado e, toda a sua vida não fosse apenas um consciencializar-se desse facto: um recordar do peso que lhe tinha sido imputado à nascença, como se tivesse nascido já velho; de cansaço, não como o outro do filme. Os budistas acreditam que carregamos no presente o peso cósmico de outras vidas passadas, mas ele não era budista.
O peso do cansaço que trazia na alma reflectia-se-lhe no corpo e toda a sua imagem era uma anúncio ao desalento. Passava na rua com os ombros descaídos, a cabeça baixa fixando a calçada, como se tivesse recebido uma má notícia ou alguém lhe tivesse batido. Quem o via podia sempre dizer: Olha! Ali vai um homem cansado.
Não raras vezes pensou numa forma eficaz de se matar. No entanto, tudo lhe pareceu complicado e doloroso; eram tantos os preparativos e os trâmites a cumprir que, de tão minuciosos lhe tiravam a vontade e cansavam-no ainda mais; por isso sempre que pensava na morte acabava sentado. Foi num desses dias que reparou em algo curioso. Um ambiente pesado gerara-se à sua volta sem que tivesse dado por isso. Havia uma atitude cinzenta nas pessoas que se cruzavam com ele; um mau estar,uma azia, um desgosto; uma cinzentitude que ele conhecia bem e que se podia traduzir numa única palavra: cansaço! Levantou-se e sem saber porquê desenhou um pequeno sorriso de felicidade; começou a andar e seguiu o mesmo caminho de todos os dias, desta vez porém não se sentiu sozinho.

12 de Março

| segunda-feira, 14 de março de 2011 | 11 comentários |
Às 15h30 a confusão já é grande, o que sempre acontece quando se agregam tantas pessoas num espaço tão exíguo; as sub-reptícias cotoveladas são inevitáveis. Há um nervosismo miudinho que ameaça tornar-se adulto num curtíssimo espaço de tempo. Começam os desabafos, soltos como quem não quer a coisa, mas em voz alta, para que sejam perfeitamente ouvidos «o estado a que isto chegou» ou «isto é uma vergonha».
Embora lá fora o sol expluda em todo o seu esplendor, saudando um dia primaveril antecipado, na sala de espera a luz amarelada projecta sombras castanhas nas cinzentas pessoas que aguardam. Quem espera também é paciente.
Numa parede desfazem-se mitos e dúvidas sobre as doenças crónicas. Ao alto, duas placas em azul e branco indexam os variados serviços: da cardiologia à obstetrícia, passando pela nefrologia até à pneumologia. Sob a autoridade tácita das placas, a multidão (des)organiza-se em duas filas onde se empurram e afastam como numa pequena batalha campal. São quase quatro horas, a impaciência cresce com o aproximar da hora da visita; uma mulher baixinha, mais afoita, corta a fila e decidida dirige-se à porta de acesso; é barrada pelo segurança ao mesmo tempo que um clamor de protestos se levanta «Ó minha senhora, onde é que pensa que vai?» grita uma mulher do meio da fila. «Tem que esperar como toda a gente, minha senhora, aqui não há cunhas» grita outra quando os empurrões começam como forma de protesto. Vista de fora a multidão faz lembrar os ajuntamentos à porta duma qualquer livraria em dia de lançamento do último Harry Potter, ou o Harrods em dia de saldos, ou qualquer loja americana durante a Black Friday.
Um homem enraivecido, visivelmente  magoado no seu sentido de dever cívico, rasga o cartão de dador de sangue quando se apercebe que não tem livre circulação e que tem de aguardar na fila como toda a gente. Desfaz o cartão em mil pedaços em frente das auxiliares lívidas e grita para toda a sala que neste momento é a sua audiência, «Vaiem vocês dar sangue que a mim já não me apanham mais» e depois acrescenta, a confirmar o que todos os outros já tinham concluído «isto é uma vergonha!»
16h00: A multidão ansiosa avança desarvorada pela escadaria acima. O rosto dos visitantes denuncia o estado dos visitados. A euforia bem disposta dos que visitam um recém-nascido ombreia com a desolação velada de quem procura o doente terminal. Para os que esperam lá dentro, a hora das visitas é sagrada,  como a manhã de natal.
Lá fora, a multidão em protesto desce a avenida de volta ao Largo de S.Francisco. A Luta Continua.

#243

| segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011 | 20 comentários |


Perguntaram a Romualdo se era capaz de escrever uma estória só com uma linha. Ele disse que sim.


A Desilusão

| terça-feira, 22 de fevereiro de 2011 | 19 comentários |
Zubaida decidiu divorciar-se no dia em que se convenceu que o marido, Labregoísio, era homossexual. Foi uma ideia que se lhe escarrapachou na mente, e por muito que as suas amigas e os amigos do marido dissessem o contrário, nada a demovia. O seu homem era gay e acabou-se.
Já há tempos que ela vinha sentido uma certa apatia da parte de Labregoísio pela sua pessoa. O ar de enfado com que ele se punha quando ela se apresentava de negligé, o desinteresse total pelas suas coxas roliças, não enganava: tinha um homem-sexual em casa.
O raio do homem, só pensa em jogar playstation com os amigos – reclamava Zubaida a quem a quisesse ouvir, ou seja, quase ninguém.
Labregoísio confrontado com as acusações que punham em causa a sua macheza latina, limitou-se a responder com a bonomia e indolência característica dos maconheiros:
- Oh mulher, tu ‘tás doida.
Mas Zubaida não ia em conversas, e sabia muito bem quando o marido estava a esconder algo, ou não estivessem juntos há mais de 6 meses. Um dia, depois de ler o correio sentimental da revista Maria, as suas fervorosas suspeitas, que já de si cresciam exponencialmente, depressa se tornaram em certezas absolutas, que por sua vez escalaram o monte Everest do preconceito. Saiu alvoroçada do trabalho e seguiu decidida para casa. Pelo caminho treinou cuidadosamente o que diria a Labregoísio, de forma a que este percebesse e não houvesse margem para mais desentendidos. Rejeitou mentalmente várias abordagens até ter chegado àquela que lhe pareceu ser a fórmula perfeita:
- Homem! Tu és guei e eu quero um divórcio.
Chegou a casa e dirigiu-se ao quarto «ainda deve estar a dormir, o calão». Abriu a porta de rompante e deparou-se com um quadro que não correspondia bem ao que ela tinha imaginado. Labregoísio praticava selvaticamente o sexo com a vizinha do 3º andar que era uma moça jeitosa, estudante de Biologia Marinha. Zubaida, desiludida, não com a cena em si, mas por não poder jogar-lhe à cara a tirada que tanto trabalho lhe dera a compor, exclamou em forma de desabafo:
- Ai homem, homem! As coisas que tu fazes só para me contrariar.

25 Por Segundo

| sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011 | 16 comentários |
Frame by frame (Suddenly)
Death by drowning (from within)
In your, in your analysis

King Crimson

Abrenúncio olha para os dias que passam como quem olha para um filme. Sentado em silêncio. Desejando que os dias passem céleres, anseia ao mesmo tempo que não acabem tão cedo. Um paradoxo temporal portanto. E assim se sente; angustiado e ansioso. Padece de um mal peculiar; a avidez pelas coisas que passam depressa demais, antes mesmo de chegarem a acontecer. Abrenúncio observa a vida como uma passagem acelerada de imagens em câmara lenta.
E no entanto, entre um café e outro meio whisky, contempla admirado a exaltação das pequenas coisas. Das miudezas, das frases curtas, das abreviaturas, dos acrónimos. Não existe poesia nenhuma no tédio e a vida passa, agora, tão rapidamente, mesmo quando em câmara lenta. Já não há tempo para mais de duas linhas  de conversa, e para os parágrafos então – meu deus- não há paciência.
É toda uma arte – pensa Abrenúncio – quase uma religião. Uma nova forma de comunicação; onde não se diz nada, afirma-se tudo, e evita-se de livre vontade essa necessidade incómoda que é pensar.

São Pipocas ao Almoço...

| quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011 | 27 comentários |
         Depois de ler o Blog-do-Otário

Tudo o que ele queria era fazer pipocas no microondas. Nada de especial. Sentar-se, relaxar e comer pipocas. O contacto com os outros humanos tornara-se doloroso em demasia. Algo que, a pouco e pouco ganhara contornos de função; melhor, de obrigação.
A tirania da normalidade no decorrer dos anos obrigara-o a uma congregação de costumes e decências que ele abominava.
Detestava a mentalidade de rebanho, aquela que rapidamente se transforma em mentalidade de matilha, e se volta contra nós, se não seguimos a direcção do pastor. E isso era uma das coisas que o empurravam para a solidão; o não ser como os outros, o não gostar, nem de fazer, nem de falar como os outros; não por espírito de contradição, apenas por não lhes reconhecer nenhuma originalidade. A falta de originalidade, lá está, era para ele, o oitavo pecado original, o mandamento que faltava nas tábuas da lei: Não serás trivial!
O que a sociedade entendia por filtros; entendia-os ele como grilhetas. Sentia-se um prisioneiro dos pensamentos e opiniões, um agente da pide de si mesmo. Patrulhava o cérebro de um hemisfério ao outro, escolhia cuidadosamente as palavras e adoptava o ar mais polido antes de afirmar isto ou aquilo. No fim acabava sempre por anuir nas maiores atrocidades só para agradar a este e aquele.
No fim da primeira guerra mundial, contavam-se entre os loucos, uma minoria de homenzinhos vestidos de camisa e calções castanhos, que patrulhavam as ruas insultando e lançando o seu ódio aos sete ventos. Eram os pobres coitados da altura; os tristes; os delirantes, como podia haver quem os aturasse? Durante a segunda guerra mundial, era louco quem não seguisse os homenzinhos de camisa e calções castanhos,  com o seu líder enfezado, de bigode à Charlot, que insultava e lançava o seu ódio ao mundo, como podia haver quem não os amasse? Era tudo muito normal; e as pessoas sentiam-se confortáveis nessa normalidade, porque eram muitas, e já se sabe que muitas pessoas não podem estar erradas. A multidão é um organismo vivo acéfalo. Uma máquina de triturar individualidades afoitas; o maior crime é o de não estar inserido no circulo das conveniências, daquilo que deve de ser, da decência, da normalidade, da superioridade moral. Um dia crucificamos um homem porque o achamos louco; no dia seguinte queimamos os adversários da ideologia do homem crucificado.
Por isso um dia o homem não pensou mais no seu futuro. Aprendeu a fazer uma coisa que segundo o Günter Grass, os portugueses não sabem fazer: dizer não. A partir daí todos os seus impulsos, ou a falta deles, se libertaram e foi como se lhe tirassem o maior peso de cima. Dizer não pode ser das coisas mais libertadoras que um homem pode fazer. Diz a sogra: então, não quer vir jantar cá a casa? Não! - responde o homem – e com uma satisfação estampada na alma, senta-se de cerveja na mão a ver o futebol.
E foi isso que o homem fez desde então. Nunca mais jantou com a sogra. Nunca mais trabalhou como um louco, como um condenado, insaciável, para arranjar dinheiro, muito dinheiro, para comprar coisas, muitas coisas, para ter muitas coisas para mostrar. Um homem tem que ter coisas para mostrar senão não é um homem decente: quem é aquele? Não tem nada? Então é um ninguém. Não pode ser, não podemos ser ninguém, temos que ser alguém, para podermos mostrar que somos alguém; mostrar a quem? Aos outros. É muito importante que os outros saibam.
O homem levantou-se, ignorou os outros, foi à cozinha e pôs as pipocas no microondas. E esse foi um dos maiores prazeres que teve na vida, e por isso o chamaram louco.

Para a Fábrica de Letras - Loucura

O Ataque

| segunda-feira, 24 de janeiro de 2011 | 12 comentários |
Abrenúncio admirou-se quando Romualdo não compareceu na escola primária à hora marcada. Sempre fora um indivíduo pontual e não gostava de esperar nem de se fazer esperado. Era um anti-Sebastianista nato. Passada uma boa meia hora ao frio e à chuva miudinha, que diz-se só molhar os parvos, Abrenúncio cansou-se e entrou para votar.
O acto em si, não tinha nada de especial. Uma cruz dentro de um quadrado e já está. Todo o peso do futuro da nação resolvido em menos de um minuto. O curioso era toda a multiplicidade de comportamentos que se acotovelavam no pequeno hall de entrada.
Romualdo havia de gostar disto, pensava Abrenúncio ao reparar nas senhoras com as suas roupas mais domingueiras, algumas muito pintadas, demonstrando um porte altivo, quase superior. Outras havia, que demonstravam claramente o corriqueiro que havia naquele gesto, apresentando-se quase de pijama. Também havia os que nunca sabiam qual era a sua mesa, os eternos perdidos, e ainda os que se posicionavam como se fossem as estrelas principais do acontecimento. Eram estes que irritavam Abrenuncio e enfureciam Romualdo: os chico-espertos. Há sempre um em qualquer ajuntamento. O que calhou a Abrenúncio naquela tarde, não se cansava de exibir ao seu vizinho de fila, a caneta com que ia votar. Como se fosse uma espécie de Excalibur a que só ele tivesse acesso. Depois desatou a papaguear uma qualquer conversa de comentador político e anunciou em voz alta, mais que uma vez, a sua intenção de voto. Era preciso que toda a gente soubesse. Volta e meia atendia o telemóvel e falava para toda a escola ouvir, como já  era de esperar. Esta fauna…Não é muito diferente de uma ida ao Jardim Zoológico.
No regresso, perto de casa, parou num café para beber a proverbial bica do dia de eleições. O sítio estava apinhado; o café é o fórum do povo – reflectiu.
-A abstenção é que é uma merda – dizia alguém numa mesa perto do balcão.
-Pois – retorquia outro – É por isso que eu não sou abstémio. Risos
Encostou-se ao balcão numa ponta de onde podia observar todo o estabelecimento. Era um hábito seu, beber café e observar. Em pé junto ao balcão tinha uma vista privilegiada das gentes. O balcão era o seu púlpito, os clientes, o seu eleitorado. O povo não vota porque está farto de ser enganado. Cada ida à urna é como se lhe fizessem uma colonoscopia; ou talvez não, talvez seja apenas preguiça e apatia.
Estava nesta doce letargia a sorver demoradamente o café quando é sacudido violentamente por Labregoísio:
- Atão pá, já sabes o que aconteceu ao Romualdo?
- Não, ele não apareceu para votar.
- Pois pá, foi atacado por um Lyonce.
- A sério???
- Diz que sim, diz que foi horrível.
Os ataques de Lyonce tinham vindo a subir muito nos últimos anos, especialmente entre as camadas mais jovens. Era um flagelo aparentemente imparável, nenhuma das acções de prevenção até à data tinham surtido algum efeito. As vítimas caracterizavam-se por entrarem num estado de embrutecimento aterrador; fixavam catatónicas o aparelho de televisão e apresentavam uma lassidão generalizada, que se traduzia numa apatia aguda face a estímulos exteriores. Era uma visão realmente aterradora.
Coitado do Romualdo,...um moço tão novo.