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O Toque Rectal

| segunda-feira, 17 de janeiro de 2011 | 21 comentários |
Uma nova estética. Uma nova mentalidade. Algo que não se venda, algo que não se compre. Algo parido numa explosão que nunca se apaga. Algo efémero como a eternidade. Algo que ofusque mas não cegue, algo que nos encante e nos embale; uma ternura, uma partilha na multidão. Um braço levantado no ar, uma música, um quadro.
Algo que seja de todos e não seja de ninguém; algo de que nos possamos orgulhar.
Um dia todos os políticos serão substituídos por músicos de rock'n'roll, e todos os comícios por concertos e todos os votos por aplausos. Alguém precisa de ser governado e humilhado por quem o governa? Alguém elegeu alguém para se ver privado do essencial da vida? Os eleitos não são nossos funcionários? Que parvoíce é esta de mercados para aqui e para ali? Os mercados estão chateados, os mercados estão desconfiados, os mercados estão mal dispostos, não faças barulho que acordas os mercados: mas que merda é esta? E que tal um dedo no cu dos mercados? E que tal um dedo no cu do engenheiro parvalhão; e no cu do presidente com ar de mongolóide; e no cu dos candidatos que salivam com a hipótese de ocuparem o mais alto cargo da pirâmide dos chulos. E porque que se há de resumir tudo a pirâmides? Somos egípcios ou quê? O que é feito das planícies alentejanas e dos espaços abertos? E esta inércia, meu deus! De onde saiu esta pasmaceira, este cair de braços, este bocejar de tédio, este enfado? O único milagre que verdadeiramente se deu,  neste pedaço de terreno abençoado pelo demónio e desprezado por deus, foi o temo-lo arrancado à estalada aos nuestros hermanos. Não se compreende portanto este amochar: de pé ó vítimas da inércia!
Há um ovelhar geral que paira sobre as nossas convicções, sobre as nossas atitudes, sobre a falta delas. Há uma auto-mutilação intelectual que se pratica entre as hostes; uma pletora de mesquinhez, uma mediocridade constitucional, uma diarreia cívica. Nunca mais voltaremos a ser marinheiros: uma nau não se governa de cu para o ar. Nunca mais voltaremos a ser poetas: um poema não se escreve com os pés. Urge acordar. Urge criar uma nova estética, uma nova mentalidade...

O Buraco Negro

| sábado, 15 de janeiro de 2011 | 7 comentários |
A minha cidade é como um buraco negro. Será a minha cidade um buraco negro? Vários estudos científicos apontam para tal eventualidade. Nada escapa à força gravitacional que é a parvoíce na minha cidade. Nada. Nem a luz dos olhos dos cidadãos, que por isso, deixam de ver. O próprio tempo retarda junto de um buraco negro, o que justifica o facto de as pessoas na minha cidade serem um pouco retardadas.
Das forças que se esmagam sobre si próprias e se comprimem no núcleo da minha cidade feita buraco, nasce um nova intelligentsia, cujo espectro se traduz numa variada gama de estupidez. Uma espécie de radiação maligna que corrompe e destrói toda energia artística e beleza natural que por ela circunde. Não há fuga possível ao poder da sua ignomínia. Daí a escuridão. Daí o buraco.
Os cientistas contam-me que certos buracos negros, foram em tempos, estrelas. Hummm! Suspeito que a minha cidade nunca tenha sido estrela: buraco sim, negro também, mas estrela, não.
Agora que penso nisso, vem-me à lembrança um buraco negro que em tudo se assemelha à minha cidade. É um buraco escuro, malcheiroso e parece que também é cego.

#237

| terça-feira, 4 de janeiro de 2011 | 25 comentários |
- Há uma coisa que me aborrece.
- O que é?
- Os bombeiros.
- Porquê?
- São bonzinhos demais...apagam os fogos e mais não sei quê mas...
- Mas?
- Bebem leite sem chocolate.
- E vai daí não gostas deles?
- Irrita-me aquela história deles serem soldados da paz, como é que é possível, um antagonismo destes?
- Bom... Parece-me que eles se denominam soldados porque funcionam na mesma lógica de comando e hierarquia que os militares.
- Exacto: acho mal.
- Como assim?
- Acho que não deviam de haver hierarquias nenhumas: cada um apagava o fogo como lhe apetecesse e prontes.
- Isso era a anarquia não achas?
- E tu achas que é preciso uma democracia para mandar baldes de água para cima dum incêndio qualquer? Não te parece que o sistema actual é igualmente desorganizado?
- Bom...Sim... Talvez...
- Em todo caso o que me irrita mesmo são as filarmónicas.
- O quê??? Como?
- Aquelas fardas estilo militar que algumas usam, arrghhh!!!
- De certo modo seguem um mesmo estilo: têm o maestro que faz as vezes de capitão e toda uma tropa que lhe obedece tocando afinado e a tempo...
- Não gosto! Acho que cada um devia tocar aquilo que lhe dá na veneta.
- Anarquia outra vez?
- Não, Jazz!

Para a Fábrica de Letras - Preconceito

Valsa a Quatro Tempos

| segunda-feira, 3 de janeiro de 2011 | 14 comentários |
Não existe maior solidão que aquela que sentimos no meio duma multidão. Alguém disse isto. Este tipo de máximas são sempre ditas por alguém, como é lógico, não se pronunciam sozinhas. São como as leis da física que gerem o universo: existem e apenas precisam de ser enunciadas. Quem as enuncia é quase sempre portador de voz grave e ar pesaroso, como quem diz: Olhem! Aqui estou eu: Ouçam só o que eu vou dizer - tossicam um pouco, clareiam a garganta e depois lá cagam a sentença.
Para Romualdo, que se encontrava no centro da multidão em êxtase, a frase, embora fizesse todo o sentido, carecia de complementos circunstanciais, como por exemplo: Não existe maior solidão do que aquela que sentimos no meio duma multidão quando não temos dinheiro para o táxi e estamos com frio e ninguém fala connosco. O centro de uma bebedeira é como o centro de um furacão: vazio.
O que angustiava Romualdo não era a solidão, nem o abandono, nem o estar sozinho. Isso sabia ele ser parte da condição humana, tendo em conta as dimensões minúsculas do planeta em relação ao sistema solar, e do sistema solar relativamente à galáxia, e da galáxia ao seu agregado, e de todos os agregados juntos, ainda assim ínfimos quando comparados com a vasta extensão do universo. Não. Para Romualdo nada o fazia sentir-se mais pequenino do que ver a luz dos olhos dela extinguir-se lentamente; do intenso ao baço, do lusco-fusco à total escuridão, de supernova a buraco negro. Era essa a ferida que desatinava e fazia doer.
Sem ela sentia-se desequilibrado; como se estivesse bêbado, o que efectivamente estava, mas dum desequilíbrio diferente; como que desajeitado numa valsa a quatro tempos.
E assim era a solidão que chavão nenhum deixava entrever mas que ele sentia nesse momento. Em suma: tinha saudades.
Ai saudade que me prendes os pés ao soalho – suspirou, sem encontrar tradução para estrangeiro.

O Homem é Bom?

| sábado, 1 de janeiro de 2011 | 5 comentários |
Que manifesto orgulho o de um pai: assistir ao filho a cumprir algo de grandioso na vida. Um deleite para os olhos, um bálsamo para a memória. O jovem guerreiro, arrastando a presa pelos pés à volta da aldeia como era de costume a título de exibição; esquartejou-a e colocou os quartos de carne ao lume. Um lume brando só para dar uma corzinha: a boa carne come-se a sangrar - era um dos cânones cravados nas Tábuas da Lei.
Ofertou simbolicamente uma das partes do animal aos deuses, que eram quatro como os elementos e  lançou outra à multidão esfaimada. Um gesto magnânimo. Ouviram-se hurras de excitação e o pai do jovem guerreiro abanou a cabeça em sinal de aprovação: o protocolo estava a ser seguido como devia, não havia dúvidas que o rapaz era filho de um chefe. O melhor pedaço do animal ofereceu o mancebo ao pai, que também era o seu líder e sumo pontífice. O cheiro do holocausto agradou-lhe de tal forma que, abocanhou o cadáver com toda a pujança e autoridade que o status lhe conferia. A turba urrou uma vez mais de excitação; o dia era de festa: o menino tornara-se homem.
Quando o chefe da tribo sentiu algo a prender-se-lhe entre os dentes, a multidão deixou de respirar em suspenso. O jovem guerreiro pensou ver ali o fim da sua glória, uma nuvem negra na sua iniciação. Mas eis que o grande líder sorri, e extrai de entre o canino e o incisivo, um objecto brilhante e luminoso. 
Ah! Meu rapaz, és sem dúvida filho do teu pai: de todos os sacerdotes que nos aborrecem com a Palavra, escolheste o mais gordo e suculento - Eram os pensamentos do Grande Chefe enquanto lambia os beiços e admirava orgulhoso a cruz de ouro que lhe tinha saído em brinde.

Strangers in The Night

| sexta-feira, 31 de dezembro de 2010 | 12 comentários |
    - ...Então ele disse-me que ia passar o ano ao estrangeiro.
    - A sério?
    - Sim.
    - Ena!
    - Também gostavas de ir?
    - Muito.
    - Para onde?
    - Não sei... O estrangeiro é tão grande.

Toca O Sino

| sábado, 25 de dezembro de 2010 | 9 comentários |
O último jingle que ouviu antes de se apagar foi o de uma instituição bancária. Jingle bells, jingle bells, já há não há papéls, murmurou baixinho e deixou-se ir. Não há pior quadra que o natal quando se está sozinho. O aspecto desertificado que as ruas tomam na véspera a contrastar com a azáfama dos dias anteriores é irritante para quem não embarca na loucura consumista da época da “paz”. Mas qual paz? pensou Labregoísio; se pudessem comiam-se uns aos outros, e não era só no natal. O sorriso imbecil e estupidificado dos donos das lojas, que olham para os clientes como se fossem patos a depenar; a repetição constante do mantra das boas festas, no café, no quiosque, na repartição de finanças, era algo com que Labregoísio não conseguia compactuar; toda aquela hipocrisia, a bondadezinha lamecha, a felicidade plástica dos outros, arrrghhh...
Celebramos em Dezembro o nascimento de um Deus que matamos por alturas de Março. Fartamo-nos depressa, e é por isso que pelo meio há o futebol. Daqui a dois dias começa a guerra de novo: o mundo cão que nos domina todo o ano. À pessoa a quem arreganhámos a fronha e desejámos um santo natal, mostramos agora as garras, como quem diz: se te aproximas muito corto-te o pescoço. O natal traz ao de cima o que de melhor há em nós: gastar dinheiro que não temos e enfardar comida como se não houvesse amanhã.
Como tal, e por ser natal, Labregoísio auto-ofertou-se com uma garrafa de single malt. Não esperou pela noite para a abrir, não, que álcool desta categoria bebe-se a qualquer hora do dia. Brindou a si próprio e emborcou numa sessão que terminou, como sempre, com ele a desfalecer no sofá, em frente da televisão, sem saber muito bem se estava triste ou contente, se era dia ou noite. Jingle bells, jingle bells, invista num PPR, dizia a televisão quando Labregoísio apagou.
Acordou estremunhado com duas ideias fixas coladas ao pensamento. A primeira: ir à casa de banho mijar. A segunda: Caçar. Caçar? E era época para isso ao menos? Não sabia. O que é que se caça em Dezembro, perguntou-se a si próprio enquanto desalugava o whisky que tinha bebido durante a tarde: Renas! Ho Ho Ho, riu-se alto enquanto os vapores do malte lhe saíam pelo nariz confirmando que o álcool ainda estava activo no organismo. Foi à despensa buscar a sua ligeirinha semi-automática com mira telescópica, pôs as munições no camuflado que entretanto vestira e saiu resoluto; Hoje é um bom dia para morrer! Disse em voz alta. A sentença era dos índios americanos, que têm tanto direito a participar nas festividades como o velho finlandês. O que é preciso é seguir as setas.
Subiu à torre do sino da igreja da Sé, que ainda estava danificada desde o terramoto, acocorou-se e esperou pela meia-noite. A pouco e pouco iam chegando as famílias para a missa do galo. Nas suas melhores farpelas desfilavam pelo largo como numa passagem de modelos. Reinava um silêncio sepulcral, como se de um enterro se tratatsse e não a celebração de um nascimento.
À meia-noite em ponto o sino anunciou o novo dia: BELLS, BELLS, BELLS, BELLS. Um zumbido estonteante percorreu a cabeça de Labregoísio acentuando-lhe a embriaguez: Prontes, já nasceu o menino...E nisto desatou aos tiros, de cima para baixo, indiscriminadamente: jingle bells cabrões, jingle bells - berrou furioso. A multidão aos gritos corria descontrolada de um lado para outro em pânico. Finalmente temos animação digna de um rei - pensou Labregoísio. Os que caíam abatidos tingiam a calçada de vermelho. Era o vermelho do manto papal; o vermelho da capa dos legionários romanos; um vermelho vivo, muito parecido ao da farda do pai natal, que por sua vez assemelhava-se ao rótulo da gasosa americana. Era o vermelho do capote dos matadores. Eh lá! - exclamou Labregoísio – Que grande tourada que p'raqui vai.

A Prenda

| quinta-feira, 16 de dezembro de 2010 | 10 comentários |
Estrupício soube logo que a vida lhe ia correr mal quando em miúdo, na manhã de natal, descobriu no sapatinho uma bola de futebol em vez do lança-chamas que tinha pedido. Um rancor profundo que o acompanharia para o resto da vida nasceu ali, numa fria manhã de inverno, sentado no chão junto à árvore de natal.
São coisas que não se fazem a uma criança, um desapontamento destes. Cerrou os punhos franziu os sobrolhos e foi para o quarto, não sem antes lançar um olhar de profundo ódio aos pais que, sentiram o sangue gelar como se acabassem de ser violados por um icebergue. Poucos dias após o incidente, já o natal se esvaía em sais de frutos, quando a mãe do pequeno Estrupício encontrou o gato Nicolau congelado na arca frigorífica. Seria o primeiro de diversos animais de estimação que morreriam em condições misteriosas. Os anos passavam e o lança-chamas continuava sem se produzir. O natal em casa do pequeno Estrupício deixou de se celebrar e começou a ser visto como um tormento, algo que quanto mais depressa passasse melhor; como quando arrancamos um dente.
Os pais do pequeno Estrupício acabaram por se divorciar e foi uma batalha dura nos tribunais por causa da custódia do miúdo: ninguém queria ficar com ele. Estrupício foi enviado para a adopção.
A família que acolheu o pequeno Estrupício era do melhor e mais gentil que se podia encontrar numa família respeitadora e cristã, e talvez por isso estranharam, mais do que o desaparecimento do cão, a mutilação indiscriminada dos ícones religiosos que ostentavam por toda a casa.
Apesar de tudo educaram Estrupício o melhor que sabiam, na bondade e compaixão, dentro das suas limitações católicas. E, mesmo sem o saberem, conseguiram desvanecer a antiga obsessão de Estrupício pelo lança-chamas.
Hoje Estrupício é um jovem normal, bem educado, bem apessoado, brincalhão e gentil. Quando lhe falam no natal, assunto que ele desgosta mas que não consegue evitar, uma prenda apenas lhe vem à ideia: serra-eléctrica! O olhar gela-se-lhe por uma fracção de segundo mas depois sorri com os dentes todos, e é isso que encanta as pessoas.

#230

| quarta-feira, 8 de dezembro de 2010 | 18 comentários |
O poeta é um fingidor
finge tão completamente,
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

Fernando Pessoa

O poeta é um bandido, um vagabundo preguiçoso. A dor é a sua arte. Gosta de embalá-la, à noite, entre copos e fumaça. Rega-a como se duma planta se tratasse; fala com ela. Recita-lhe versos de Rimbaud com música erudita. A dor tem pouca auto-estima e gosta de ser mimada.
O poeta finge que é dor a dor que deveras sente porque é assim que consegue criar: em sofrimento, no caos mais sentimental a sul de todas as emoções; na cave. O poeta agarra na dor e muda-se para a cave, para o escuro, para a humidade, para a frieza; a dor é um cobertor que o poeta usa para agasalhar o cérebro entorpecido.
O poeta é preguiçoso, já se disse, deita-se no sofá com a dor e passa-lhe a mão pelo pêlo. Os dias passam-se em ociosidade e delírio surrealista.
A questão primordial que se impõe com o decorrer do tempo é: quem veio primeiro, o poeta ou a dor?
Habitua-se a este ritmo de sofrimento barra rambóia barra fingimento e um dia, um belo dia de tempestade (a dor gosta de chuva), entre uma enxurrada e outra que se anuncia, eis que o sol se imiscui no edifício de mágoa, moléstia e estupidez que o poeta criou a partir da dor alicerçada. O sol e o seu espectro de sete cores e mais as ondas de rádio e os raios x e tudo o que sol acarreta, entra de rompante pelas masmorras de um indivíduo e ilumina as sombras que se esvanecem e levanta o pó da arca das tristezas. A dor, que não gosta nada do sol, qual vampiro barato da sétima arte pop, sai de mansinho, mirrada e enfraquecida, sem se despedir.
O poeta acorda sobressaltado como se lhe tivessem jogado uma toalha encharcada em cima. Vê a claridade e sente uma espécie de alívio. Há uma dualidade na mente do artista. Agarra-se ao bloco de notas e tenta enaltecer o sentimento. Não consegue. O motor da dor foi-se abaixo, afogou-se. O poeta sorri perante a incapacidade da criação, a dualidade, lá está, e não sabe o que fazer. Foi-se a dor, foi-se o fingimento, foram-se os recantos de obscuridade; o cabrão do astro iluminou tudo. Restam as cinzas.
O ex-poeta levanta-se e vai tomar o pequeno almoço.

A Segunda Vinda

| quinta-feira, 2 de dezembro de 2010 | 22 comentários |
Praga 2009 - El Matador



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