Páginas

A Lesão

| terça-feira, 12 de outubro de 2010 | 10 comentários |
Não era a inacção em si que o aborrecia. Com a indolência podia ele compactuar. Acordar tarde, passar o dia de boxers e pantufas; ler os livros abandonados na mesa de cabeceira, beber a cerveja que se amontoava no frederico à espera de um qualquer jogo de futebol, não era algo que lhe causasse desprazer. Era a lesão que o tirava do sério. Um passo em falso, um tropeção, um esforço mal medido e a lesão que espreitava por detrás de um qualquer manual de fisioterapia saltou para a realidade e instalou-se-lhe no corpo pouco habituado a estas modernices. A lesão provocava dor. Uma dor circular, estúpida. Uma dor que ia e vinha e lhe rondava a lesão em movimentos concêntricos como os de um tubarão. Quando pensava já estar melhor, vestia-se, agarrava nas chaves e estando prestes a sair, eis que a dor saltava por detrás da porta e atacava-o como um meliante furtivo na calada da noite. Nessas alturas sentava-se e ligava a televisão, mas a dor agudizava-se de tal forma que logo desligava o aparelho. Era uma dor que não se compadecia com a programação nacional.
A ansiedade era o pior de tudo. Estar à espera que lhe doesse era mais desagradável que quando lhe doía mesmo. A pessoa a quem a sua morte é anunciada sofre muito mais que o incauto, que ao sair de casa apanha com um piano de cauda em cima. A morte imediata acaba por ser mais musical que o longo silêncio da espera.
Sentia-se encurralado. Como um animal preso numa gaiola. Nota mental: Nunca mais ir ao jardim zoológico.
Não conseguiu ler o jornal. As notícias do mundo causaram-lhe, mais que dor, tristeza. Entreteve-se então a catalogar os discos da colecção de jazz e descobriu que os analgésicos misturados com cerveja tornavam os solos do Dizzy Gillespie, numa palavra: flutuantes. Ruminou no porquê de os comprimidos para a dor chamarem-se analgésicos e não oralgésicos, uma vez que são tomados pela boca. E nisto a dor atacou-o traiçoeira. Uma pontada só, para lhe lembrar que ainda existia, não fosse ele esquecer-se.
Foi para a varanda e acendeu um cigarro. Reparou no vizinho do andar de baixo, que se atarefava todo a prender à sacada, uma bandeira vermelha e verde com um manguito amarelo ao centro.
Este é que a sabe toda – pensou.


O Dedo

| sábado, 9 de outubro de 2010 | 6 comentários |
Em tempos de crise a inspiração escasseia. As ideias ficam presas no cérebro que padece de falta de oxigenação. O sangue deixa de circular, tal não é o aperto do cinto. A necrose instala-se. Era assim que se sentia Labregoísio diariamente. Sufocado. Como se tivesse a cabeça presa num torno mecânico. Ah! a imagem do operário oprimido pelo sistema. Um bom leit motiv para um mural. O homem preso à máquina. O homem servo da máquina. A máquina que rumina o homem.
Fez as contas por alto, que a matemática nunca foi o seu forte, e descobriu que será um homem velho quando a situação der algum sinal de melhoria. A vida, tê-la-à passado em contenção, em esforço, em desassossego, miserável e com medo. A sério? É isto que nos espera? A vida? É isto?
Indignava-se com a falta de indignação. Deixou-se cair no cadeirão e abandonou de novo a tela; trocou os pincéis pelo cigarro e pôs-se a esfumaçar. Gostava da sala cheia de fumo - recordava-lhe outras praias e nevoeiros - amores e inocências numa época em que podia considerar-se feliz sem ter vergonha de si próprio. Tempos que já não voltam. Não por a marcha do tempo ser linear na forma como a percepcionamos, mas por já não haver inocência uma vez que abrimos os olhos. E olhos foram abertos concerteza. Abertos para no-los encherem de areia e de promessas. Mentiras!
Que sentido de traição é este? Pergunta-se Labregoísio. Porque nos aconchegamos nesta tristeza?
Levantou-se e procurou os lençóis velhos com que resguardava os móveis quando viajava.
A sério? É só isto? Meia dúzia de banqueiros sem escrúpulos, uma classe política imbecil e dois meninos que nunca trabalharam na vida a digladiarem-se mimados, como quem luta pelo último brinquedo da moda – nós! É por isto que se vão estragar gerações inteiras?
Esquartejou o lençol e pintou as partes de vermelho e verde – a cor da tesão e do ciúme – desenhou-lhes em amarelo um punho fechado de dedo médio em riste e dependurou tudo da janela. Sim, porque não é só em dias de bola que devemos mostrar a nossa excitação. Era este o seu manifesto. Um dedo esticado. Um dedo que talvez se espalhe pelo bairro, pela cidade, pelo país inteiro, até que os senhores engenheiros de fim-de-semana, os senhores doutores de pacotilha e todos os outros de seriedade duvidosa, sintam um dia ao se sentarem nas suas poltronas, um forte ardor subir-lhes pelo ânus acima.


Questões de Química

| quarta-feira, 6 de outubro de 2010 | 11 comentários |
Abrenúncio gostava de ir à mercearia. O facto de as compras serem mais caras que nos outros sítios era compensado por um ambiente único que só na mercearia encontrava. Conhecia algumas na cidade, cada vez mais escassas, e tinha a certeza que em cada uma delas havia um mundo de personagens únicas retumbantes nas suas idiossincrasias. Cada mercearia é uma rede social. Todos os clientes sabem da vida uns dos outros e daqueles que não se conhece, fica-se a saber através dos amigos dos amigos. Antes de ser um espaço de comércio é um sítio de partilha: de conhecimentos da vida alheia, das notícias do bairro, das viagens organizadas pela junta de freguesia, de mezinhas várias, enfim...
Abrenúncio gostava da mercearia tanto quanto detestava supermercados grandes - perdia-se quase sempre, e nunca sabia onde estavam as coisas - ali não, na mercearia era tudo perto.
Na sua mercearia, gostava particularmente da senhora de cabelo ralo, pintado de cor-de-laranja que andava sempre de pantufas. Quando chegava a sua vez na caixa fazia questão de agarrar num produto ao calhas e afirmar em voz alta, como quem não quer a coisa, Este shampoo é muito bom! Eu sei porque a minha filha é Química e ela disse-me que este era um bom shampoo. Noutros dias era a manteiga. Noutros ainda o detergente da loiça, o amaciador da roupa, o creme para as mãos, a pasta de dentes, e tudo quanto possuísse um ph. Nunca se coibia de aconselhar outros clientes, ou não fossem estes meros vitelos no matadouro que era o marketing agressivo dos mass-media. Esse não vizinho, esse não presta, leve antes este que a minha filha que é Química diz que é muito bom. E Abrenúncio levava, para ele era tudo igual, não lhe fazia a mínima diferença; o que ele gostava era de ver a mulher com o peito cheio de orgulho por ter uma filha que, não era nem mais nem menos do que: Química.
A dona da mercearia abanava a cabeça numa concordância pachorrenta, diz que sim, diz que sim. Ela que só queria vender, não lhe interessava quem fazia a publicidade: se as televisões, se a mãe da Química. Registava as discussões entre clientes com malabarismos diplomáticos que a permitiam ficar sempre de acordo com as partes envolvidas, como convinha a uma dona de mercearia. Se as indicações da filha Química iam de encontro às do filho doutor daqueloutra cliente, a dona da mercearia encontrava facilmente um ponto de intersecção comum às duas, qual sabedoria salomónica.
Do seu filho não falava. Era tabu e todos os clientes sabiam-no. Era como se não existisse, ainda que tivesse pedido clemência por ele, ao doutor juiz, no dia da sentença. O marido, que orientava o negócio, também nunca dava parte de fraco quando começavam os concursos para ver quem tinha o filho mais bem sucedido. Nem pestanejava.
Ainda não tinha sido há muito tempo que o filho se levantara a meio da noite, e,  por qualquer razão, com uma faca de cozinha, atacou primeiro o pai e depois a mãe, desferindo golpes aleatórios que acertaram ora num ora noutro. Como estavam às escuras e não viam o agressor, gritaram por socorro e chamaram pelo filho, que só não veio porque já lá estava.
Sempre que ia às compras Abrenúncio não conseguia deixar de notar na enorme cicatriz que a mulher trazia ao pescoço desde a lúgubre noite. Com o homem passava-se o mesmo. Os cortes agora sarados notavam-se-lhe na cara e nos braços. Cortes profundos que doíam menos à superfície que no seu âmago. Marcas de Caim que ficam para sempre e que não se podem remover. A resignação só era comparável com o que tinha sido a surpresa.  Até tu meu filho! - diria Júlio César. Até tu minha filha que és Química! – diria a senhora de cabelo cor-de-laranja.

A Hard Day's Night

| sexta-feira, 1 de outubro de 2010 | 24 comentários |
It's been a hard day's night
And I've been working like a dog
The Beatles

Acordou com o cheiro da chuva. Mais concretamente com o cheiro da terra molhada. A cabeça doí-lhe como se tivesse marrado numa bigorna. Um espirro de vodka estremeceu-lhe nas narinas e o sabor do álcool voltou-lhe à boca num enjoo matinal. Estava prestes a dar à luz uma ressaca monumental. Pelo aspecto molhado da sala deduziu que tivesse chovido a noite inteira. Desde que ela se fora que ganhara o hábito de dormir de janelas abertas, todo nu, na esperança vã que uma noite ela regressasse e se deitasse com ele na vasta cama que aumentava de tamanho todos os dias. Vestiu o roupão cor-de-rosa e de caminho para a cozinha agarrou na garrafa de vodka meio cheia. Ora aí está uma imagem positiva que os gurus da auto-ajuda nunca se lembraram de usar: um indivíduo acorda ressacado depois de uma noite perdida e mesmo assim consegue ver a garrafa de vodka meio-cheia.
Quando a má-disposição começou a tomar proporções montanhosas, tomou uma decisão radical: Bloody Mary. Deitou uma porção generosa de vodka num copo alto, juntou-lhe uns restos de tabasco fora de prazo, uma pitada de sal, sumo de tomate, pimenta, e, como não tinha molho inglês juntou-lhe mais vodka, que isto dos cocktails matinais o segredo está no improviso. Bebeu o composto de um só trago e pouco depois sentiu o sorrisinho da noite anterior aflorar-lhe de novo os lábios.
Agora sim, estava pronto para o trabalho. Acendeu um cigarro e voltou para a sala que também era o quarto e fazia as vezes de hall de entrada. Ligou a aparelhagem e pôs um cd do Coltrane; aos primeiros acordes soltou um passinho de dança.
Sentou-se em frente ao computador que ficara ligado da noite anterior e enterrou os pés nus no tapete árabe, única recordação duma viagem que tinham feito juntos, noutra vida. Na secretária, por debaixo da montanha de rascunhos, ainda guardava a carta que ela lhe deixara em cima da cama num envelope agora amarelo. A frase, por ser tão singela, ficou-lhe atarrachada na memória: Deixo-te o tapete, levo o cão.
Sacudiu a cabeça e tentou concentrar-se no trabalho que já estava mais que atrasado. Tinha ficado de escrever um livro para crianças, encomendado pela editora, mas todos os dias ruminava á volta do tema e não passava do título: Pai Natal ou Menino Jesus? – Eis a Questão!
Acendeu outro cigarro. Não conseguia conter a inspiração: era-lhe permeável. A dita atravessava-lhe o corpo como o sangue dominical por um cálice partido; como a chuva que lhe entrava pela janela. Os dedos passeavam pelo teclado mas o resultado era sempre o mesmo: reminiscências duma tristeza. Uma tristeza que se prolongava ao longo do dia. Um dia que demasiado cedo se fazia noite.

Para a Fábrica das Letras -  O Cheiro da Chuva

#215

| quarta-feira, 29 de setembro de 2010 | 5 comentários |
Romualdo pasma-se. O ódio está de volta. A perseguição ganha terreno: alimenta-se da intolerância e da ignorância e mais que tudo, duma estupidez conhecida entre nós por ser ambundante e ambundantemente disfarçada.
Romualdo isola-se, não compreende os outros. Não tem medo; queda-se perplexo. Descobre-se numa pele que não é a sua, como se representasse um papel. Não quer ser vítima. Não quer ser carrasco. Olha-se ao espelho e vê os traços da vetusta humanidade esvanecerem-se como poeira ao vento.
Um dia vêm-me buscar a mim.
Eliminamo-nos por ordem crescente do ódio. Eliminamo-nos porque ajuda a passar o tempo e a frustração. Somos frustrados porque não somos felizes; entregámos a felicidade aos outros para que cuidassem dela, como um penhor. Ficou a promessa de voltar um dia para a resgatar, numa manhã de nevoeiro, qual Sebastião, mas nunca voltamos. Esquecemo-nos dela, é só.
Os outros estão no fulcro das nossas vidas, sabem de nós, decidem por nós. Comandam-nos, como titereiros. O centro gravitacional da massa humana que forma os outros assemelha-se em tudo a um buraco negro: capaz de nos sugar a luz dos olhos.
Um dia vêm-me buscar a mim. Quando não houver mais ninguém. Os que vierem não serão os monstros abomináveis que as nossas mães nos falavam, não. Serão os nossos vizinhos, sorridentes, entre um bom dia e um como tem passado; os nossos colegas com quem acabámos de almoçar; os nossos amigos sempre a quererem o nosso bem. Quem vier, trará um beijo na face em mente. Ter inimigos identificados é um luxo.
Romualdo não está só, todos os loucos o acompanham. Os loucos são unidades móveis de felicidade esquecida. Não têm medo; quedam-se sim, perplexos.

Os Cães

| segunda-feira, 27 de setembro de 2010 | 10 comentários |
Os cães deitam-se aos meus pés, depois de uma revolução de saltos e alegria, típica dos cães sempre que chego a casa. Dou-lhes de comer e o agradecimento está-lhes no olhar. Conseguem dizer tudo com aqueles olhos, os cães. Se aprendêssemos alguma coisa com os cães, poupávamos os maiores equívocos provocados pela linguagem, invenção que se diz do diabo. Responderíamos às carícias com um abanar do rabo e à má disposição com um rosnar; ladrávamos se estivéssemos zangados e tudo era mais simples. Este passo evolutivo ainda está longe de quem para tudo precisa de mil reuniões e mil formulários e mil protocolos; de quem se desfaz em carimbos e segundas vias e cópias em triplicado.
Quando falamos dum mundo cão, esquecemo-nos que é um mundo de roupa lavada, comida a horas certas e passeios diários na companhia de alguém que se gosta - como pode ser isto ruim?
Às vezes apetece-me ser como os cães: morder as canelas das pessoas que não gosto.

Diário de Abrenúncio
25/09/2010

Areia Fininha

| quinta-feira, 23 de setembro de 2010 | 15 comentários |
É como areia fininha que se escapa por entre os dedos. A vida. Escapa-se-lhe às mãos cheias por muito que cerre os punhos. Não. Reformula o pensamento: talvez escape precisamente porque cerra os punhos. E os dentes, também cerra os dentes. Tudo em si é encerrado.
Um dia o poeta acordou e viu que tinha a vida toda desarrumada. Os dias por cima das cadeiras, os meses debaixo da cama e largos anos amarfanhados de qualquer maneira num cesto de roupa suja. As pessoas chamavam-lhe poeta mas havia muitos anos que não rimava; não conseguia encontrar a musicalidade nas palavras que faziam eco umas com as outras. Ainda seria poeta? Pode ser-se poeta sem escrever uma simples quadra, um verso que seja?
Era um poeta do silêncio. E isso existe? Poetas mudos?
Tinha um amigo pintor que não pintava, o que para si era um consolo. Passavam muitas tardes juntos, sentados no sofá, a embebedarem-se. O amigo falava-lhe dos quadros que não tinha pintado, das cores vivas e quentes, cheias de paixão, que enchiam a sala de luz numa cascata multicolor. O poeta acendia cigarros e mimava aos saltos os poemas que não tinha escrito, que por serem duma forma maior de lirismo silencioso, emocionava ambos. Aos fins-de-semana juntava-se-lhes Anacleto, o músico, que era surdo e não tocava nada.
O que ele queria era agarrar a vida em todo o seu esplendor. Queria deixar de escrever lugares comuns como: a vida em todo o seu esplendor. Queria amar. Amar com as mãos e a boca e os dentes. Queria escrever sobre o amor. Queria escrever sobre o amor de pernas para o ar. Amor ao contrário lê-se Roma. Queria ir a Roma. Queria agarrá-la em Roma e em todo lado. Em todo o lado é onde fica o mundo. O mundo escapa-se-lhe como areia fininha por entre os dedos.

Metamorfose

| sexta-feira, 17 de setembro de 2010 | 8 comentários |
Labregoísio, que sempre fora um indivíduo calmo e ponderado, começou a sentir uma ponta de irritação descer-lhe pela espinha abaixo. Era a terceira vez que se cortava a fazer a barba e ainda mal tinha principiado. Não que a barba em si fosse um desafio. Essa desaparecia a golpes precisos de máquina de barbear que tinha seis lâminas electromagnéticas. O que o deixava mesmo desaustinado era a sua vizinha. Mais propriamente a gritaria desta logo pela manhã. A filha não dormia e a vizinha achava que esse martírio era algo que deveria de ser partilhado com o resto dos condóminos.
Labregoísio era senhor de um sinal de nascença na face, daqueles que são muito bonitos até que ao mínimo corte desatam numa sangria bíblica. E quando digo bíblica refiro-me ao antigo testamento. No novo também há sangue, mas é só no fim quando (spoiler alert) o Cristo morre.
Naquela manhã, estava Labregoísio a executar a tarefa minuciosa de contornar o sinal com o sexteto de lâminas afiadíssimas; manobra que exige a concentração dum cirurgião senão a frieza dum talhante, quando começa a vizinha num pranto O QUE É QUE EU FAÇO A ESTA MOÇA MEU DEUS???. A vizinha gritava numa voz fininha e irritante como se não houvesse amanhã, e quanto mais a vizinha gritava mais a criancinha chorava, e quanto mais a criancinha chorava mais a vizinha se exasperava MAS O QUE É QUE TU QUERES? JÁ NÃO TE POSSO OUVIR MOÇA DO DEMÓNIO!!!.
Ora a mão de Labregoísio que se queria firme, largava numa dessas danças desengonçadas ao ritmo da gritaria da outra, o que se traduzia em lacerações várias. O sangue escorria qual praga do Egipto e Labregoísio era um daqueles homens que não podia ver sangue. Não daqueles que ficam amarelos e depois desmaiam, não. Labregoísio transformava-se. Desceu a escadas e bateu à porta da vizinha. A vizinha, de criança a chorar ao colo, abriu a porta e deparou-se com um homem estranho de máquina de barbear em punho.
Com a cara coberta de pedaços de papel higiénico vermelho, e uns olhos que faiscavam ódio visceral, já não era Labregoísio que ali estava, era Romualdo, e este só tinha uma dúvida: carótida ou jugular?

Lições de Física

| segunda-feira, 13 de setembro de 2010 | 12 comentários |
O dia em que Abrenúncio perdeu o pivô estava cinzento e ameaçava chuva. É sempre nestes dias que tudo acontece; um céu escurecido, umas nuvens carregadas, o diabo à espreita e pronto, temos os ingredientes necessários para cozinhar uma desgraça.
Neste dia em particular o diabo escondia-se por detrás de um poste. Abrenúncio já atrasado para o emprego, a correr desvairado pela calçada, não conseguiu evitar olhar para uma bela moça loira de pernas até ao pescoço e saia pelo umbigo que se cruzou com ele. A uma determinada velocidade quando duas forças se confrontam, uma delas é forçada a ceder. Neste caso singular em que a boca de Abrenúncio se dispôs a medir forças com o poste da luz, o poste da luz levou a melhor. E como dois corpos não podem ocupar um mesmo espaço ao mesmo tempo, o pivô cedeu o seu lugar à pedra dura do poste e abandonou a boca de Abrenúncio. Como uma desgraça nunca vem só e o diabo nunca está contente, a moçoila calhou olhar para trás no exacto momento em que Abrenúncio abria a boca desdentado com o sangue a escorrer-lhe copioso pelo queixo. Depois começou a chover.
O trauma foi tal que no espaço de tempo que mediou entre o acidente e o ir ao dentista, Abrenúncio foi assaltado pelos mais assombrosos pesadelos. Uma noite sonhou com a loira sentada na sua sala de jantar rodeada dos outros dentes. Tomavam chá e comiam bolinhos. De semblante carregado exigiam de Abrenúncio a informação. Qual informação? A informação! Abrenúncio afundava-se no cadeirão e não encontrava respostas, não sabia de nada, estava completamente a leste do paraíso artificial. Encolhia os ombros e abanava a cabeça coberta por uma fina camada de suor frio. Não sabia de nada. A falta que o dente lhe fazia. Era o pivô que costumava ler as notícias lá em casa.

O Banquete

| quarta-feira, 1 de setembro de 2010 | 25 comentários |
A festa ainda estava no seu estado embrionário mas os convivas encontravam-se já sentados à mesa. Uma mesa composta de outras mesas que formavam um círculo. Ninguém queria ficar de costas para ninguém, não por uma questão de educação, mais por instinto de sobrevivência. Miravam-se nos olhos constantemente e arreganhavam os dentes. Tiravam medidas, avaliavam-se. Havia quem salivasse.
As divergências sobre a ementa, que não se podiam considerar supérfluas, eram muitas; os convidados haviam decidido, por uma qualquer vicissitude da época, comerem-se uns aos outros. Assim mesmo, sem apelo nem agravo. Ora, uma empreitada deste nível nunca é aceite de ânimo leve, assim, do pé para a mão. Impunha-se organização. Estas coisas só se decidem através de uma forte sentido de entendimento e comunhão. Entretanto, se havia quem não se importasse de ser comido havia também aqueles que se recusavam veementemente a servir de repasto a qualquer um.
Os de estirpe mais nobre, por exemplo, não lhes bastava a carne do seu vizinho mal passada a sangrar no prato, não. Queriam-na servida por criados de libré. Por outro lado, a malta da rambóia, não se ensaiava nada em comer a nobreza entre dois pedaços de pão depois de devidamente esturricada no fogareiro. Eram dois estilos diferentes que se confrontavam. Anuíam, isso sim, em que era preciso era haver carne. E sangue. Disso não restavam quaisquer dúvidas. A incerteza residia precisamente no objecto dessa carne e desse sangue, que nenhuma das partes estava disposta a produzir.
A certa altura a argumentação puramente filosófica subiu de tom para o debate religioso: Quem deve comer o homem? E como em todas as manifestações de cariz religioso, lá estavam os sacerdotes, de pé, à espera duma conclusão. Abençoavam uns e outros na certeza porém, de que fosse qual fosse o desenlace, uma terça parte lhes caberia por direito divino.
Os magarefes, na sua eterna paciência, bocejavam aborrecimento perante tamanha polémica. Afiavam os cutelos com a desenvoltura típica do ofício, e como novidade, colocavam nos ouvidos tampões de silicone para abafar o ruído; que isto os homens quando lhes toca a morrer gritam mais que os porcos.

Para a Fábrica de Letras - tema livre