Páginas

Ainda Domingo

| domingo, 19 de julho de 2009 | 14 comentários |

Zeferino chegou à praia e estendeu a toalha no sítio que lhe era preferido: o bar. Ficava sobranceiro ao areal e tinha uma vista privilegiada sobre o oceano. Pediu um Mojito. Não que gostasse muito da bebida, mas vira o James Bond a fazer o mesmo num filme. Era domingo; o dia da semana que (de tão estúpido)foi reservado a Deus. Rezou para que uma Halle Berry lhe caísse no colo. Caíu-lhe o Mojito ao invés. Pediu outro, aquela história da hortelã era interessante.
Às 10h30 certas, começaram a chegar as famílias. Perante a imensidão do areal e a difícil escolha entre a esquerda e a direita, iam optando por ficar todas logo ali, em frente à passadeira. Assim dava menos trabalho a sair. À direita ficavam os surfistas, à esquerda as nudistas. As famílias ficavam ao centro para manter a moral e os bons costumes. As mães retiravam a trela aos filhos e deixavam-nos ir para beira-mar, ladrar às ondas. Os pais, alegavam um passeio para esticar as pernas e sub-repticiamente todos os seus membros viravam à esquerda. Os mais velhos arregaçavam as calças cinzentas e iam molhar os pés. Quando voltavam já a melancia rodava por entre sombrinhas. À direita os surfistas comiam croissants e suspiravam por tsunamis que nunca mais chegavam. Mais à esquerda, as nudistas giravam como sardinhas na brasa, e isso enchia de água, a boca dos paizinhos que esticavam as pernas.
Eram 12h00 e Zeferino perdera a conta aos Mojitos. Agora mastigava as folhas de hortelã lembrando um qualquer animal ruminante. Estava calor e Zeferino sentia-se com aquela felicidade que só o rum proporciona. Apetecia-lhe fazer surf montado num croissant, nadar por entre as sombrinhas e tirar as pevides às nudistas. Era ainda domingo, o dia que vem antes de segunda-feira.

O Aterro

| quarta-feira, 15 de julho de 2009 | 4 comentários |
Zeferino olhava para a cidade e entristecia-se. O que antes fora um local aprazível para se viver, brindado com o recorrente espectáculo do por-do-sol, hoje não passava de um mero galinheiro. Um aterro, melhor dizendo. As asneiras feitas em nome do progresso e o milagre da multiplicação dos corruptos, tinham conseguido tornar a cidade numa amálgama cinzenta de pó, cimento e esterco. De onde estava, Zeferino já não conseguia ver a casa onde tinha nascido, nem as ruas onde aprendera a andar de bicicleta. Agora só havia prédios e carros. Prédios onde moravam as pessoas que, tinham carros para se deslocarem até aos prédios. No antigo estádio de futebol, os dois candidatos digladiavam-se, na ânsia de assumir todo o poder e todo o exército de lambecusistas que lhe era inerente. Do pouco que assistiu, Zeferino viu, o candidato da Rua X a mastigar um bocado do nariz do candidato da Avenida Principal. Mas, num volte-face inesperado, o candidato da Avenida conseguira colocar-se numa posição de vantagem e arrastava agora o da Rua X pelas orelhas. O povo delirava ao rubro. Havia sangue, o povo gosta de sangue. As crianças, embrutecidas, comiam carne e rebolavam-se pela relva.
Zeferino recolheu ao quarto, agarrou numa folha de papel e começou a escrever:«Caro Eric, a tua profecia cumpriu-se: chegámos a 2009 e os porcos continuam a triunfar».

O Calor

| terça-feira, 14 de julho de 2009 | 4 comentários |
«Calor do caraças!». Era Labregoísio quem se queixava. Andava para baixo e para cima, no Palácio da Justiça a mover processos e outras caixas cheias de papelada para a cave. A cave era o único sítio onde os magistrados conseguiam trabalhar sem tirar a roupa. Há muito que as salas do primeiro e segundo andar eram um espectáculo para a população. Não porque se julgava o caso de um sanguinário serial killer, não. Quem enchia as salas, ia lá, não para ver a justiça ser feita, mas para poder ver a Assistente do Ministério Público em cuecas. Era algo que no meio do calor abrasador, distraía as pessoas.
Labregoísio gostava da Assistente do Ministério Público, a Eufrázia. Foi por ela que aceitara aquele trabalho a meio do verão. Foi também por causa da Eufrázia que destruíra o sistema de ar condicionado dias antes. Queria vê-la sem roupa. Já uma vez tinha tentado, numa saída à noite. Depois do cinema ele pediu para ela se despir e ela deu-lhe um estalo. Agora que ela finalmente se apresentava nos preparos que ele desejara, andava ele num vaivém intermitente entre a cave e o primeiro andar. «Não é justo!» resmungava Labregoísio no edifício onde todos se pautavam pela justiça. Subia e descia as escadas, com ar maldisposto e a camisa colada ao corpo, de vez em quando suspirava:«Calor do caraças!»

Os Bons Dias

| segunda-feira, 13 de julho de 2009 | 6 comentários |
Romualdo chegou a casa e bebeu duas cervejas de rajada. A sede não era muita, mas a vontade de beber era enorme. Passara o dia perdido nos meandros do Ministério das Boas Maneiras e Etiqueta. Precisava de uma licença para poder evitar cumprimentar os seus colegas todos os dias. Há muito que lhe custava aquele ritual diário de ter que dizer «bons dias» a todo aquele bando de energúmenos, que não lhe suscitavam a menor simpatia. Mais, o que lhe irritava mesmo era o falso humor que abundava na repartição logo pela manhã. As piadinhas à sua cara de maldisposto, as insinuações sobre a noite que passara, tudo pejado de risinhos, sussurros e muita mesquinhice cor-de-rosa.
No Ministério as coisas não tinham corrido pelo melhor. Um dia inteiro de espera. As senhoras dos guichets, imbuídas do espírito da tutela do Ministério, serviam chá e bolinhos a cada utente e perguntavam sempre pela família, antes de começarem a dar andamento aos requerimentos.
A felicidade e boa disposição dos outros irritavam-lhe sobremaneira. «Amanhã já não os vou aturar». Ria-se ao imaginar as caras dos colegas.Estava nisto quando encetou mais uma cerveja que “respirou” de imediato.

Sinais de Fumo

| sexta-feira, 10 de julho de 2009 | 5 comentários |
Havia vários dias que comunicavam por sinais de fumo. As comunicações convencionais tinham ficado fora de uso depois da descarga electromagnética. Como não havia dicionários de linguagem de fumo, e a prática estava ainda pouco difundida, eram frequentes os equívocos e mal entendidos. Especialmente ele, que sempre se baldara às aulas de Morse em Caso de Guerra, agora via-se completamente à rasca para perceber o que ela lhe queria. Passavam horas a tentar decifrar as missivas fumegadas por cada um. Àquela distância as mensagens cruzavam-se constantemente e o caos reinava na informação. A pouco e pouco o fumo dela foi-se desvanecendo no horizonte e acabou por se misturar com a fumaceira geral. Todos os dias ele levantava-se cedinho e acendia uma fogueira, mas do lado dela apenas se afigurava uma nuvem grossa e negra, uma soma do desespero que se fazia sentir pelas bandas setentrionais. Um dia acordou inquieto, ansioso, precisava mesmo de falar com alguém, mas para seu desalento acabara-se a lenha.

O Cansaço

| quarta-feira, 8 de julho de 2009 | 5 comentários |

Abrenúncio arrastava o corpo pelo caminho que lhe parecia cada vez mais longo. Os pés incharam o suficiente para que cada passada sua correspondesse a uma condenação. Os joelhos latejavam, invocando noites de humidade e relento. Maldito reumático. Malditos pulmões que já não respiram. Ainda era cedo. Era metade da sua vida ainda. Chegar a casa, fechar os olhos e dormir. Dez anos se possível...Não, vinte. Vinte anos era o ideal. Sentou-se a meio do caminho a fumar um cigarro e pensou como seria bom se pudéssemos dormir para trás. Adormecer hoje e acordar na semana passada. «Bah! É oficial, estalou-se-me a parvoíce» pensou Abrenúncio em voz alta. Um carro a alta velocidade passou por uma poça de água e deixou-o todo encharcado. Era o que faltava para completar o cenário. Estava a pouca distância de casa mas só conseguia pensar no cansaço. O cansaço que agora se distribuía por todo o corpo.

A Encomenda

| terça-feira, 7 de julho de 2009 | 6 comentários |
Chegou a casa e deu com a caixa em cima da cama. Uma encomenda. Primeiro desconfiou; como é que a caixa foi ali parar? Quem a enviou? Aproximou-se devagarinho e rodeou o objecto de vários ângulos. Era branca e não tinha inscrições. Seria uma daquelas encomendas-bomba que andavam a semear o pânico na Cidade? Não! Não podia ser. Até agora as bombas haviam sido todas detonadas no Sector Intelectual, e ele não passava de um mero operário da Fábrica de Replicantes. E se esta fosse a primeira de muitas bombas a explodir no Sector Operário? Humm, pouco provável. A única facção que lhes guardava rancor pertencia ao Sector Executivo, e esses, conheciam outras formas de lhes induzir sofrimento. Cheirou a caixa, como um sabujo, e não detectou odores químicos. Sentou-se ao lado da encomenda. Mentalmente travava uma batalha consigo próprio «abro, não abro, abro, não abro...». A curiosidade sempre fora um dos seus maiores fracos. Partiu o selo que fechava a caixa e com os olhos fechados abriu-a em câmara lenta. «Não explodiu» já era um bom sinal. Ainda assim abriu os olhos a medo, e depois, quase alarmado pôs-se de pé. Um livro? Já tinha ouvido falar daqueles objectos mas era a primeira vez que via um. Junto com o livro vinha um cartão. Segurou-o e reparou na letra que era feminina:«Pensa: Na vida nem tudo são horrores». Sentiu um rubor a espraiar nas faces. Sorriu e soluçou ao mesmo tempo. Seria aquilo a felicidade?

A Avaliação

| segunda-feira, 6 de julho de 2009 | 9 comentários |
Ildefonso estava prestes a ser avaliado. A avaliação apresentava-se mais como uma condenação esperada do que, com um julgar imparcial dos seus actos, do seu real valor. Todos os anos era submetido àquele martírio que rapidamente desaguava numa humilhação. A sala parecia crescer de tamanho cada vez que o supervisor desfiava as suas faltas, os seus pecadilhos, a sua deficiente assertividade. Cada vez que o homem lhe apontava o dedo, Ildefonso minguava um pouco, até tocar com o nariz nos calcanhares. Quando mais se agachava mais o espezinhavam, era um ciclo. Chegado ao fim o grotesco espectáculo que era a avaliação, o veredicto redundava sempre no mesmo: «não reuniu as condições necessárias para transpor de categoria». Depois, Ildefonso agradecia e saía amarrotado da sala. Este ano porém, nada iria ser igual. Este ano, Ildefonso levara uma caçadeira para a avaliação.

La Fiesta

| sexta-feira, 3 de julho de 2009 | 5 comentários |
As bancadas estavam completamente a abarrotar. A multidão acotovelava-se para arranjar um bom lugar. Naquele fim de tarde solarengo, toda a sociedade de Remulak – A Grande, comparecera ao evento mais badalado dos últimos tempos. Ao centro na bancada superior, os conservadores, fumavam os seus charutos e discutiam as últimas da economia macro-cósmica. Os seus criados, munidos de abanadores mantinham o ar fresco a circular. Na bancada da direita, mais perto da arena estavam os filhos dos conservadores. Estes bebiam coca-cola e fumavam cigarros de mentol, contavam piadas curtas uns aos outros e soltavam risinhos histéricos. A sua presença ali não passava de um frete que faziam aos seus pais, era bem conhecida a sua propensão para ambientes mais resguardados. Todo o lado esquerdo do ringue, zona superior e baixa, era ocupado pelos radicais do movimento “Força Bocage”. Estes eram incansàveis, sempre batucando em tambores e tangendo bandolins, geravam um ambiente que se assemelhava muito a uma concentração metafísica. Entre uma passa e outra nos cigarros mágicos das tribos do sul, gostavam de provocar os filhos dos conservadores com ditos espirituosos:«Ó betinho, vai p'ró Caralho!».
Sozinho na arena pontificava Romualdo – O Matador. Vestido de preto, apesar do calor que se fazia sentir, como a morte, esperava pelo momento do confronto final. Munido apenas do seu humor sarcástico e de um exemplar gasto do Arranca-Corações, Romualdo sentia-se preparado. Aquela era uma boa tarde para andar à porrada. Largamente apoiado pelo movimento “Força Bocage”, estes não se cansavam de gritar:«Soltem a Besta! Soltem a besta!». E sem mais, a Besta foi solta. O silêncio invadiu todo o ringue e arena como uma doença má. Sequer um suspiro se soltou. Romualdo olhou a Besta nos olhos e fez-lhe sinal que avançasse. A Besta soltou um grunhido. Ajeitou a gravata ao pescoço, encostou os dedos indicadores à testa e avançou bufando para o Matador que, já se encontrava em posição de lhe dar umas chapadas.

O Palhaço

| quinta-feira, 2 de julho de 2009 | 4 comentários |

Quando o palhaço Anacleto foi atropelado, o condutor seguiu caminho sem lhe prestar qualquer auxílio. Anacleto espalhado pelo chão tingia de vermelho a passadeira, conferindo-lhe um aspecto tricolor tão próprio do mundo circense. Como tinha tempo para isso, meditou sobre a sua vida de saltimbanco que agora parecia chegar a um término antecipado. Viu o sorriso das crianças nas longas tardes de espectáculo e os tombos propositados que tomava por causa delas. Lembrou-se dos elefantes e dos trapezistas, dos funâmbulos e especialmente das contorcionistas. Uma vez apaixonara-se muito à parva por uma contorcionista chinesa, mas esta padecia de amores pelo Magnífico Lambrini – o Mágico de serviço. Desgostado correu o mundo na sua roulotte, de palhaçada em palhaçada, pintando a dor de alegria, forçando gargalhadas nos outros.
As pessoas começaram a aglomerar-se à sua volta, como sempre acontece nos acidentes trágicos. Ao longe, muito ao longe, já se descortinava o tinóni da ambulância que o iria levar para a última morada; sim, ele sabia que estava de saída.
Nos últimos momentos pensou em como gostaria de ter confessado a alguém que, a morte acidental do Magnífico Lambrini não tinha sido nada acidental. A reminiscência desprendeu-lhe um último sorriso e assim se ficou, sorrindo, como só os palhaços tristes sabem. Como não estava pintado ninguém o reconheceu.