O Melhor Lugar

| domingo, 14 de junho de 2009 | |
Encostados num beco escuro dizem adeus ao Rei. Estranha moldura esta por onde têm que ver Sua Majestade passar. É melhor do que nada, comentam entre si, a multidão da frente já foi espezinhada e a segunda fila ocupa agora o seu lugar. As pessoas na sua ânsia de não perder um vislumbre que seja, empurram-se, pontapeiam-se e mordem-se umas às outras. Ainda há bocado viram uma senhora de idade a puxar os cabelos de uma outra que, estava a arrancar um olho a um senhor que, rangia os dentes mas não arredava pé. O Rei era um monstro sagrado. Era feio, desdentado e sujo. Cheirava mal de todos os poros e as suas vestes eram horríveis farrapos. Não sabia sequer falar como as pessoas, grunhia uns sons guturais enquanto espumava pela boca. Boca essa de onde pendiam pedaços de carne crua. Não acenava, arrotava apenas. A multidão delirava à sua passagem. Lá atrás alguém perguntou:«Porque é tão amado o Rei?», mas ninguém sabia responder. Sabiam sim que um dia, alguém apontou e disse:«Eis o vosso Rei!».
Do fundo do beco só conseguiam entrever a histeria e o desatino da frente, do Rei nem mostras. Aquele era mesmo o melhor lugar.

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