O Dom

| quinta-feira, 13 de agosto de 2009 | |
Felisberto nascera com um dom peculiar. Não conhecia a dor. Os médicos bem lhe deram umas valentes palmadas, mas ele, limitou-se a sorrir. O sorriso era outro dos atributos que diferenciava Felisberto do mais básico dos bípedes. Era como que redentor. Tinha propriedades regeneradoras e curativas. Quando alguém ficava muito doente lá no bairro, logo clamavam por Felisberto para que viesse acudir. E Felisberto acudia. Bastava-lhe chegar-se perto do enfermo, dizer-lhe uma ou duas palavras de consolo,sorrir como só ele conseguia e pronto. Ora, a palavra cedo se espalhou pela Cidade e a vida de Felisberto tornou-se num corrupio.Toda a gente se aproveitava do dom de Felisberto; dos mais ricos aos mais pobres. E assim lá ia fazendo a sua vida; sorrindo. De manhã, ao acordar, ia sempre à janela cumprimentar o astro-rei, e, logo se deparava com uma multidão de boémios, foliões e outro tipo de marialvas que ganharam o hábito de dormir por debaixo da varanda de Felisberto. Era matemático. Um sorriso e, adeus ressaca. Nas campanhas eleitorais era também muito solicitado pelos autarcas, para que sorrisse aos munícipes em vez deles. As eleições resultavam invariavelmente num empate mas nunca ninguém se aborrecia com o sucedido. A felicidade de Felisberto era uma espécie de poção mágica que abrangia toda a Cidade.
Um dia porém, andava Felisberto a passear pelos jardins da Cidade quando foi acometido por uma urgente necessidade natural. Como não houvessem balneários por perto, decidiu aliviar-se, ali mesmo, atrás de um belo arbusto. Ah! O alívio imediato. No entanto, quando puxava incauto o fecho das calças para cima, um incidente ocorreu: Felisberto prendeu a pila. Uma dor lancinante (que o fez ver: primeiro branco, depois todas as cores do arco-íris) percorreu-lhe a espinha. Com as lágrimas a rolarem-lhe copiosas pela face, Felisberto sentiu que algo havia mudado radicalmente na sua vida. No dia seguinte, ao acordar com a maior ressaca da história, a Cidade constatou o mesmo.

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