O Desacato

| quarta-feira, 26 de agosto de 2009 | |


Um dia, estavam todos a reunidos, numa festa de anos ou noutra ramboia qualquer, quando o mago a título de piadola, transformou, para pasmo geral dos convivas, a água em vinho. Erro crasso número um. Aquela malta gostava mais de vinho do que da própria mãe, havia até quem fosse capaz de a trocar por um jarro do belo néctar. A principio tudo correu bem, enquanto foram só anedotas e boa disposição, mas depois começaram a dissertar sobre política e aí a situação azedou. Uns era a favor da ocupação romana, por mór do comércio, do cosmopolitismo e da estabilidade que era viver entre os mais modernos dos homens. Ah, mas os outros, os que não queriam os estrangeiros entre eles, arengavam desditas sobre a falta de respeito dos ocupantes pelo deus único, pelos seus costumes, e ainda havia os impostos, os malditos impostos. E as mulheres que eram obrigados a sofrer com os piropos execráveis dos legionários? Lembrou outro. Não podia ser. «A tua mulher parece não se importar, até gosta» lançou um dos partidários de César. Foi a gota de água, que transbordou o copo de vinho. Num ápice começaram cadeiras a voar e partiram-se jarros de forma a adaptá-los em objecto cortante. O dono do estabelecimento, vendo o prejuízo crescer a cada segundo, apelava à calma sem resultados positivos. O mago, exibindo um ar superior virou-se para o comerciante «eu vou-te mostrar como isto se faz», e nisto pôs-se no meio da confusão de braços abertos. «Ordeno-lhes que parem em meu nome!» Nem chegou a ver a cadeira que o atingiu na cara e lhe partiu o nariz. A partir daí, encolhido no chão, e como não tinha opinião sobre a matéria, apanhou dos dois lados. Ficou muito mal tratado.
Quando o Centurião exigiu que lhe explicassem como todo aquele desacato havia começado, disseram-lhe simplesmente que, aquele que jazia inconsciente no chão tinha transformado a água em vinho. «Patranhas!» rosnou o Centurião. O que é certo é que a história se espalhou e transformou-se como o vinho, e ainda hoje os povos se espantam com o maravilhoso feito.

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