A Culpa

| terça-feira, 11 de agosto de 2009 | |
De quem era a culpa? Era a pergunta que se impunha e que Romualdo tardava em responder. Em primeira instância a culpa não era de ninguém. A ser de alguém só podia ser de Deus, o grande criador e iniciador de todo este movimento perpétuo de atribuição de responsabilidades. No parecer introspectivo de Romualdo, a culpa apresentava-se em vários patamares ou círculos como no Inferno. A culpa pode começar no patrão, como observou Romualdo a certa altura, mas acaba sempre no empregado, que, bem domesticado, arca com toda a culpa e suas consequências, convencido de que este será um acto maior de dignidade. Pobre coitado que só na ignorância é honrado.
Romualdo revolveu e voltou a analisar todos os depoimentos, mas a dúvida não o largava. Como descobrir a culpa numa sociedade onde ninguém é culpado? Seria a culpa da senhora que não viu o carro em excesso de velocidade? Seria a culpa dos operários que pintaram mal as passadeiras? Seria a culpa do homem que vinha ao telefone e não viu o sinal de aproximação de passagem para peões? «Ah!» Suspirava Romualdo «não há solução».
«A culpa é de toda esta gente, quem é que lhes mandou nascer?» alguém, a quem o chá havia esfriado, gritava a sua indignação. «Pois pá, estes gajos nem deviam ter nascido com olhos, por isso calem-se e vão para casa» - Agora era o enfadado proprietário de um veículo topo de gama que se exaltava no engarrafamento. Romualdo tirava apontamentos no seu bloco de notas feito de medida para dilemas obscuros. Olhava nervoso em volta, enquanto secretamente desejava que de súbito surgisse uma qualquer entidade superior, uma deidade, que o livrasse daquele imbróglio, daquela dúvida. Um mordomo seria o ideal.

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