O Cidadão

| segunda-feira, 2 de agosto de 2010 | |
A grande aventura começou quando o homem se sentou. Tudo é possível quando um homem se senta, é todo um rol de possibilidades que se revela. «Somos um povo aventureiro e aguerrido...» é o locutor que o diz, o documentário começou agora: «...somos uma sociedade progressiva, reivindicadora dos direitos do ser humano, o mundo reconhece-nos o trabalho, reconhece-nos a aventura, as descobertas, o brio.» Foi quanto bastou ao homem para se sentir galvanizado. As palavras soaram-lhe como um toque a rebate, um despertar para a vida. Ele era um deles, fazia parte daquele povo valente, imortal, orgulhoso. Era a hora. Ele que sempre chorara quando o hino tocava antes dos jogos de futebol, sentia-se agora mais do que nunca, um cidadão. Era o mestre do seu cadeirão ao comando do seu comando; era o rei da sala, o treinador de sofá, o revolucionário de chinelos; campeão de pugilismo doméstico, com a unha mais comprida do mundo coçava a maior micose do universo.
«Agora é que vai ser!!!» gritou irritado contra a placidez dos móveis.

Intervalo.

Os gases nobres do plasma exortaram-no a uma outra vitória «compra, compra, compra...» em explosões de cores e compassos binários. «Hei-de comprar» vociferava o homem contra a pasmaceira da estante dos livros. «Hei-de comprar» tornara-se no novo hino. Ao mesmo tempo que abocanhava um pedaço de frango frito todo ele viajava boçal pela curvatura da cupidez. Abria muito os olhos quando mastigava, como se quisesse comer o mundo. Sorveu o balde de gasosa borbulhenta e lançou um arroto castanho que cheirava a amarelo. Convenceu-se que era um homem feliz, o mais feliz de todos. É para isso que servem as convenções sociais: para fingirmos que somos felizes.
Um pequeno aglomerado de banha, recheada de carne podre injectada de alegorias oleosas acelerou pela auto-estrada femoral até atingir o túnel de acesso à grande válvula. O trânsito a principio ficou só congestionado mas depois toda a circulação cessou por completo.
Foi uma longa viagem, a do homem. No fim, encontrou-se a si próprio: uma vez e outra e outra ainda. São duas as coisas às quais não se pode fugir: o destino e a comichão no escroto.

Para a Fábrica das Letras - Uma Longa Viagem

23 comentários:

meldevespas Says:
2 de agosto de 2010 às 10:07

Ah ganda viagem!
Este teu homem é qualquer homem sentado no seu sofá, sózinho.
É repetitivo dizer isto, mas gosto da maneira como escreves, gosto da crueza da coisa, gosto e pronto!

Tulipa Says:
2 de agosto de 2010 às 11:41

Muito bom texto Matador. Mais uma vez deixaste-me a pensar na vida...eu emociono-mo quando toca o hino antes dos jogos,no entanto, nunca tive comichão no escroto.

Eduardina Says:
2 de agosto de 2010 às 13:28

Divertido, irónico e inesperado. E, sobretudo, bem escrito.
Gostei.

Helena Says:
2 de agosto de 2010 às 14:07

Fiquei de estômago embrulhado só de ler!

Natália Augusto Says:
2 de agosto de 2010 às 14:20

Nada é perfeito, certo? Mas a sua participação é! Ri-me bastante. Este é o cidadão comum! Será que haverá algum incomum? Não me parece...

Parabéns!

El Matador Says:
2 de agosto de 2010 às 16:08

@Meldevespas:É o homem moderno do século XXI;

@Tulipa: Ainda bem que nunca tiveste uma comichão no escroto, seria no mínimo: irregular;

@Eduardina: Obrigado;

@Helena:Pois, é um bocado indigesto.

@Natália: Este cidadão é, cada vez mais (infelizmente), comum.

luisa Says:
2 de agosto de 2010 às 18:15

Este é o tal retrato "certinho, direitinho" de tantos viajantes que por aí há ao volante, perdão, ao comando da TV e à volta de si mesmos. Bem captado.

roserouge Says:
2 de agosto de 2010 às 22:56

"Comichão no escroto" é muito bom. Desculpa lá, mas só a palavra "escroto" é medonha. Escroto. Repeat after me: escroooooto! Que horror. Mas continuas a escrever bem, lá isso é verdade. Olha, cá a mim dá-me comichão no calcanhar. Calcanhar também é muito mau. Mas escroto...

Ricardo Fabião Says:
2 de agosto de 2010 às 23:16

A intensidade da viagem só cabe ao nosso próprio julgamento. Uma coçada no lugar certo pode ir mais longe e mais prazerosamente do que viagens
interplanetárias.

Texto divertido, irônico,
bem escrito e um tanto reflexivo.

Abraço.
Ricardo

desejo Says:
2 de agosto de 2010 às 23:50

Irínico mas verdadeiro. E o pormenor da unha, que ainda prolifera em muitos homens.
Que horror.
Texto interessante.
Gostei

El Matador Says:
3 de agosto de 2010 às 03:11

@Luísa: revolucionários da estática.

@Roserouge: O Escroto de Aquiles é muito conhecido.

@Ricardo: É isso, a intensidade da viagem tá em cada qual.

@Desejo: O pormenor da unha não podia faltar, é um clássico. Obrigado, volta sempre.

Missy Chatterton Says:
3 de agosto de 2010 às 21:23

gostei bastante ! ;D

Tulipa Negra Says:
4 de agosto de 2010 às 11:40

Infelizmente, cada vez há mais pessoas a viver no sofá, a viver através da televisão, agarrados ao frango frito ou equivalente. E depois admiram-se de acabar a viagem da mesma maneira...
Gosto do pormenor da unha, mas falta o bigode e a barriga proeminente para ser um retrato completo.
Beijinhos

El Matador Says:
4 de agosto de 2010 às 18:40

@Miss Chatterton: Obrigado e bem-vinda.

@Tulipa Negra: Sim, o bigode e a barriguinha dão de facto um toque lusitano à coisa :)

johnny Says:
9 de agosto de 2010 às 17:51

Mais uma bela participação.

Fez lembrar o homem do seven, que capitulou perante o pecado da gula.

El Matador Says:
9 de agosto de 2010 às 18:16

Realmente dá uns certos ares, sim. :)

Catsone Says:
16 de agosto de 2010 às 23:07

Matador, esta descrição de enfarte agudo do miocárdio (se bem interpretei o que escreveste) deveria vir em livros da especialidade!

El Matador Says:
16 de agosto de 2010 às 23:26

Ahahaha, interpretaste bem ò Catsone, não sei se os livros da especialidade concordavam contigo (quem os escreve, digo)

MZ Says:
17 de agosto de 2010 às 00:22

"...compra, compra, compra...
"Eu não comprava este tipo nem por nada!

Adorei a do "mestre do seu cadeirão ao comando do seu comando"

SC Says:
18 de agosto de 2010 às 10:21

Sobretudo... deixa-nos a pensar.
Fantastico!

El Matador Says:
18 de agosto de 2010 às 10:48

Era essa a ideia. Obrigado SC.

blue Says:
23 de agosto de 2010 às 00:40

"É para isso que servem as convenções sociais: para fingirmos que somos felizes."


Grande texto - usas as palavras de forma nua e crua. Sem pretensões. Gostei.

El Matador Says:
23 de agosto de 2010 às 08:52

Contenta-me que tenhas gostado, Blue.