#203

| quarta-feira, 28 de julho de 2010 | |
O ar da sala era de tal forma abafado que o calor ganhava contornos e colava-se a Romualdo como uma segunda pele fervente e oleosa. «Este gabinete precisa urgentemente duma janela» queixava-se Romualdo de si para si. A velha ventoinha que rangia desengonçada com as pás tortas e o suporte oxidado, servia o seu propósito ao contrário quando espalhava o ar quente em vez de o refrigerar. Os processos empilhavam-se na secretária de Romualdo desenhando uma estranha Torre de Babel. Uma onde todos falavam a mesma língua: desespero.
Ermelinda Bagarrão: Analfabeta, desempregada;
Moradia: Casa Abarracada em regime ilegal;
Doenças e outros: Não tem o braço direito, sofre de depressão.
«Ai meu Deus que isto nunca mais vai acabar e ainda só vou na letra E». Era Romualdo quem se queixava. A miséria nunca acaba: relativiza-se. Os miseráveis acampavam na secretária de Romualdo como se estivessem num festival de verão, daqueles de três dias. Romualdo arrumava-os numa partição, entre bits e bytes, por ordem alfabética, até que a morte os reciclasse.
«Uma cerveja! Dava o meu braço por uma imperial gelada.» O suor escorria-lhe em cascata e Romualdo sonhava com esplanadas. O seu corpo era uma máquina: computava miséria e libertava vapor, mas a mente, essa já estava de férias: junto ao mar atirava pedras às ondas e rebolava-se na babuja.
Na rádio, uma horda de energúmenos armava um cagaçal eclesiástico:
-Porquê esta manifestação fervorosa em apoio do padre Bonifácio? - Indagava o repórter junto de uma acólita em avançado estado de rouquidão.
-Porque o padre Bonifácio é que...É dele que a gente gosta... O padre Bonifácio não aleija as crianças na catequese quando as acaricia...
A senhora Ermelinda tinha dois filhos. Um tinha a síndrome de Down, o outro era toxicodependente.
«Também me contentava com um mojito» sonhava Romualdo, «Com muito gelo e muita hortelã, hummm, marchava nas horas». Os dedos deslizavam ligeiros pelo teclado e a vida seguia o seu rumo. Segue sempre, mesmo quando não está ninguém a ver.

6 comentários:

Tulipa Says:
29 de julho de 2010 às 13:16

A miséria nunca acaba: relativiza-se. É a visão do inferno. kiss

El Matador Says:
29 de julho de 2010 às 14:25

No mínimo.

Muss Says:
29 de julho de 2010 às 23:46

Adoro a forma como exprimes a lassidão da vida.
Ler-te é uma autêntica experiência sensorial!

El Matador Says:
30 de julho de 2010 às 08:40

Obrigado Muss. Volta sempre.

. Says:
2 de agosto de 2010 às 06:52

Adoro tuas críticas! Tão bom te ler... =)

Beijo,
Ane

El Matador Says:
2 de agosto de 2010 às 07:45

Obrigado Ane, é sempre bom ouvir isso.