#339

| sexta-feira, 25 de janeiro de 2013 | |

É triste. É tudo tão triste. Começa com um piano que marca preguiçoso um compasso simples, pergunta e responde conforme avança. O executante parece não querer mais levantar as mãos cada vez que as pousa no teclado. Arrasta depois uma melodia: uns versos lentos e melancólicos como quem boceja nostálgico, como quem acorda drogado de saudade.
Entra o violino… Que angústia! Um sofrimento que se prolonga quase até deixar de ouvir-se, um esgar no rosto, uma nota suspensa de aflição. O piano martela aqui e ali como que a chamar para a realidade, mas o que se mantém é aquela expressão paralisada de medo: uma boca de braços em baixo, um olhar de mãos pendidas. O ambiente aquece com a voz semi-rouca do violoncelo que surge qual bálsamo conciliador. Ameniza acolá a ferida aberta com uma escala ou duas. Depois parece deixar-se levar pela entropia e mais não faz que sublinhar a dor. Harmonizam os instrumentos; reparamos agora que também há uma espécie de xilofone baixinho a sustentar todo o edifício. Agora estão todos de acordo: não há nada a fazer, é deixar sufocá-lo, é deixá-lo ficar. Saem de cena, um a um, os instrumentos ao de leve, como uma brisa que se deixa de sentir. Fica apenas o violino, em suspenso como entrou: um chorar baixinho sem lágrima, uma nota só que se mantém equilibrada sob ameaça de extinção, indelével, incorrupta, como o passado que paralisa à noite, como uma droga. 

Moon

3 comentários:

luisa Says:
25 de janeiro de 2013 às 22:24

É bonito. É tudo muito bonito neste texto.

nAnonima Says:
25 de janeiro de 2013 às 22:24

tenho pena que tenha sido essa a música.

Mz Says:
27 de janeiro de 2013 às 23:47

Parece triste mas não é.
O violino é difícil e não é para todos. Isso eu sei!