Voo Nocturno

| terça-feira, 10 de julho de 2012 | |

Ildefonso tinha uma tara que muito desagradava a sua esposa: andar de bicicleta à noite. À hora que as pessoas normalmente se iam deitar, depois de se despedirem no facebook, àquela hora em que já começa a fazer fresquinho, era quando Ildefonso agarrava na bicicleta e desatava a pedalar rua acima, rua abaixo. Era um prazer como outro qualquer, explicava ele à mulher, gostava de sentir o vento nocturno roçar-lhe a fronha.
Hoje vou inovar, Maria, e nisto agarrou no velocípede e saiu de casa. Maria não prestou muita atenção, embrenhada que estava a copiar frases inteligentes do Citador, mas depois, como se acordasse violentamente de um sonho, resolveu ir à janela para ver o que é que o marido queria dizer com aquilo do inovar.
Ai! - Exclamou Maria da varanda ao ver Ildefonso percorrer a rua, em alta velocidade, montado na bicicleta: todo nú. Ildefonso, não podia estar mais contente, era um antigo sonho que finalmente concretizava. Sentia-se como se atravessasse as nuvens a alta velocidade com o vento a sacudir-lhe o corpo inteiro, é o que há de mais parecido com voar, pensou com os botões que não tinha. Maria praguejava baixinho, volta para casa cabrão, volta imediatamente para casa, apetecia-lhe gritar mas continha-se devido às avançadas horas da noite.
Numa das indas e vindas vertiginosas de Ildefonso, eis que a roda da frente se prende numa brecha do asfalto (posta ali pelos deuses da coincidência) fazendo a bicicleta empinar e cuspindo violentamente Ildefonso para o ar. Nisto, vinha o vizinho do rés-de-chão a chegar casa, depois de ter levado a passear o caniche irritante, quando vê Ildefonso passar por ele num voo arcado, de badalo ao léu e sorriso na cara. Boa noite vizinho, cumprimenta Ildefonso. Nem o vizinho, nem o cão retribuiram o cumprimento, quedando-se apenas boquiabertos no meio do passeio.
No primeiro andar, Maria, de mãos na cara, aflita, não se contém e deixa escapar em voz alta, Ah! desgraçado, ao menos cai de costas.

6 comentários:

luisa Says:
10 de julho de 2012 às 21:12

Coitada da Maria. E será que ele obedeceu?

El Matador Says:
10 de julho de 2012 às 21:30

pois, era melhor para os dois.

Olinda P. Gil © Says:
10 de julho de 2012 às 22:40

Será que ele se sentiu feliz por voar?

El Matador Says:
10 de julho de 2012 às 22:51

penso que sim, mesmo que tivesse sido só por breves instantes.

Briseis Says:
11 de julho de 2012 às 12:03

Quando os homens dizem que vão inovar, nunca é boa notícia...
Pedindo perdão por alongar muito o tamanho do comentário, vou contar a história do homem que chegou a casa a dizer à mulher "Maria, tu hoje prepara-te... Vamos fazer amor à carpinteiro!". A Maria até preparou o jantar e arrumou a cozinha mais cedo, cheia de espectativa mas, afinal, a performance do marido não variou... Na manhã seguinte, quando o questionou acerca da desilusão, ele exclama: "O quê??! então tu não reparaste no lápis atrás da orelha?!"

El Matador Says:
11 de julho de 2012 às 12:14

Simples e eficaz.