A Estação

| terça-feira, 31 de agosto de 2010 | 8 comentários |
Labregoísio não encontrava a saída da estação e havia já duas horas que andava às voltas. Parecia não haver portas naquele espaço; uma gigantesca redoma hermeticamente fechada. No entanto as pessoas continuavam a entrar. Por onde? Não sabia. Quando tentava sair era empurrado por um fluxo de seres em debandada que entravam por...Algures. Era como se se materializassem num qualquer ponto de elevada estranheza quântica.
Estava outra vez no mar bravo; a bandeira vermelha, os salva-vidas a jogarem à cartas, ele a querer sair da água onde nunca deveria ter entrado e as vagas a negarem-lhe o intuito. As pessoas movem-se como a correnteza, anónimas, força bruta que nos empurra para um lado e para outro, que nos esmaga ou nos traz ao de cima, em que praia irão rebentar?
Perguntou a uma senhora pela saída e esta transformou-se num pilar de sal petrificado, mudo, olhar perdido no horizonte, como se tivesse visto algo que não devia. Deu duas voltas à estação, e depois mais duas e regressou sempre ao ponto de partida. Estou sempre a voltar ao mesmo sítio, há anos que ando em circulos. Os comboios partiam e chegavam; mais gente, a corrente cada vez mais forte, a voz fanhosa do homem nos altifalantes fazia-lhe dor de cabeça. O que ele queria era sair dali, tinha pessoas à espera, pensava. Como é que se sabe que estão pessoas à nossa espera?  A estação aumentava e contraía de tamanho, como um coração. Preciso de encontrar uma aurícula urgentemente. Ou será um ventrículo? Estava perdido. Outra vez. A última tinha sido no supermercado.

Mensagens Encriptadas do Coração para as Mãos

| sexta-feira, 20 de agosto de 2010 | 25 comentários |
Abrenúncio não se decidia quanto à posição para escrever: se sentado se de pé. Sentado não conseguia parar de bater o pé enquanto o coração lhe batia na ponta dos dedos; as letras aninhavam-se em palavras cadenciadas com o coração e por isso só escrevia: tum-tum, tum-tum, o que se lhe afigurava um tudo-nada estúpido. Gostava de escrever de pé, como o Pessoa. A verticalidade facilitava o escoamento das ideias da cabeça para as mãos. Também olhava pela janela em busca de inspiração mas do outro lado não havia nenhuma tabacaria; havia sim um prédio, e a seguir, outro prédio e do outro lado, outro prédio. Toda a rua a bem dizer era formada por prédios e as outras ruas também, devia ser por isso que chamavam às ruas todas, cidade. De pé apetecia-lhe fumar enquanto assentava no papel as desventuras de mais um dia. Quando foi buscar um cinzeiro ouviu o Chico a cantar na rádio: por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz. Era bem verdade, e veio-lhe outra vez à cabeça aquele beijo que lhe dera ao canto da boca. Ou teria sido na boca mesmo? Era para ter sido ao canto e calhou em cheio nos lábios ou era para ter sido na boca e resvalou para o princípio da bochecha? Já não sabia. Andava com esta dúvida havia dias e volta e meia lembrava-se disso só para se atormentar. Esta questão geográfica dos beijos tem muito que se lhe diga. Voltou com o cinzeiro mesmo a tempo de se lembrar que já não fumava há pelo menos dois anos. Olha que chatice. É que o fumo quando se enevoa pelo quarto também cria um certo ambiente. Sentou-se outra vez e jogou as mãos à cabeça. Isto hoje não sai nem a ferros. Os dedos que lhe seguravam a testa tamborilavam mensagens em código morse que diziam: tum-tum, tum-tum. Foi isso que escreveu e desta vez pareceu-lhe bem.

O Fiscal

| terça-feira, 17 de agosto de 2010 | 10 comentários |
O fiscal fuça com o fácies da doninha e a curiosidade do abutre. O fiscal gosta de revolver no lixo. No lixo dos outros. Arranca o cascarrão e joga sal na ferida. Ri-se com a desfaçatez da hiena. O fiscal vê a doença onde deixa cair o olhar. Por detrás dos óculos escuros não existem olhos mas buracos negros, poços fundos que sugam a luz e a vida e a morte... Condicionado para só ver a ignomínia é um escravo que palmilha a terra lesionada pelos seus passos, pela busca incessante da podridão. É um servo de deus. Um condenado. O fiscal almoça e janta sozinho os restos da carne putrefacta. O fiscal vive na eterna ilusão de ser temido e respeitado, mas, o que toma por medo, é simples asco e por respeito, apenas desprezo. O fiscal insinua-se na vida como um amigo, mas não pode ter amigos. A amizade não pode ser fiscalizada; vive dessa liberdade que não pode ser escrutinada e que o fiscal não conhece. O fiscal não conhece a liberdade nem gosta dela. O fiscal tem uma única satisfação: a promessa de vida eterna. A vida do fiscal não pertence a este mundo. Este mundo não o enaltece.

Pedro e o Lobo

| | 9 comentários |
Pedro era uma criança irrequieta que gostava de correr pela rua e de atirar pedras aos cães e de rebolar-se pela lama. Às vezes chegava a casa com feridas nas pernas e nos braços. Não gostava da escola nem dos professores nem dos trabalhos de casa. Se era trabalho não era para casa. Era assim que a sua cabeça funcionava, através duma lógica que parecia escapar à razão das pessoas grandes. Um dia, como não lhe dessem atenção suficiente, pôs-se a gritar lobo: desvairado, inconsequente. Os pais, que dele só esperavam que fosse um génio, não gostaram mesmo nada do sucedido e atestaram-lhe com o medicamento mágico que se dá às crianças quando estas sofrem da falta de paciência dos pais. Pedro aterrou como se esperava: amorfo e desinteressado. Estava assim, a ver televisão, quando um lobo (o tal) se acercou por detrás dele, e cheio de falinhas mansas comeu-o. Desta vez não gritou nem pediu ajuda. Não valia a pena. A genialidade não era certa. Os pais sentiram um pouco a sua falta até que nasceram as gémeas. Depois, a memória dele cristalizou-se no tempo e no espaço, presa num limbo branco, sempre com a mesma idade, a mesma hipótese de futuro, o mesmo sorriso na porta do frigorífico.

No Canal

| segunda-feira, 16 de agosto de 2010 | 6 comentários |
O barco deu em seco, apinhado de gente, a meio do canal. Uma multidão sacudida atemoriza-se. Romualdo conta-se entre estes mas não tem medo, a situação já não é original. A cidade ao longe cabe na palma duma mão, com os seus contornos amarelados e construções difusas; consegue-se tocá-la com a ponta de um dedo. Romualdo sabe que a nado facilmente chegaria ao cais, mas falta-lhe a coragem e é proibido. Falta-lhe a coragem para quebrar a lei. A lei é nova. Os corpos encharcados à soalheira roçam-se inquietos, insinuam-se, forçam-se nas narinas. O povo reclama alto e a algazarra navega em todos os canais auditivos. Somos um atentado aos sentidos. Em todos os sentidos. Somos verdadeiros, daquela verdade verdadeira que é feia e disforme e que incomoda o olhar como só a verdade o consegue fazer. A boniteza é falsa e de plástico, hermeticamente fechada, numa redoma algures, também ela de plástico. Os nossos túmulos têm a forma duma vida, moldados na pequenez e resignação. Romualdo balança-se na amurada com ganas de se atirar, mas não pode. É proibido. Proibiram-nos de nadar no canal.

O Eterno Regresso Adiado

| quarta-feira, 4 de agosto de 2010 | 13 comentários |
Temos que dar espaço às coisas de que gostamos. Tempo, para que as saudades possam germinar. O afecto constante pelo objecto amado provoca atrito nas emoções. As emoções movem-se como os pássaros; geram anticorpos, despertam o enjoo. O homem enjoado já não quer voltar ao mar: fica almareado em terra.
Matar saudades é gostar outra vez do princípio; apaixonarmo-nos uma e outra vez e sempre, como o movimento elíptico dos planetas ou a rota fiel dos cometas.
As estações sucedem-se: o outono – o inverno – a primavera. Voltar à praia no verão é um acto de amor que se repete sempre pela primeira vez. Olhar para ti, também.

Diário de Abrenúncio
04/08/2010

O Cidadão

| segunda-feira, 2 de agosto de 2010 | 23 comentários |
A grande aventura começou quando o homem se sentou. Tudo é possível quando um homem se senta, é todo um rol de possibilidades que se revela. «Somos um povo aventureiro e aguerrido...» é o locutor que o diz, o documentário começou agora: «...somos uma sociedade progressiva, reivindicadora dos direitos do ser humano, o mundo reconhece-nos o trabalho, reconhece-nos a aventura, as descobertas, o brio.» Foi quanto bastou ao homem para se sentir galvanizado. As palavras soaram-lhe como um toque a rebate, um despertar para a vida. Ele era um deles, fazia parte daquele povo valente, imortal, orgulhoso. Era a hora. Ele que sempre chorara quando o hino tocava antes dos jogos de futebol, sentia-se agora mais do que nunca, um cidadão. Era o mestre do seu cadeirão ao comando do seu comando; era o rei da sala, o treinador de sofá, o revolucionário de chinelos; campeão de pugilismo doméstico, com a unha mais comprida do mundo coçava a maior micose do universo.
«Agora é que vai ser!!!» gritou irritado contra a placidez dos móveis.

Intervalo.

Os gases nobres do plasma exortaram-no a uma outra vitória «compra, compra, compra...» em explosões de cores e compassos binários. «Hei-de comprar» vociferava o homem contra a pasmaceira da estante dos livros. «Hei-de comprar» tornara-se no novo hino. Ao mesmo tempo que abocanhava um pedaço de frango frito todo ele viajava boçal pela curvatura da cupidez. Abria muito os olhos quando mastigava, como se quisesse comer o mundo. Sorveu o balde de gasosa borbulhenta e lançou um arroto castanho que cheirava a amarelo. Convenceu-se que era um homem feliz, o mais feliz de todos. É para isso que servem as convenções sociais: para fingirmos que somos felizes.
Um pequeno aglomerado de banha, recheada de carne podre injectada de alegorias oleosas acelerou pela auto-estrada femoral até atingir o túnel de acesso à grande válvula. O trânsito a principio ficou só congestionado mas depois toda a circulação cessou por completo.
Foi uma longa viagem, a do homem. No fim, encontrou-se a si próprio: uma vez e outra e outra ainda. São duas as coisas às quais não se pode fugir: o destino e a comichão no escroto.

Para a Fábrica das Letras - Uma Longa Viagem