A Prenda

| quinta-feira, 16 de dezembro de 2010 | |
Estrupício soube logo que a vida lhe ia correr mal quando em miúdo, na manhã de natal, descobriu no sapatinho uma bola de futebol em vez do lança-chamas que tinha pedido. Um rancor profundo que o acompanharia para o resto da vida nasceu ali, numa fria manhã de inverno, sentado no chão junto à árvore de natal.
São coisas que não se fazem a uma criança, um desapontamento destes. Cerrou os punhos franziu os sobrolhos e foi para o quarto, não sem antes lançar um olhar de profundo ódio aos pais que, sentiram o sangue gelar como se acabassem de ser violados por um icebergue. Poucos dias após o incidente, já o natal se esvaía em sais de frutos, quando a mãe do pequeno Estrupício encontrou o gato Nicolau congelado na arca frigorífica. Seria o primeiro de diversos animais de estimação que morreriam em condições misteriosas. Os anos passavam e o lança-chamas continuava sem se produzir. O natal em casa do pequeno Estrupício deixou de se celebrar e começou a ser visto como um tormento, algo que quanto mais depressa passasse melhor; como quando arrancamos um dente.
Os pais do pequeno Estrupício acabaram por se divorciar e foi uma batalha dura nos tribunais por causa da custódia do miúdo: ninguém queria ficar com ele. Estrupício foi enviado para a adopção.
A família que acolheu o pequeno Estrupício era do melhor e mais gentil que se podia encontrar numa família respeitadora e cristã, e talvez por isso estranharam, mais do que o desaparecimento do cão, a mutilação indiscriminada dos ícones religiosos que ostentavam por toda a casa.
Apesar de tudo educaram Estrupício o melhor que sabiam, na bondade e compaixão, dentro das suas limitações católicas. E, mesmo sem o saberem, conseguiram desvanecer a antiga obsessão de Estrupício pelo lança-chamas.
Hoje Estrupício é um jovem normal, bem educado, bem apessoado, brincalhão e gentil. Quando lhe falam no natal, assunto que ele desgosta mas que não consegue evitar, uma prenda apenas lhe vem à ideia: serra-eléctrica! O olhar gela-se-lhe por uma fracção de segundo mas depois sorri com os dentes todos, e é isso que encanta as pessoas.

10 comentários:

pink poison Says:
16 de dezembro de 2010 às 20:52

Hummmmmm
Não gosto do termo "normal"...
O estrupíco só se cura quando tiver o que sempre quis...

Johnny Says:
16 de dezembro de 2010 às 20:59

Que imagem tão bonita: "violados por um icebergue" :)

El Matador Says:
16 de dezembro de 2010 às 21:24

@Pink Poison: Suspeito que sim.

@Johnny: É enternecedor não é? :)

luisa Says:
16 de dezembro de 2010 às 23:48

Sorte terá um dia Estrupício Júnior. Já se sabe, os pais tentam sempre realizar os seus sonhos através dos filhos.

desejo Says:
17 de dezembro de 2010 às 00:03

Muitos Estrupícios se encontram, por causa pequena e tão fácil de solucionar.
Excelente post.
Põe-me a pensar...

El Matador Says:
17 de dezembro de 2010 às 08:32

@Luísa: Os sonhos dos filhos é que já serão outros.

@Desejo: É o que não falta por aí, são estrupícios, :)

Tulipa Says:
22 de dezembro de 2010 às 13:02

Eu acho que a criança foi condenada à nascença, quando lhe deram o nome :)
De qualquer forma, é bom aprender a frustrar desde pequenino, ainda bem que os pais não lhe deram o lança-chamas:)
Boas festas matador!

El Matador Says:
23 de dezembro de 2010 às 10:48

Boas festas Tulipa

Pierrot le Fou Says:
23 de dezembro de 2010 às 12:03

Ah ah ah

Abraço e... melhoras para o Estrupício

El Matador Says:
23 de dezembro de 2010 às 12:11

Ehehe obrigado Pierrot, abraço para ti.