Toca O Sino

| sábado, 25 de dezembro de 2010 | |
O último jingle que ouviu antes de se apagar foi o de uma instituição bancária. Jingle bells, jingle bells, já há não há papéls, murmurou baixinho e deixou-se ir. Não há pior quadra que o natal quando se está sozinho. O aspecto desertificado que as ruas tomam na véspera a contrastar com a azáfama dos dias anteriores é irritante para quem não embarca na loucura consumista da época da “paz”. Mas qual paz? pensou Labregoísio; se pudessem comiam-se uns aos outros, e não era só no natal. O sorriso imbecil e estupidificado dos donos das lojas, que olham para os clientes como se fossem patos a depenar; a repetição constante do mantra das boas festas, no café, no quiosque, na repartição de finanças, era algo com que Labregoísio não conseguia compactuar; toda aquela hipocrisia, a bondadezinha lamecha, a felicidade plástica dos outros, arrrghhh...
Celebramos em Dezembro o nascimento de um Deus que matamos por alturas de Março. Fartamo-nos depressa, e é por isso que pelo meio há o futebol. Daqui a dois dias começa a guerra de novo: o mundo cão que nos domina todo o ano. À pessoa a quem arreganhámos a fronha e desejámos um santo natal, mostramos agora as garras, como quem diz: se te aproximas muito corto-te o pescoço. O natal traz ao de cima o que de melhor há em nós: gastar dinheiro que não temos e enfardar comida como se não houvesse amanhã.
Como tal, e por ser natal, Labregoísio auto-ofertou-se com uma garrafa de single malt. Não esperou pela noite para a abrir, não, que álcool desta categoria bebe-se a qualquer hora do dia. Brindou a si próprio e emborcou numa sessão que terminou, como sempre, com ele a desfalecer no sofá, em frente da televisão, sem saber muito bem se estava triste ou contente, se era dia ou noite. Jingle bells, jingle bells, invista num PPR, dizia a televisão quando Labregoísio apagou.
Acordou estremunhado com duas ideias fixas coladas ao pensamento. A primeira: ir à casa de banho mijar. A segunda: Caçar. Caçar? E era época para isso ao menos? Não sabia. O que é que se caça em Dezembro, perguntou-se a si próprio enquanto desalugava o whisky que tinha bebido durante a tarde: Renas! Ho Ho Ho, riu-se alto enquanto os vapores do malte lhe saíam pelo nariz confirmando que o álcool ainda estava activo no organismo. Foi à despensa buscar a sua ligeirinha semi-automática com mira telescópica, pôs as munições no camuflado que entretanto vestira e saiu resoluto; Hoje é um bom dia para morrer! Disse em voz alta. A sentença era dos índios americanos, que têm tanto direito a participar nas festividades como o velho finlandês. O que é preciso é seguir as setas.
Subiu à torre do sino da igreja da Sé, que ainda estava danificada desde o terramoto, acocorou-se e esperou pela meia-noite. A pouco e pouco iam chegando as famílias para a missa do galo. Nas suas melhores farpelas desfilavam pelo largo como numa passagem de modelos. Reinava um silêncio sepulcral, como se de um enterro se tratatsse e não a celebração de um nascimento.
À meia-noite em ponto o sino anunciou o novo dia: BELLS, BELLS, BELLS, BELLS. Um zumbido estonteante percorreu a cabeça de Labregoísio acentuando-lhe a embriaguez: Prontes, já nasceu o menino...E nisto desatou aos tiros, de cima para baixo, indiscriminadamente: jingle bells cabrões, jingle bells - berrou furioso. A multidão aos gritos corria descontrolada de um lado para outro em pânico. Finalmente temos animação digna de um rei - pensou Labregoísio. Os que caíam abatidos tingiam a calçada de vermelho. Era o vermelho do manto papal; o vermelho da capa dos legionários romanos; um vermelho vivo, muito parecido ao da farda do pai natal, que por sua vez assemelhava-se ao rótulo da gasosa americana. Era o vermelho do capote dos matadores. Eh lá! - exclamou Labregoísio – Que grande tourada que p'raqui vai.

9 comentários:

desejo Says:
26 de dezembro de 2010 às 00:01

Rm dia de Natal, depois de muita comida, muito consumismo, agora na cala na calma do lar, acabo de ler um texto que dignifica a realdidade deste mundo cão em que vivemos.
Labregoíso é o homem mais sensato à face da terra.
E desejo à mesma um Feliz Natal.

pink poison Says:
26 de dezembro de 2010 às 02:38

Ofereci uma prenda e foi em forma de agradecimento... Desejei boas festas a quem tratei bem todo o ano e caguei para o nascimento seja de quem for que morre em Março... O que eu queria era um país, economicamente estável... Pessoas menos cínicas e amor, amor ao próximo, amor a nós, enfim... As merdinhas que não custam dinheiro mas que ninguém as assume ter.

Tulipa Says:
26 de dezembro de 2010 às 12:24

Já acabou o natal, pronto já passou! Cada um de nós mata a época à sua maneira, e o Labregoísio tem uma semi-automática ;), o que vale, como dizes, é que esquecemos depressa, senão haveria por aí mais Labregoísios, certamente. kisses

luisa Says:
26 de dezembro de 2010 às 18:49

Labregoísio is dreaming of a "red" Christmas...

El Matador Says:
26 de dezembro de 2010 às 18:59

Concordo com tudo o que comentaram, :) tenho andado tão labrego que nem me apetece dizer mais nada, continuação de boas festas..

desejo Says:
26 de dezembro de 2010 às 20:14

Tens andado labrego, mas sinto que todos andamos. Talvez por que não vemos uma luz que nos dê uma visão do que gostaríamos de ver...

Abraço

El Matador Says:
26 de dezembro de 2010 às 22:53

@M: peço desculpa mas apaguei o teu comentário sem querer.

obrigado pela visita.

M Says:
29 de dezembro de 2010 às 22:58

I will be back :)

El Matador Says:
29 de dezembro de 2010 às 23:00

eheh