A Anedota

| segunda-feira, 5 de julho de 2010 | |
E disparou. O projéctil saiu à velocidade de um quilómetro por segundo, pelo que Bonifácio já não ouviu o estampido da arma quando a bala, rodopiando frenética, fez a sua entrada pelo osso frontal e rasgou indiscriminadamente a massa cinzenta, zigzagueando pelos lobos conforme estes apresentassem mais ou menos resistência à sua fúria devastadora. Deu por fim com o parietal, o lobo e o osso, e como quem abre uma janela para o mundo, saiu em triunfo e foi alojar-se calma e secamente na parede de tijolos.
«Uma piada? Uma anedota? Bem...» Os óculos de Bonifácio tremiam-lhe no nariz, acusavam o nervosismo perante o desespero da situação. Um passo em falso e já era. «Bom...» continuou ele «Não é bem uma anedota, é mais ou menos uma adivinha...Pode-se considerar uma anedota, há quem conte como anedota...». Gaguejava, suava em bica, queria chorar mas não conseguia; engolia em seco. Agora sabia como se sentia Dâmocles em relação à espada. «Então cá vai,...Era uma vez...Era uma vez não, que isto é uma espécie de adivinha,...Então é assim: Como é que se apanha um coelho?...Escondemo-nos atrás de uma árvore e imitamos o grito de uma cenoura...». O homem em frente de Bonifácio, que era a sua única audiência, não riu, não sorriu, não tremeu, não pestanejou sequer. Puxou a culatra da arma atrás...
Mas o que ele gostava era do jogo, da perseguição, do toca e foge, da caça a bem dizer. O trabalho em si era rápido; um segundo e já está: missão cumprida. Por isso decidiu acrescentar-lhe um toque pessoal, algo que o distinguisse dos outros, algo magnânimo: uma segunda oportunidade. E como Bonifácio não era excepção, tratou de lhe explicar:
-Ainda tens hipótese de te salvar. No entanto tens uma e só uma tentativa para o fazer. Não é nada de complicado apenas tens que me fazer rir. Se me fizeres rir, juro pela minha honra que te deixo ir com vida. Agora começa. Sugiro que contes uma piada, uma anedota.
Otto Klism, o profissional, carregou a arma minuciosamente limpa, encaixou-a no coldre que trazia por debaixo do braço e saiu. Mais um dia de trabalho. Estavam cada vez mais escassos, era a crise. De vez em quando lá aparecia uma mulher enganada que queria ver o marido morto. Era um desses trabalhos que tinha agora entre mãos. Dirigiu-se para o sítio onde deveria encontrar o alvo: uma esquina ventosa em frente de uma loja de lingerie. As informações estavam correctas; o homem já lá estava. Chamava-se Bonifácio e ia morrer.

Para a Fábrica de Letras - Disparou

24 comentários:

. Says:
6 de julho de 2010 às 09:10

Gosto de tuas narrativas, sempre interessantes, instigantes e inteligentes! =]

Também percebi um link entre este texto e "O Consolo", foi a partir dele que surgiu a idéia?

No mais, acho que este mês não irei participar do desafio da Fábrica, pois minha criatividade anda a zero... Sem inspiração...

Beijo,
Ane

Vera, a Loira Says:
6 de julho de 2010 às 11:14

O final foi chocante.

marta Says:
6 de julho de 2010 às 15:58

Coitado do profissional! Profissão ingrata, nome mais ingrato ainda...

luisa Says:
6 de julho de 2010 às 16:44

Humor negro....pobre Bonifácio!

El Matador Says:
6 de julho de 2010 às 18:37

@Ane: Não foi a partir d'"O Consolo" que surgiu a ideia mas os personagens aqui aparecem em vários posts daí parecer que estão ligados.

O mês ainda está no princípio Ane, ainda há muito tempo, a inspiração acabará por chegar.


@Vera, a Loira: O final da história que é o principio do post, ou o final do post que é o principio da história?

@Marta: A profissão é ingrata, o nome é adequado.

@Luísa: O Bonifácio é um castigado.

MZ Says:
7 de julho de 2010 às 01:29

Para além de ir pesquisar sobre o Dâmocles, ri-me à brava com o nome do pistoleiro do séc. XXI...
É que "Otto Klism" é um nome fantástico para fazer essas "limpezas"... inspiraste-te no WC?
Sem ofensa El Matador,
é que eu não resisti em fazer a ligação ao autoclismo da sanitas :)

bjs

El Matador Says:
7 de julho de 2010 às 08:38

MZ, fizeste bem a ligação, o nome dele está ligado à limpeza. Também ele na sua profissão tem que "descarregar" a arma.

Joaninha Says:
7 de julho de 2010 às 09:49

O Otto não riu com a piada da cenoura?! Desculpa esse tipo era mesmo alemão, sem qualquer sentido de humor.

Adorei, como sempre...

beijos

Peanut Says:
7 de julho de 2010 às 10:45

Gosto muito deste teu texto. Adoro histórias que "começam no fim". E adoro os nomes das tuas personagens -não só deste texto, mas de todos.

El Matador Says:
7 de julho de 2010 às 14:43

@Joaninha: O humor alemão é diferente do nosso.


@Peanut:E esta história era para ter começado e acabado no fim, mas depois lá se desenvolveu até ao princípio.

Tulipa Negra Says:
7 de julho de 2010 às 16:34

Como é que alguém que, nitidamente, não tem sentido de humor espera que o façam rir? Por isso é tão bom profissional, não deve haver muitas vítimas a conseguirem salvar-se...

Joaninha Says:
7 de julho de 2010 às 16:48

"@Joaninha: O humor alemão é diferente do nosso."

é, é diferente na medida em que não existe :)

Todos os alemães que conheço que tem sentido de humor tem sangue Português à mistura...hehehe...

beijos

El Matador Says:
7 de julho de 2010 às 18:50

@Tulipa Negra: Faz lembrar os críticos de televisão.


@Joaninha:esses alemães com sangue português riem-se só com metade da boca.

Mary Jo Says:
8 de julho de 2010 às 00:55

O mercenário era mesmo bom...
A esquina era ventosa o que poderia ter sido um ponto a favor do Bonifácio...

:)

El Matador Says:
8 de julho de 2010 às 08:22

À queima roupa ninguém falha,:)

blue Says:
8 de julho de 2010 às 13:42

:)
Estou a ver que a Fábrica de Letras, para além da brilhante iniciativa, permite-nos conhecer blogues que valem a pena ler.

El Matador Says:
8 de julho de 2010 às 14:25

Obrigado, pela parte que me toca.

blue Says:
8 de julho de 2010 às 14:43

E de facto, neste caso, referia-me ao teu :)

Adorei o texto e já reparei que tenho muito para ler.

El Matador Says:
8 de julho de 2010 às 15:25

És sempre bem-vinda, Blue.

Tulipa Says:
11 de julho de 2010 às 13:49

Muito bom, como sempre! Adoro os pormenores. kiss

El Matador Says:
11 de julho de 2010 às 13:55

Obrigado Tulipa. O diabo está nos pormenores.

meldevespas Says:
22 de julho de 2010 às 17:07

Para o Otto, a vida é realmente uma merda...a limpar.
Gostei, como sempre, da forma como "montas" as tuas estórias.

El Matador Says:
22 de julho de 2010 às 18:51

Obrigado Mel, efectivamente para o Otto é tudo uma questão de limpeza, ehehe.

Lala Says:
9 de setembro de 2010 às 22:18

inevitavelmente ele teria que morrer... desde o princípio.
Excelente, El... excelente!