O Rolo de Papel

| quarta-feira, 30 de junho de 2010 | |
A vozinha vuvuzelante da senhora ainda lhe ecoava na cabeça quando Abrenúncio se barricou na casa de banho. Deus salve as casas de banho: último refúgio do mundo antropófago que são as repartições públicas.
Tudo o que Abrenúncio precisava era de uma simples certidão, um atestado vá lá, uma coisa simples; um entrar na repartição, assinar o nome duas ou três vezes e sair à sua vida mundana. O que sucede é que as coisas não são assim tão simples «o que é que o senhor pensa?». Há todo um conjunto de minudências, hierarquias e protocolos que é preciso respeitar, é tudo muito «complicado». Depois de atravessarmos a barreira quase intransponível de seguranças - garbosos guardiões do templo burocrático – Há a inefável senha com um número que nunca bate certo com o do respectivo visor. Mais tarde, muito mais tarde, conseguimos então ter acesso ao sagrado recinto das deusas dos impressos em tripicado. A primeira frase que a senhora pronunciou, antes mesmo do bom dia ou de se apresentar foi «É complicado!». E como Abrenúncio fez uma cara de quem não percebeu nada, complementou logo com um «não tenho feedback». A partir daqui as coisas complicaram-se mesmo e agora ali estava Abrenúncio, entrincheirado no WC.
Sentou-se na retrete e acendeu um cigarro. Apreciou os círculos de fumo que se lhe escapavam da boca enquanto lá fora os seguranças encetavam um festival de stress que era de todo desnecessário. Que iam arrombar a porta, que iam chamar a polícia, o exército e sei lá mais o quê. Ora Abrenúncio, que só queria era sossego tentou demovê-los:
- Não façam isso – advertiu – Estou armado.
Foi pior a ementa que o cimento. A única arma que Abrenúncio possuía era uma real dor de barriga que, talvez por causa do cigarro, talvez por causa dos nervos, talvez pelos dois, chegara de súbito e em força.
As tropas especiais mais depressa chegaram e logo montaram o circo habitual de perímetros recuados e snipers em cima dos prédios e muita gente a correr de um lado para o outro.
Abrenúncio urrava de dor, as entranhas revoltas pareciam querer explodir a cada espasmo. Cá fora, os policiais, também eles nervosos, ouviam toda aquela gritaria com apreensão.
- Tem alguma exigência? - Perguntou o negociador através de um megafone, afim de evitar baixas de parte a parte.
Abrenúncio, que naquela altura poderia ter resolvido todos os seus empecilhos burocráticos, gritou com urgência: «TRAGAM MAIS PAPEL!!!»

6 comentários:

luisa Says:
30 de junho de 2010 às 23:12

Como diziam os "gatos": o papel. qual papel? o papel. qual papel? o papel.....

El Matador Says:
30 de junho de 2010 às 23:14

Exactamente: o papel.

Tulipa Says:
1 de julho de 2010 às 17:57

heheheh! Pois! Realmente um dia vamo-nos afogar em papel.
É complicado e triste também...e deviam melhorar a qualidade das casas de banho públicas.

El Matador Says:
1 de julho de 2010 às 19:21

Também acho. Um indivíduo de vez em quando vê-se num aperto e as casas de banho públicas não são nada convidativas.

Lala Says:
9 de setembro de 2010 às 22:23

mais papel... em triplicado!

Lala Says:
9 de setembro de 2010 às 22:24

mais papel... em triplicado. cada um fica depois com a sua cópia.