O Puto, O Puto

| sábado, 10 de julho de 2010 | |
A caminho da mercearia, Abrenúncio sentiu que alguém o perseguia. Paranóia? Talvez. No entanto estugou o passo como quem não quer a coisa para se certificar que não era nada com ele. Os passos atrás dos seus aligeiraram-se também e agora começavam a ganhar terreno. Já sentia o arfar do seu perseguidor junto de si quando tomou uma atitude: defender-se com tudo o que tinha. Deu uma meia-volta repentina, ao velho estilo ninja, com as chaves de casa numa mão, um chinelo na outra, o pé direito levantado tanto quanto podia (que era muito pouco) gritou: Kiaaaiiiiiiiiii!!!! O efeito surpresa era meio caminho para desequilibrar o adversário. E foi com surpresa que se deparou com um miúdo de dez, onze anos talvez, com um cd do Tony Carreira na mãos. Toda a criança tremia de susto e quando tentou falar apenas gaguejou:
- É..É...Para ajudar... as vítimas do terramoto no Haiti- Abrenúncio, envergonhado olhou em volta e como não havia ninguém a ver, não sentiu necessidade de ser caridoso, muito menos de comprar um cd do Tony Carreira.
- Agora só tenho dinheiro para comprar pão, pá, talvez noutro dia - Mentiu.
O miúdo foi-se embora e Abrenúncio foi comprar cerveja.
Certo dia, voltava Abrenúncio a casa, com um saco de cervejas na mão e eis que o esperava à porta de casa: o miúdo. E desta vez não tinha um ar assustado. Apresentava sim, se é que é possível numa criança tão nova, o semblante de alguém sedento de vingança. Parou a uma distancia razoável, o suficiente para poder fingir que não tinha visto o infante e pôs-se a magicar «Vou fingir que não vi o puto, vou dar uma volta, ele entretanto cansa-se e vai embora». Rodou os pés na sua manobra favorita, a meia-volta, e seguiu na direcção contrária. A criança é que não se fez rogada e arrancou atrás dele, de cd esticado na mão, a gritar «Senhor! Senhor!». Mal deu conta que o miúdo não ia desistir facilmente desatou a correr. E o miúdo atrás dele. Abrenúncio corria com todas as forças que os pulmões de fumador lhe permitiam e mesmo assim não conseguia despistar a criancinha. «Cabrão do puto corre comó caraças» soluçava Abrenúncio enquanto se metia por uma rotunda. O puto não desistia, e, quem circulava de carro não queria acreditar na imagem: um homem de chinelos a correr na rotunda e atrás dele, um jovem aos gritos «Senhor! Senhor!»
À quarta volta, já um pouco almareado, Abrenúncio fez sinal com a mão e saiu da rotunda. Abrandou numa passadeira e por fim estacionou as cervejas junto a um poste. Se lhe tivessem tapado a boca naquele momento teria morrido. O miúdo chegou depois, com ar de quem fazia aquilo todos os dias. Irritado, Abrenúncio resignou-se:
- Ganhaste!!! Quanto é que isso custa?
- Dez euros, senhor, é para ajudar as vítimas do terramoto no Haiti.
Deu uma nota de dez ao miúdo que se afastou-se todo contente com o ar de quem cumpriu uma missão.
Abrenúncio contemplou o seu novo cd e pensou em como iria ficar destoado no meio da colecção de jazz. Ainda estava cansado. Tanta correria para quê? A culpa do terramoto não era dele; do Tony Carreira talvez, mas dele não. Cabrão do puto.

4 comentários:

Tulipa Negra Says:
10 de julho de 2010 às 19:58

A culpa é do Tony Carreira, claro. E o puto é o filho mais novo dele, aquele de quem ninguém sabe o nome. Diz que não canta, mas pelos vistos vende os CD do pai. :)

El Matador Says:
10 de julho de 2010 às 20:01

ehehe

Tulipa Says:
11 de julho de 2010 às 13:51

A lição principal: não se pode fugir do destino :)

El Matador Says:
11 de julho de 2010 às 13:59

E do Tony Carreira também não.