O Exame

| terça-feira, 29 de junho de 2010 | |
Não era o exame em si que o enervava. Era a espera. Aquele compasso em suspenso que se traduzia em toda uma sinfonia de angústia e ansiedade. O adiar do sofrimento. A esperança de não ser chamado. O inevitável. Nunca queremos ouvir o nosso nome, mas quando chamam outro acusamos decepção, ansiedade.
Um homem de bata branca, máscara vermelha e óculos escuros entra circunspecto na sala; percorre a extensa lista com o indicador - «É agora, é agora!» - centenas de cabeças esticam-se nos pescoços com as orelhas em modo de radar:
- Euletério Bagarrão! - Invoca o homem; inexpressivo, monocórdico.
Um Ahhhh! geral solta-se nos pensamentos de cada um, por isso ninguém o ouve. Aumenta a ansiedade. Aumenta sempre que alguém é chamado. «Ainda não foi desta» pensa. Resta-lhe esperar. Um dia há-de ser a sua vez, isso é certo. O universo é matemático. Não pode ficar eternamente à espera, está convencido disso. Sai para a rua e acende um cigarro. O ritmo cardíaco dispara; sente o pulsar na carótida, a vibração sincopada nos tímpanos. Lá dentro, a multidão contrai-se e dilata como se fosse um só organismo vivo; um tumor de resignação arfante.
«Valerá a pena toda esta a espera?» pergunta-se. «O exame? Será uma coisa boa?»

2 comentários:

Tulipa Says:
29 de junho de 2010 às 23:31

Se não há outra opção, o exame é uma coisa boa. O problema é mesmo a espera, não devíamos de ter que esperar para nada, muito menos para o exame. kisses

El Matador Says:
29 de junho de 2010 às 23:38

Espera-se muito neste país. Deve por causa do sebastianismo.