O Desencontro

| terça-feira, 18 de maio de 2010 | |
“...mas sobretudo a cidade
é um som
toca uma música boa
p’ra que eu me esqueça da alma ausente
que se perdeu pelas ruas
que eu não me perca também.”

Fausto Bordalo Dias


Ela olhava para o relógio e batia o pé nervosa. Já era tarde; quase pôr-do-sol e ele nada, atrasado como sempre. Tinham acertado os relógios um pelo outro para nunca se desencontrarem, e agora ali estava ela à hora marcada, à espera, sempre à espera de continuar a sua vida com ele. Acendeu um cigarro com a beata de outro e bateu o pé. Pôs a mão na anca, tirou a mão da anca, soprou, bateu o pé.
Noutra parte da cidade, ele, fumava e bebia cerveja. Ouvia jazz e escrevinhava no bloco de notas. Contava anedotas, pagava rodadas e fumava cigarros que acendia ininterruptamente. Para ele ainda era meio-dia; tinha o tempo todo do mundo, a banda principal ainda não subira ao palco. Acendeu outro cigarro, limpou o suor da testa, escrevinhou no bloco e mandou vir mais uma rodada.
Bateram as oito horas no sino da igreja e ela ainda esperava. Apagou o último cigarro com o salto do sapato como quem esmaga uma barata. Expirou o fumo como quem despeja o lixo, sem olhar para trás. Oito horas! A hora certa de ir para casa e fazer uma vida; com ou sem ele. Foi sem ele.
Chegou ao lugar combinado pouco depois do último encore. Ela já não estava. Sentiu-se sozinho e com frio. Escrevinhou no bloco versos de contrição. Bateram as oito horas no sino da igreja. Apagou o cigarro como quem apaga uma vida. Oito horas! Era de manhã. A hora certa de ir para casa e mudar de vida; com ou sem ela. Foi sem ela.

8 comentários:

johnny Says:
18 de maio de 2010 às 19:46

Muito fixe, muito fixe.

El Matador Says:
18 de maio de 2010 às 19:48

Thanks brother.

luisa Says:
18 de maio de 2010 às 22:23

Eles e elas... sempre com horas e voltas trocadas. Que destino! :)

Tulipa Says:
18 de maio de 2010 às 22:46

É realmente assim quando os tempos de cada um são diferentes.

El Matador Says:
18 de maio de 2010 às 23:42

@Luisa - Oportunidades desperdiçadas.

@Tulipa - E quando não se querem encontrar.

roserouge Says:
19 de maio de 2010 às 17:43

É tudo uma questão de prioridades. Cá pra mim, ela esperou foi demais. "... expeliu o fumo como quem despeja o lixo". Muito bom. Excelente texto.

El Matador Says:
19 de maio de 2010 às 18:10

Eu também me parece que ela esperou demais.

Obrigado Rose.

Anónimo Says:
1 de janeiro de 2013 às 06:34

E convém esperar por coisas reais, claro está. As que não existem podem ser muito mais tentadoras, mas enfim, what's the point?
Nem os ditados populares conseguem chegar a consenso -- esses que sabem tudo sobre tudo.