A Tempestade

| segunda-feira, 17 de maio de 2010 | |
Soara a sirene em Zebulon 5. Era o aviso de que uma tempestade solar se avizinhava. Havia tempo suficiente para os habitantes da colónia acabarem os seus afazeres e se deslocarem-se para casa em segurança, sem pânicos. Anacleto – O Palhaço, arrumou os malabares, as bisnagas de água, os balões coloridos mas manteve o nariz vermelho. Era a sua imagem de marca; sem ele as pessoas não o reconheciam, e, mesmo em tempos de crise e tempestades solares, o marketing era uma mais valia no mercado circense. Apanhou o Subcolon, que era o comboio subterrâneo das colónias que tinha nome de clister. Toda a gente o reconheceu: «Olha! É o palhaço Anacleto» gritaram uns «Ah! Ganda palhaço» sustentaram outros, e mesmo ali exigiram que fizesse um sketch – só para passar o tempo e animar a malta. Como não tinha nada preparado improvisou a velha pantomima do funcionário público, que enfia uma sonda rectal p'lo cu do utente acima, só para lhe avaliar o produto interno bruto. Foi um sucesso como sempre. Toda a gente aplaudiu: «Palhaço Anacleto, és o maior!» gritavam e davam-lhe palmadas fortes nas costas.
Chegou a casa dorido e cansado. O corpo já acusava a idade e a idade já acusava o excesso de palhaçada. Sentou-se no sofá em frente da televisão (há coisas que nunca mudam) sem desfazer as pinturas nem despir o fato de losangos amarelos e vermelhos. Abriu uma garrafa de whisky e deu um longo gole que lhe queimou suave a garganta. Na televisão, todos os canais mostravam as imagens da tempestade solar, que embora destrutiva, não deixava de ser um espectáculo exuberante. Tirou por fim o nariz vermelho quando o biológico já estava da mesma cor. Consultou o correio electrónico: não tinha mensagens novas.

4 comentários:

Tulipa Says:
17 de maio de 2010 às 19:22

Eu gosto de palhaços e do circo em geral. Alimenta-me a ideia de um dia virar nómada… kiss

El Matador Says:
17 de maio de 2010 às 22:02

Eu também.

Joaninha Says:
18 de maio de 2010 às 16:50

"Como não tinha nada preparado improvisou a velha pantomima do funcionário público, que enfia uma sonda rectal p'lo cu do utente acima, só para lhe avaliar o produto interno bruto."

HOje sinto que me fizeram isto...E depois responderam-me...Rejeitado, a candidata não é considerada pessoa carenciada...

Efectivamente não seria se não tivesse de pagar uma universidade privada por não haver em Lisboa e arredores, universidades públicas que lecionem o meu curso...Assim diz-me o estado, paga 252 Euros mês, não bufes e queres bolsa pede ao Papa que nós temos filhos da mãe que nada fazem para sustentar...Eu adoro este pais...Desculpa o desabafo....

beijos

El Matador Says:
18 de maio de 2010 às 17:22

É uma situação que acontece regularmente. Nós é que já nos habituámos a não dizer nada. É meter a bandeirinha na janela e não pensar mais nisso.