A Sequência

| segunda-feira, 24 de maio de 2010 | |
Eram plácidos os domingos que passavam juntos. Iam para a praia e ele estava quase sempre de ressaca. Ela estendia-se ao sol e acendia cigarros enquanto ele sentia os miolos a fritar. O suor secava a meio caminho de lhe escorrer pelo corpo; os homenzinhos que lhe viviam no cérebro rebelavam-se. Atirava-se invariavelmente ao mar frio: gostava do choque nos sentidos, como se apanhasse um soco forte nas ideias. Ela tirava o top e mostrava-lhe as mamas dentro de água. São iguais, dizia ele, a audiência é que é maior. Riam-se e davam mergulhos. Ela queria arrebatá-lo à letargia dos domingos em que sempre o encontrava; levava-o a ver as esculturas na areia. Ele só queria vomitar: o fígado, as entranhas, o mundo. Olha um romano, dizia ele com indiferença embora adorasse os romanos. Parece estar a cagar, dizia ela, e riam-se muito, e as esculturas riam-se com eles.
Ao fim da tarde ele começava a sentir-se melhor. Retornavam. Pronto, dizia ela, já estás em casa. Foi um Plácido Domingo, respondia ele e riam-se. Pelo menos desta vez não te vestiste de mulher, sempre foi diferente – risos.
No covil, ele, deitava-se na cama que não era feita desde uma vida anterior e sorria ao pensar nela. Depois pensava na segunda-feira e vinham de novo os vómitos à garganta. Era o defeito do domingo, assinalava o fim de algo bom e antecedia o começo de algo mau. A vida acontecia entre dois domingos.

8 comentários:

Tulipa Says:
24 de maio de 2010 às 23:48

Que romântico, matador! A vida acontece não entre momentos, mas nos momentos. kiss

El Matador Says:
24 de maio de 2010 às 23:59

Como dizia o Lennon: life is what happens to you when you're busy making other plans.

roserouge Says:
25 de maio de 2010 às 01:54

- Eu só bebo whisky nos grandes momentos - dizia um.
- E quais é que são para ti os grandes momentos? - perguntava outro.
- São os momentos em que bebo whisky - respondia o primeiro.

Prontus. É um bocado por aí, tásaver. Vais ver que ela também lhe cortava as unhas dos pés...

El Matador Says:
25 de maio de 2010 às 08:31

Tal é essa.

Joaninha Says:
26 de maio de 2010 às 13:43

A minha vida está mais ou menos assim...

Beijos

El Matador Says:
26 de maio de 2010 às 14:14

Eh lá. E isso é bom ou mau?

Lala Says:
5 de junho de 2010 às 18:42

Nada mais importante que saber aproveitar os bons momentos. os momentos que ficam entre dois bons momentos não passam de tempo perdido.
Carpe Diem, já dizia o outro!

El Matador Says:
6 de junho de 2010 às 05:54

Hoje vi um documentário que dizia que Deus era o espaço que havia entre um e o outro.