O Descanso

| quinta-feira, 22 de abril de 2010 | |


O homem-aranha precisava urgentemente de dormir. É um dado adquirido, um super-herói precisa do seu descanso. Os camionistas são obrigados a descansar de tantos em tantos quilómetros; aos heróis exige-se exactamente contrário – o que é perigoso. Dependurado na sua teia, olhava absorto a rua 14 e os seus vendedores de electrodomésticos. Entre o trabalho de dia e a vigilância nocturna, pouco tempo sobejava para um repouso digno desse nome. O pior era a ingratidão dos nova-iorquinos que à mínima falha, ao mínimo deslize, exigiam o seu escalpe. Como fazer uma vida assim? Os biscates para o jornal nem sempre compensavam e o pagamento muitas vezes era tardio. Como herói protector inquestionável da grande maçã, actividade que lhe ocupava a maior parte do tempo, nem sequer tinha ordenado. O super-homem, que só dava barraca, era considerado um herói a sério, e ele que se matava com trabalho, tinha que contar os cêntimos para beber um café. «Deve haver qualquer coisa num homem de capa ao pescoço e cuecas por cima das calças que seduz as pessoas» resmungava o aranhiço «Ou então é por ser extra-terrestre, as pessoas babam-se sempre com os ETs».
Pensava nisto o homem-aranha e a cabeça pendia-lhe involuntariamente para frente; os olhos ardiam de tanto esforço para se manterem abertos e o seu sentido aranha, aquele que o alertava de todos os perigos, enviava-lhe sinais dúbios e enganadores. E para completar: um pombo caga-lhe em cima e esvoaça feito parvo, como só os pombos sabem; jurou ter visto um um sorriso trocista na cara do estúpido animal. «Isto já é demais!» indignou-se. Num repente, lança-se em queda livre e desata a mandar teias a torto e a direito contra os prédios, saltando de umas para as outras num bailado acrobático que impressiona sempre quem o vê. Atravessa ligeiro a Times Square e os seus leds multicolores, recupera o fôlego junto ao Central Park e continua para norte em direcção ao Bronx – ia dormir finalmente – o seu destino: o apartamento 13A - a sua casa, a sua pátria, o seu último refúgio.

9 comentários:

Abrenuncio Says:
23 de abril de 2010 às 11:49

Captaste bem o drama existencial do Homem-Aranha, esqueceste de mencionar que ele têm uma tia idosa a seu cargo.

Romualdo Alizando Cresce Says:
23 de abril de 2010 às 11:51

Hummm, não gostei. Falta-lhe qualquer coisa.

El Matador Says:
23 de abril de 2010 às 11:55

@Abrenúncio: É verdade, foi uma falha grave dado o contexto do post.

@Romualdo: Uns dias são da caça outros do caçador :)

Tulipa Says:
23 de abril de 2010 às 12:56

heheh Não sei se gostei mais do texto ou dos comentários ;) kisses

luisa Says:
23 de abril de 2010 às 13:41

Afinal até o Homem-Aranha está sujeito aos azares de qualquer mortal sem super poderes e pode ser apanhado na curva por uma caganita qualquer... :)

El Matador Says:
23 de abril de 2010 às 14:17

@Tulipa: :):):)


@Luísa: Pois é, os super-poderes não pagam a renda.

Lala Says:
23 de abril de 2010 às 21:25

1. Par ti, El Matador: Notei uma certa rivalidade com o homem das cuecas por cima das calças... ou inveja... será? :)

2. Se me permites vou responder ao Abrenúncio: E a 'segurança social'? não lhe dá um subsídio por ter um ascendente a seu cargo? Olha que deve dar...

3. ...se me permites, também vou responder ao Romualdo: Desculpa lá, mas tu também nunca estás satisfeito!! Sorri homem!! :D
**
Mais uma vez, genial... incluindo os comentários!!

Beijinho**

El Matador Says:
23 de abril de 2010 às 22:07

1. :) A única inveja que eu tenho do super-homem é que, quando ele põe os óculos já ninguém o conhece, também gostava de ser assim.

2. Bem lembrado essa do subsídio.

3. É um descontente permanente.

Lala Says:
24 de abril de 2010 às 00:27

1. Ah os óculos... eu logo vi que havia aí qualquer coisa!! :))))
2. Pois. Choram-se, choram-se, mas depois recebem de todos os lados.. Ah poizé!
3. Xiça!

Beijinho** aos três!!