It

| terça-feira, 20 de abril de 2010 | |
«Esse corpo que te carrega a alma, vai contigo para todo o lado!», dissera ela ao despedir-se dele no aeroporto. Era verdade, ela tinha razão, como sempre. Foi pelo corpo que se separaram e foi pelo corpo que nunca mais estiveram juntos, fisicamente, como um homem está com uma mulher. Ele sofria do síndrome de Quasimodo: que é quando as pessoas não conseguem olhar directamente para alguém que está mesmo à sua frente.
A sua presença incomodava, como se estivesse um réptil dentro da sala. Metia medo a alguns, nauseava outros e era raro quem não desviasse o olhar. Era fácil encontrá-lo numa multidão pois era aquele que tinha sempre uma clareira à sua volta. Por isso viajar não resolvia nada, como ela tão bem asseverara. Viajar era chegar a um sítio completamente diferente e constatar que a cara de nojo das pessoas era a mesma. Ela tinha razão.
Também a ela lhe custava fixar o olhar naquela massa disforme durante muito tempo. Antes de ele ser atacado pelo mal, costumavam ser amantes e andavam sempre juntos. Ela sentia-se orgulhosa de si mesma por o ter conseguido para si e gostava de usá-lo para fazer inveja às outras mulheres. Mas depois surgiu aquele inconveniente e, já se sabe, ninguém gosta de ter uma coisa daquelas parada à porta de casa, quanto mais viver com uma. No entanto, era a única pessoa que o visitava, nunca faltava a um encontro. Estava apaixonada pela sua alma.
«Um dia ainda havemos de estar juntos outra vez», pensava ele insistentemente, enquanto ela ia à casa-de-banho vomitar.

9 comentários:

Lala Says:
21 de abril de 2010 às 00:03

somos tão rápidos e cruéis quando toca a 'olhar os outros de lado'.
mesmo que não o queiramos... é quase intrínseco...
coitado do 'coisa'.
Excelente... claro (tenho que arranjar um dicionário de sinónimos para começar a escrever aqui palavras diferentes de excelente...)

Baci**

Teresa Says:
21 de abril de 2010 às 00:42

Este Quasimodo parece outro que eu conheço, esperemos que ele e a sua cigana não tenham uma história tão trágica.

Parabéns, mataste-me!

Beijinhos

El Matador Says:
21 de abril de 2010 às 09:30

@Lala: Somos bons a excluir.


@Teresa: Esperemos que não. Não era minha intenção matar-te, assim de repente.

Tulipa Says:
21 de abril de 2010 às 10:59

Causaste-me de verdade um sentimento muito mau com este texto...então, fixei-me no primeiro parágrafo «Esse corpo que te carrega a alma, vai contigo para todo o lado!», é bom que o aceites e que te sintas bem na tua pele, porque não dá mesmo para viver agarrado a coisas que não se vêem... kisses

El Matador Says:
21 de abril de 2010 às 14:10

Eu por mim, estou bem.

Joaninha Says:
21 de abril de 2010 às 14:10

"Estava apaixonada pela sua alma."

Sei o que isso é...

beijos

El Matador Says:
21 de abril de 2010 às 14:18

Pois.

roserouge Says:
21 de abril de 2010 às 18:25

Brutal, este texto.
Mas uma coisa só não chega, têm que vir as duas em conjunto. Como num todo. Como diz o velho ditado: uma mão lava a outra e as duas lavam a cara.

El Matador Says:
21 de abril de 2010 às 18:40

You can't always get what you want.