O Homem Novo

| domingo, 18 de outubro de 2009 | |
O senhor Laurentino era uma pessoa mudada. Para aqueles que são apologistas da ideia que um indivíduo não consegue mudar, nas suas filosofias e atitudes, o senhor Laurentino era um exemplo. Até no aspecto ele mudara, mas tal devia-se principalmente à idade. Os tempos de serial killer tinham ficado para trás e agora tornara-se num exemplar membro da sociedade que tanto aterrorizara. Os gestos pachorrentos, a paciência e bonomia que dedicava a todos os assuntos, a enorme afabilidade e candura com que ouvia os outros faziam dele um cidadão modelo; que o dissessem o seus vizinhos. Ao domingo ajudava na igreja a recolher os donativos e ficava sempre até mais tarde de conversa com o prior. Este não poucas vezes era convidado para almoçar com o senhor Laurentino no recato do seu lar. Nas palavras do padre ele era um pilar, um temente a Deus como nenhum outro.
Nos momentos que passava sozinho, o senhor Laurentino gostava de reflectir sobre o seu caminho, balancear a sua vida, pesar os prós e os contras. Não estava arrependido de nada, isso não, para isso era preciso ser portador de uma moral que a ele claramente faltava. Continuava a desprezar a sociedade e todos os seus mesquinhos participantes? Sim, embora agora encontrasse um novo prazer na sua relação com tais criaturas. Agora era-lhe indiferente. Até sentia às vezes um prazer dúbio na sua interacção com as chamadas pessoas normais. Gostava deste novo olhar, de alegria, com que o fitavam, muito oposto ao de histeria e desespero que punham sempre que o viam de cutelo na mão. Agora vibrava de excitação sempre que interagia com alguém, por saber que a poderia aniquilar a qualquer momento sem o fazer no entanto. Gostava da sensação de saber que as suas palavras tinham significado para alguém e que eram até esperadas como gotas de sabedoria. O respeito batia-lhe como uma nova droga, e ele sentia-se agarrado. Era um homem novo e redimido. O próximo passo: enveredar pela vida política.

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