III- trilogia lapidar

| domingo, 18 de novembro de 2012 | |

Há quem as atire e quem as apanhe: as pedras. Eu cá gosto tanto de atirá-las como de as apanhar, tudo depende da situação; do espaço e do tempo que um indivíduo tem para se dedicar a tais práticas. Agora por exemplo estou disposto e aberto apanhar uma Valente. Tenho o cérebro num túnel aberto onde se cruzam ventos a mais de 300 quilómetros horários. E é uma ventania terrível, não se consegue ouvir nada. Alguém me pergunta algo e eu não percebo um boi, o quê, grito, queres o quê? Não te ouço camândrio! Preciso de uma pedra específica para construir uma barreira ao ruído que se me atravessa diariamente no espírito. Podem ser tijolos também, que isto um indivíduo não vive só de pedras. Hei-de de construir um belo muro, qual Rogério Águas, mesmo no meio do túnel que existe na minha compreensão: e que lindo ficaria! Todo encimado com arame farpado e holofotes a perscrutarem-me os pensamentos mais ruins, aqueles que me acordam de manhãzinha. Sim porque eu cá durmo que nem um justo; mal me batem os costados de encontro ao proverbial colchão ortográfico, adormeço qual querubim loiro, encaracolado, de asinhas sorridente. O meu mal são as manhãs, pá: acordam-me pensamentos nublados; angustiosos mesmo. Existe esta palavra, angustioso? Deve existir, pois se não está sublinhada a vermelho. E depois fico triste como o caraças, pá, e é então que surge a vontade de apanhar pedradas. O próprio Cristo mandou que a primeira pedra fosse atirada por quem nunca houvesse pecado. Por muito respeito que tenha pelo homem enquanto filósofo tenho que discordar dele. A proposição devia ter sido: que peque agora quem nunca atirou a primeira pedra. Então sim, era ver uma arraial de pecado como nunca antes, daquele bom, em que se aproveita a carne, a gordura que escorre, os líquidos da natureza, os néctares mitológicos; era vê-la a rodopiar, tonta, magnífica, bacante até nem mais. Quando há carne disponível, há que mordê-la, arroxeá-la, penetrá-la bem fundo, com os dentes aguçados. O caminho não se faz a pensar no que há ao fundo do túnel, caraças, o caminho é cavar o próprio túnel, desbravá-lo até à sofreguidão, e chegar ao fim e pensar, Ah! Caraças, ganda túnel que eu acabei de esburacar. A palavra ganda ficou sublinhada a vermelho: maldito sejas acordo ortopédico.

elegia lapidar

5 comentários:

Catsone Says:
18 de novembro de 2012 às 10:41

Lol, tens vento mais "ventoso" que o algarvio.

nAnonima Says:
18 de novembro de 2012 às 11:07

(obrigada por teres voltado a escrever)

desejo Says:
18 de novembro de 2012 às 22:02

Adorei, adorei, adorei!

:)

Briseis Says:
20 de novembro de 2012 às 23:07

Eu era bem capaz de ir atrás, feita ovelha babona e ceguinha, se fundasses uma religião a falar assim...

Ditonysius Says:
22 de novembro de 2012 às 18:24

E eu que já trabalhei nessa obra arte lusitana, de trabalhar a pedra, cantarias, boleados, bojardados (lá estão as palavras sublinhadas do corrector ortopédico, como tão bem ilustraste) ... e pedra é base, determinação, lá dizia Cristo, ao escolher o seu braço direito (ou esquerdo???? ... não importa!), e sei que cada texto teu, tem pedra!

Um abraço do Canto de Cá ...