Honk-Logia I

| sexta-feira, 23 de novembro de 2012 | |

Quando tinha cinco anos, o meu pai levou-me a visitar o seu local de trabalho. Depois de logo à entrada ter sido vítima dos habituais puxões de bochechas e esfreganços de cabelo, acompanhados do clássico “Ah! Campeão”, subi até ao primeiro andar, sempre guiado pela mão forte e enorme (aos meus olhos) do meu pai. Foi apenas um segundo, contou-me ele mais tarde, em que para cumprimentar um colega, o meu pai me deixou da mão. Nesse instante, parece que consegui enfiar-me pelas varetas das escadas e mergulhar de cabeça, qual torpedo, rumo ao rés-do-chão. Do que se seguiu não tenho relatos, mas imagino que tenha sido o pânico. A minha mãe uma vez contou-me  que a minha cabeça parecia uma melancia em tamanho, com a orelha esquerda completamente dobrada, tal era o tamanho do hematoma. É claro que as mães exageram sempre, mas ainda hoje tenho um alto no lado esquerdo da cabeça, para não me esquecer de uma queda que ainda hoje não me lembro.
Trinta e cinco anos depois, quando estava na fase terminal de um cancro na próstata, o meu pai chorava sempre que eu o ia ver ao hospital. As enfermeiras estranhavam muito pois parece que o meu pai, mesmo cheio de dores mantinha o sentido de humor; chegando mesmo a mandar uns piropos de vez em quando. No entanto, sempre que eu atravessava as portas da enfermaria, era um pranto que só visto. Pareces uma Madalena, homem! - censurava-lhe a companheira.
Um dia, em que os pensos de fentanyl  não estavam a fazer efeito e o meu pai já não conseguia chorar, julguei desvendar-lhe nos olhos o segredo íntimo do sofrimento. Não eram as dores atrozes nas artroses, nem a anca delapidada com as metástases, nem o potássio a subir-lhe ao cérebro pela falha renal. Era a queda. O meu pai continuava a ver-me cair com cinco anos de idade. Todos os dias eu caía do primeiro andar. Quando o visitava tinha sempre cinco anos, e, pensando bem, acho que para o meu pai eu tive cinco anos a vida toda. Tive cinco anos quando comecei a fumar, tive cinco anos quando deixei de estudar, tive ano sim, ano não: cinco anos de idade. Uma tarde, durante a visita,  fui buscar café à máquina e quando voltei, já não tinha cinco anos; nunca mais caí desde esse dia, foi então que me estremeceram os joelhos. 

6 comentários:

desejo Says:
24 de novembro de 2012 às 19:01


"Era a queda".E enquanto a queda existia no seu pensamento, tinha vida.
Os pais, na sua maioria, vêem os filhos eternamente crianças (falo sempre do meu.Nunca percebeu que os filhos tinham filhos).
Sensível o teu recordar.

:)

Mz Says:
25 de novembro de 2012 às 13:03

É quando nos faltam que sentimos verdadeiramente que já não temos quem nos ampare as quedas.

Briseis Says:
25 de novembro de 2012 às 23:59

Eu deixei a minha irmã cair de cara no chão uma vez, enquanto brincávamos. 15 anos passados ainda me arrepio ao recordar...
Tocou-me muito a tua es/história...

Anónimo Says:
29 de novembro de 2012 às 16:05

devoro-te as palavras. gosto. gosto tanto. ainda que algumas me façam tremer os olhos.

nAn

Maria Says:
2 de dezembro de 2012 às 02:46

Há textos e depois há estes textos. É certo que há dias e também há dias. Mas o que te quero dizer é que o teu texto no meu daia, meu deus!, devolveu-me coisas ao coração... Choro muito ao ler-te. Pode paracer exagero, afinal, aqui deste lado posso dizer-te o que quiser. Mas é verdade, tão verdade como dizeres que as mães exageram sempre. Não tivesse um filho da idade que tinhas quando caíste da escada, não tivesse eu quase a mesma idade que tinhas quando foste buscar café, não tivesse eu um pai a caminhar para o mesmo sofrimento que o teu. O que nunca tive foi o golpe de alma de escrever assim. Obrigada. E desculpa o tamanho deste comentário.

hesseherre Says:
10 de dezembro de 2012 às 21:06

" O que nunca tive foi o golpe de alma de escrever assim."(MARIA)
Quantas vezes paramos e pensamos em escrever recordações - que todos temos, afinal - abrindo nossas almas para os amigos que nos visitam nestes blogues. Creio que a ti fez bem este depoimento, amigo, e te parabenizo por seres tão gente e sensível.