Uma Questão de Tempo

| quinta-feira, 12 de janeiro de 2012 | |
«Um poema por dia, não sabe o bem que lhe fazia» disse-lhe o médico. «Mas...é para ler ou para escrever, doutor?» Questionou o homem. «Tanto faz!»
O homem foi para casa, sentou-se à escrivaninha e desatou a escrever poemas. Primeiro foram-se-lhe as dores de cabeça, depois as dos ossos, a seguir as insónias e ao fim duma semana já nem sequer fumava. A notícia espalhou-se rápida pelo bairro, havia um poeta milagroso ali mesmo à mão de semear. Não durou muito tempo para que longas filas de enfermos se formassem à sua porta. O homem escreveu poemas a torto e a direito: alexandrinos, de verso livre, sonetos, o que melhor se adequasse à condição do doente. Dia e noite era só que fazia, escrever e escrever e escrever.
Os patos, os gansos e as galinhas que os clientes lhe deixavam em forma de pagamento não serviram de nada, e o homem um dia acabou mesmo por morrer de fadiga e à fome. Pelo bairro, no entanto, respirava-se um profundo ar de saudável cultura e erudição.

8 comentários:

desejo Says:
12 de janeiro de 2012 às 21:43

lol, o tempo mata tudo e todos.

:)

El Matador Says:
12 de janeiro de 2012 às 21:46

e a ele próprio

Catsone Says:
12 de janeiro de 2012 às 22:32

Ainda bem que não existem muitos desses poetas curandeiros ou ficaria sem emprego.

El Matador Says:
12 de janeiro de 2012 às 22:34

Eles existem, duram é muito pouco tempo :)

Briseis Says:
13 de janeiro de 2012 às 00:17

Mais um caso manhoso em que, não se morrendo da doença, morre-se da cura. Há muitos por aí...

El Matador Says:
13 de janeiro de 2012 às 08:43

É a troika.

ditonysius Says:
13 de janeiro de 2012 às 09:48

O "coiro" não é de ferro, ...
a palavras tantas deveria ter guisado uma galinha, ou assado um ganso, ou preparado um "magret" de pato, e nestas alturas, continuaria a ser um santo milagreiro do lugarejo. Já imagino uma Basílica em sua honra...

Um abraço do Canto de Cá...

El Matador Says:
13 de janeiro de 2012 às 10:03

Ao menos um tremoços, vá.