A Hard Day's Night

| sexta-feira, 1 de outubro de 2010 | |
It's been a hard day's night
And I've been working like a dog
The Beatles

Acordou com o cheiro da chuva. Mais concretamente com o cheiro da terra molhada. A cabeça doí-lhe como se tivesse marrado numa bigorna. Um espirro de vodka estremeceu-lhe nas narinas e o sabor do álcool voltou-lhe à boca num enjoo matinal. Estava prestes a dar à luz uma ressaca monumental. Pelo aspecto molhado da sala deduziu que tivesse chovido a noite inteira. Desde que ela se fora que ganhara o hábito de dormir de janelas abertas, todo nu, na esperança vã que uma noite ela regressasse e se deitasse com ele na vasta cama que aumentava de tamanho todos os dias. Vestiu o roupão cor-de-rosa e de caminho para a cozinha agarrou na garrafa de vodka meio cheia. Ora aí está uma imagem positiva que os gurus da auto-ajuda nunca se lembraram de usar: um indivíduo acorda ressacado depois de uma noite perdida e mesmo assim consegue ver a garrafa de vodka meio-cheia.
Quando a má-disposição começou a tomar proporções montanhosas, tomou uma decisão radical: Bloody Mary. Deitou uma porção generosa de vodka num copo alto, juntou-lhe uns restos de tabasco fora de prazo, uma pitada de sal, sumo de tomate, pimenta, e, como não tinha molho inglês juntou-lhe mais vodka, que isto dos cocktails matinais o segredo está no improviso. Bebeu o composto de um só trago e pouco depois sentiu o sorrisinho da noite anterior aflorar-lhe de novo os lábios.
Agora sim, estava pronto para o trabalho. Acendeu um cigarro e voltou para a sala que também era o quarto e fazia as vezes de hall de entrada. Ligou a aparelhagem e pôs um cd do Coltrane; aos primeiros acordes soltou um passinho de dança.
Sentou-se em frente ao computador que ficara ligado da noite anterior e enterrou os pés nus no tapete árabe, única recordação duma viagem que tinham feito juntos, noutra vida. Na secretária, por debaixo da montanha de rascunhos, ainda guardava a carta que ela lhe deixara em cima da cama num envelope agora amarelo. A frase, por ser tão singela, ficou-lhe atarrachada na memória: Deixo-te o tapete, levo o cão.
Sacudiu a cabeça e tentou concentrar-se no trabalho que já estava mais que atrasado. Tinha ficado de escrever um livro para crianças, encomendado pela editora, mas todos os dias ruminava á volta do tema e não passava do título: Pai Natal ou Menino Jesus? – Eis a Questão!
Acendeu outro cigarro. Não conseguia conter a inspiração: era-lhe permeável. A dita atravessava-lhe o corpo como o sangue dominical por um cálice partido; como a chuva que lhe entrava pela janela. Os dedos passeavam pelo teclado mas o resultado era sempre o mesmo: reminiscências duma tristeza. Uma tristeza que se prolongava ao longo do dia. Um dia que demasiado cedo se fazia noite.

Para a Fábrica das Letras -  O Cheiro da Chuva

24 comentários:

pink poison Says:
1 de outubro de 2010 às 21:48

Sim o desgosto... Acompanhado de substâncias que nos mudam o estado de espírito. gostei muito mas preferia o cão ao tapete.
Beijo e bom fim de semana

El Matador Says:
1 de outubro de 2010 às 21:55

Eu também preferia o cão, mas isto das partilhas já se sabe.

bom fim de semana.

pink poison Says:
1 de outubro de 2010 às 22:21

E já foste buscar o teu mimo ao meu blog?

El Matador Says:
1 de outubro de 2010 às 22:35

Não, mas agradeço-te já aqui. Eu não sou muito dado a prémios e selos, mas gostei da lembrança.

Já agora tenho que te dizer que não recebo actualizações do teu blog.

pink poison Says:
1 de outubro de 2010 às 23:27

Eu sei :( e o bloguer não me resolve o assunto... Estou danada.

meldevespas Says:
2 de outubro de 2010 às 20:11

tudo o que tenho lido aqui, é de calibre elevado ;D, mas este texto meu amigo, está soberbo.
Adorei. Do melhor que tenho lido.
Beijo

El Matador Says:
2 de outubro de 2010 às 20:55

Obrigado Mel, vou tentar manter a calibragem :)

Peanut Says:
2 de outubro de 2010 às 23:00

gostava que o texto se prolongasse num grosso romance. queria ler mais, muito mais deste cheiro da chuva que me cheirou mais a cão molhado deitado num tapete árabe. Afinal, todos os abandonos cheiram a cão molhado, da chuva

El Matador Says:
2 de outubro de 2010 às 23:13

Por acaso quando o acabei, também me deu a impressão de que havia matéria para continuar. Não sei, se calhar é só impressão.

Tulipa Says:
2 de outubro de 2010 às 23:31

As reminiscências da tristeza aparecem a toda a hora...
Gostei muito.
Improvisa e faz o tapete desaparecer ao som de Coltrane. Kiss

El Matador Says:
2 de outubro de 2010 às 23:40

Torná-lo num tapete voador :)

MZ Says:
3 de outubro de 2010 às 00:49

Como queres que ele tenha ideias se o pões a viver neste caos?
:)
Fantástico, como sempre.

blue Says:
3 de outubro de 2010 às 02:03

Caramba! Habituei-me à tua escrita nua e crua, mas é inevitável senti-la tão cheia, tão intensa. Adorei! Os meus parabéns.



Fazes-me pensar em arrumar a trouxa e voltar para casa (isto é, deixar de escrever).
(Tenho uma curiosidade enorme: saber o que fazes profissionalmente - estou só a dizer por dizer, não procuro que me respondas.)

El Matador Says:
3 de outubro de 2010 às 09:30

@MZ: É do caos que surge a criação :) Obrigado.


@Blue: Obrigado pelo teu comentário Blue.

Não faças isso, deixar de escrever, quando muito devias era escrever mais.

Sou artista de circo, mais propriamente, Palhaço.

luisa Says:
3 de outubro de 2010 às 17:08

Gostei...como sempre. Já agora porque é que ele não resolve escrever a história do dia em que o Menino jesus deu de caras com o Pai Natal... :)

El Matador Says:
3 de outubro de 2010 às 17:25

Um dia terrível para as estórias infantis.

Eduardina Says:
6 de outubro de 2010 às 15:36

O humor e a ironia semeados pelo seu texto, deram-me indícios de que seria outro o desfecho. Surpreendeu-me(o que parece que é bom, nestas coisas da escrita), e agradou-me.

El Matador Says:
6 de outubro de 2010 às 17:05

Ainda bem Eduardina, a mim também me surpreendeu o que é sempre bom para quem escreve.

Natália Augusto Says:
7 de outubro de 2010 às 17:50

Que história! Não há glória, felicidade, mas há uma existência contorcida entre álcool, lembranças e escritos.
Lá fora a chuva cai.

El Matador Says:
7 de outubro de 2010 às 18:56

Pois.

Catsone Says:
16 de outubro de 2010 às 11:47

Bem, com a banda sonora certa e este teu post toma proporções épicas!
Gosto de ler as tuas descrições de insanidade, friend, e essa ressaca quase me bateu, mesmo sem beber gole d'álcool.

Porta-te.

PS: gostei muito do novo template.

El Matador Says:
16 de outubro de 2010 às 13:18

Disseste bem, quando escrevo tenho que ter sempre uma boa banda sonora por trás.

Otário Says:
16 de outubro de 2010 às 14:47

descobri este teu blog, meu caro, a partir da tua participação neste desafio da fábrica de letras, li o texto e gostei... vou dar uma olhadela geral ao teu espaço, coscuvilhar um pouco, se mo permitires ;)

eu também participei,
saudações otárias!

El Matador Says:
16 de outubro de 2010 às 19:39

Bem-vindo caro Otário. 'Tás à vontade para cuscar, faz de conta que estás em casa, a cerveja tá no frigorífico.