#222 (o primo afastado da besta)

| sábado, 23 de outubro de 2010 | |
Era como que uma espécie de hipnose. Não! Era qualquer coisa como sonhar acordado. Também não era bem isso. Era algo na fronteira de ambos os estados, como se lhe tivessem injectado com uma droga benigna.
Sentou-se em frente ao computador, desapaixonado, como sempre ficava quando tinha que elaborar maçudos relatórios, pejados de estatísticas estranhas, que não interessavam a ninguém para além das maçudas pessoas a quem estes relatórios interessavam. O que farias se a tua vizinha se tornasse num zombie? Era uma das perguntas colocadas aos inquiridos. A sério?
Acedeu à pasta A Minha Música e escolheu um ficheiro ao calhas, que o que ele precisava era de música de fundo para concluir uma empreitada que se previa longa e boçal.
A canção começou com um contrabaixo, melancólico, suave, muito pachorrento que soltava umas bordoadas graves, como uma voz antiga que aconselha, que protege. Foi como se lhe tivessem colocado um cobertor quente por cima dos ombros numa noite fria. Depois veio o saxofone, com as notas bafejadas pelo vento, que saltitavam pelo tom cavo do baixo como as pedras de verão saltam pela crista das ondas quando são atiradas pelos banhistas. E foi assim que depressa chegou a um estado meloso e catatónico de puro deleite, que sempre atingia quando se punha a ouvir música em vez de trabalhar. Com os olhos fixos no ecrã do computador, estático, quem o visse admirar-lhe-ia a concentração. No entanto, por muito que quisesse dar início à actividade, não conseguia; tinha a sensação de estar íntimo com a harmonia do universo: todos aqueles sons eram verdadeiros e tocavam-lhe nas extremidades dos nervos. Outra vezes, quando passava em frente da estante dos livros, se houvesse um que lhe despertasse a atenção; ou por se lembrar de ter gostado, ou por já não se lembrar muito bem do enredo, abria-o e logo atingia um transe igual ao provocado pela música ficando eternidades a ler, no meio da sala, em pé.
Esqueceu-se das horas. O director ralhou-lhe por causa do atraso dos relatórios, dos prazos e de mais não sei mais o quê. Mas a ele, o que lhe interessava era um estado de contemplação, que depois de atingido já não se podia desfazer; uma felicidade que ia para além das medições e convenções e conceitos e preconceitos das gentes ditas normais.
Encolheu os ombros e regressou pesaroso à estúpida realidade, que sempre o atingia na testa quando menos esperava, como uma bélinha.

12 comentários:

Lala Says:
23 de outubro de 2010 às 21:47

por vezes acontece-me fugir assim. ainda agora ;)
acordei do transe quando li a palavra "bélinha"!

El Matador Says:
23 de outubro de 2010 às 22:00

Eheh, mesmo em cheio na testa.

anouc Says:
23 de outubro de 2010 às 22:09

Há sempre essa sensação de desanimo total quando se tem (forçosamente) de regressar à realidade. É uma porra. A sério. Sei bem o que é isso.

El Matador Says:
23 de outubro de 2010 às 22:15

Custa muito; é como acordar de manhã.

pink poison Says:
24 de outubro de 2010 às 00:31

Fugir da realidade? Fernando Pessoa. Suicídio. Vícios.

El Matador Says:
24 de outubro de 2010 às 01:08

Vou escolher o Fernando Pessoa e os vícios; o suicídio tende a ser um bocado permanente.

Otário Says:
25 de outubro de 2010 às 10:40

tu és um contador de histórias homem... e onde fica 'renmak', ou lá esse lugar que informas ser de origem? fiquei curioso...

El Matador Says:
25 de outubro de 2010 às 11:53

Ahaha, é Remulak. Tirei duma canção do Frank Zappa, também não sei onde fica, acho que não existe.

otário Says:
26 de outubro de 2010 às 11:27

ah tá porreiro...
se te recordares do nome
da canção, diz aí, fiquei
curioso de curiosidade.

El Matador Says:
26 de outubro de 2010 às 11:53

'Conehead', do album 'You Are What You Is'.

Tulipa Says:
26 de outubro de 2010 às 12:41

Que bom termos a música e os livros para nos fazer sonhar, e´que a vida sem isso não tem graça nenhuma. Kiss

El Matador Says:
26 de outubro de 2010 às 14:12

'A vida sem música seria um erro' já lá dizia o Nietzsche.