O Puzzle

| sábado, 16 de janeiro de 2010 | |
A polícia fez-lhe uma pergunta simples, à qual ele respondeu «são os meus amigos, estão a descansar...» e prosseguiu a beberricar o seu armagnac denotando um ar incomodado a quem haviam estragado o dia. Toda aquela azáfama deixava-o um pouco irritadiço, ele gostava do silêncio e das horas calmas, e aquela já se havia transformado numa hora transtornada. Ajustou o robe e acendeu mais uma cigarrilha. Um homem tem que manter a postura em todos os momentos, mostrar que não é um animal selvagem mas sim um ser civilizado e racional. Os agentes da autoridade pelo contrário, estavam à beira do desespero, os cadáveres não paravam de surgir, quanto mais fundo cavavam mais camadas de ossadas iam encontrando. Dir-se-ia que tinham tropeçado num puzzle gigantesco, não fosse a tragédia de as peças serem humanas. O chefe de polícia, sentado na poltrona em frente do suspeito confesso, não conseguia discernir o verdadeiro estado de alma do perpetrador e isso incomodava-o; o absurdo e o imprevisível não eram seus amigos, evitava-os sempre que podia. Quem será este homem? Um monstro? Um doente mental? Um génio do mal? O chefe de polícia era um ávido consumidor de romances policiais e aquelas eram as categorias de criminoso que ele mais apreciava.
-Diz que são seus amigos, porque os matou?
-Sempre as mesmas perguntas, que aborrecimento, não quer beber nada? Limitei-me a fazer-lhes um favor: acabei com a sua miséria, a sua escassez de imaginação, dei-lhes descanso, estão a descansar já lhe disse.
-Quantas pessoas mais encontraremos ali? - Continuava o chefe de policia; gotas de suor frio formavam-se-lhe na testa.
-Quantas? Meu Deus, quem é que vai saber, acha que isso importa? o senhor é policia ou contabilista? Eu aborreço-me muito senhor agente, inspector ou lá o que senhor é; aquelas pessoas aliviaram-me o aborrecimento, ainda que por pouco tempo, foram uns heróis do meu ponto de vista, e agora aparecem os senhores e aborrecem-me mais...Sinto-me cansado.
«É verdade» pensava o chefe de polícia para si, nos dias que correm, aborrecemo-nos cada vez mais; os livros já não se usam e na televisão não passa nada de jeito, será a isto que vamos chegar quando estivermos fartos de todas as formas de entretenimento embrutecido que inventámos. Será este homem um criminoso ou um homem comum, o primeiro de uma geração vindoura? «Cabrões de vindouros» desabafou o chefe de polícia em voz alta. O homem refastelado na poltrona, acordado do seu torpor, abriu muito os olhos como se tivesse finalmente na presença de alguém que o compreendia:
- É mesmo assim senhor Comissário, vá lá, alegre-se, beba um copo comigo.

2 comentários:

brita Says:
18 de janeiro de 2010 às 18:06

bebo um copo ou mato alguém?

El Matador Says:
18 de janeiro de 2010 às 18:30

Eis a questão.