A Revolução

| terça-feira, 17 de novembro de 2009 | |


Compareceram todos na praça velha, junto ao edifício antigo do Governo Civil, que parecia aborrecido com mais aquele ajuntamento rebelde a conspurcar-lhe as paredes intemporais. O que fazer? Era o único posto representativo da autoridade que conheciam, e, se queriam começar uma revolução, que melhor sítio para mandar pelos ares do que aquele? A agitação era constante, haviam movimentações desordenadas, homens com o cenho franzido treinavam poses de indignação, outros corriam de um lado para o outro a reagrupar uns poucos que se tinham tresmalhado para fumar cigarros. Tinha que haver união porra, senão a coisa não avançava. Depois de muitas considerações “engenheiras” sobre qual seria o melhor local para pôr o barril de pólvora, foram unânimes em colocá-lo à porta do edifício. Inseriram o rastilho e pronto, logo se excitaram no ar as bandeiras da revolta.
- Pela Lei e pela Grei – Gritou Abrenúncio-O Simples, e levantou alto a tocha que poria em marcha a sublevação.
- Pela quem? - Inquiriu Romualdo que estava nas filas de trás e ouvia mal.
- Pela Grei – repetiu Ildefonso.
- O que é isso?
- É o povo, somos nós – Explicou Ildefonso a uma pequena multidão que rapidamente se ajuntara para escutar a “descomposição” da malfadada palavra que nunca ninguém tinha ouvido.
- Nós somos a Pelagrei? - Resmungou Anacleto desconfiado.
- Diz que sim – Confirmou Labregoísio encolhendo os ombros. E de repente, como se tivessem sido ensaiados  largaram todos a uma só voz:
PELAGREIPELAGREIPELAGREI-...
Abrenúncio, sentindo finalmente o apoio da chusma, incendiou o rastilho e  todos se acocoraram abrigados à espera do estardalhaço que por aí viria.
O estardalhaço chegou sem dúvida mas não passou disso. A porta permaneceu intacta, aborrecida como sempre, sem ceder um mílimetro que fosse aos rebeldes. A "comissão de engenheiros” reuniu-se de novo e chegou à conclusão que a pólvora usada fora a seca, a que costumavam usar nos dias de festa. E agora? Já não havia maneira de arranjar pólvora boa àquelas horas. Abrenúncio–O Simples, como líder nato que era declarou:
- Meus amigos! A Revolução fica para a próxima quarta-feira à mesma hora - E dito isto a multidão debandou lentamente e a praça ficou vazia com o edifício do Governo Civil a rir-se baixinho. Chegaram todos a casa à hora do jantar. O dia seguinte era dia de trabalho e o trabalhinho é muito bonito.

9 comentários:

roserouge Says:
17 de novembro de 2009 às 13:04

Duas vezes o mesmo post, pequeno? A cerveja já estava morta? ehehe...

ah, mas o texto é brilhante. Fartei-me de rir. Palmas!

El Matador Says:
17 de novembro de 2009 às 16:33

Isto é o que dá "postar" logo de manhãzinha, com o cérebro ainda meio embezerrado.

Pronto, problema rectificado.

Agradecimentos.

Pierrot le Fou Says:
17 de novembro de 2009 às 22:38

Ganda matador!

O Nighthawks do Edward Hopper (na versão "toma lá!")...
Coincidência, tenho essa imagem no desktop.

Pelagrei!!!
... o segredo está na pólvora.

El Matador Says:
17 de novembro de 2009 às 23:07

Grande Pierrot, long time no see...

É verdade a solução está na pólvora, mas naquela que explode.

Abraço.

Pierrot le Fou Says:
17 de novembro de 2009 às 23:12

He he

cal...formerly known as calamity Says:
18 de novembro de 2009 às 13:47

Está visto.
O problema foi a decisão unânime.
Deviam ter feito uma «comixão» para deliberar sobre o melhor local, outra para deliberar sobre o melhor explosivo, outra para coordenar os trabalhos, e mais duas ou três.
Depois, referendavam as propostas iniciais.
Aí sim, a coisa funcionava.
Ah, não esquecer que tinham que descansar ao sétimo dia.

El Matador Says:
18 de novembro de 2009 às 14:07

Agora vão ter que formar uma Comissão de Avaliação que também é muito importante, depois claro de ser aberto um Inquérito de Investigação.

roserouge Says:
18 de novembro de 2009 às 15:53

Não, primeiro um Inquérito Preliminar, depois um Inquérito de Avaliação ao Inquérito Preliminar, depois há que constituir uma Comissão de Investigação aos Inquéritos e no fim instaura-se um processo judicial à Fábrica da Pólvora de Barcarena por ter fornecido material que tinha chumbado previamente no Controlo de Qualidade mas que alguém, ligado aos tentáculos da Face Oculta...

El Matador Says:
18 de novembro de 2009 às 16:08

É por aí é. Eu geralmente desligo-me logo ao início e só volto a prestar atenção quando eles fogem para o Brasil.