Nunca Mais

| domingo, 15 de novembro de 2009 | |
Há muito que todos se tinham ido embora. O homem ficara sozinho naquele mundo a preto e branco, um mundo antigo cheio de coisas do outro tempo e de modos e costumes que já não se usavam. Porque ficara só nesta existência de dois tons? Era a pergunta que repetia a si próprio. Também não sabia responder. Havia algo naquela existência que o acalmava, os planos policromáticos assustavam-no; ele que não gostava muito tomar decisões entre isto e aquilo, e a quem o cinzento já fazia confusão, apavorava só de imaginar as múltiplas radiações do arco-irís. Os outros falavam-lhe das maravilhas do espectro da luz, de como todas as cores eram belas e das múltiplas possibilidades que advinham da sua combinação, mas ele, que era igualmente daltónico a tudo o que não fosse a sua convicção fechava-se em teimosia e recusava-se a partir para a outra margem. A pouco e pouco a Cidade foi ficando deserta e quando os últimos resistentes deram o salto para o lado de lá, o homem ficou irremediavelmente sozinho naquela vida que tinha escolhido para si. Não tinha vocação para solitário e quando vagueava pelas ruas, discursando sozinho e discutindo com as figuras imaginárias que outrora foram os seus amigos sentia-lhes a ausência. Gritava impropérios numa rua vazia e o eco devolvia-lhe a sua angústia monocórdica.
Um dia caminhou rente à fronteira que separava os dois mundos como que a testar a sua perseverança e o destino (que não gosta que o ponham à prova) colocou-lhe uma pedra no caminho onde ele tropeçou. A gravidade, que também não estava para meias medidas, puxou-o com violência. Caiu estatelado de braços abertos desenhando no chão uma figura circense algo patética. Sentiu que sangrava e levou a mão à boca, os dedos recolheram uma amostra, era vermelha.
O mundo à sua volta depressa o inebriou. Sentiu-se tonto e ao mesmo tempo desperto. Sim era verdade, as possibilidades eram infinitas e havia esperança. Nunca mais serei fiel ao meu estranho fado jurou a si próprio e quando se levantou já era uma pessoa a cores.

Para a Fábrica de Letras - Preto e Branco

14 comentários:

Gingerbread Girl Says:
15 de novembro de 2009 às 20:45

Teve sorte de ir a tempo. Nem todos morrem a preto e branco e renascem coloridos.


*

El Matador Says:
15 de novembro de 2009 às 21:21

É uma verdade.

Luis Bento Says:
16 de novembro de 2009 às 02:23

Preto no branco...a cor de uma excelente narrativa.

pepita chocolate Says:
16 de novembro de 2009 às 08:32

Gostei muito deste contraste.Preto branco, vemelho verde. Antitese entre indiferença e sentimentos.

;)

El Matador Says:
16 de novembro de 2009 às 08:37

@Luis Bento - Obrigado Luis

@Pepita Chocolate - e um bocadinho de cinzento :)

MZ Says:
16 de novembro de 2009 às 18:17

Por vezes o nosso egoísmo e a nossa teimosia leva-nos a perder todos aqueles de quem gostamos e quando descobrimos que estamos errados já pode ser tarde...

(encontrei-te na fábrica)

Gostei bastante do teu texto!

El Matador Says:
16 de novembro de 2009 às 18:27

É o que acontece quando se constroem muros e cercas em vez de pontes.

Obrigado.

Brown Eyes Says:
16 de novembro de 2009 às 22:57

Um texto muito simbólico, como uma queda pode colorir uma vida! Preto e branco e a cor numa vida tem muitos aspectos discutíveis. A opinião e a perseverança quer-se a preto e branco, doa o que doer.

El Matador Says:
16 de novembro de 2009 às 23:39

Das grandes quedas surgem às vezes as grandes mudanças.

meldevespas Says:
18 de novembro de 2009 às 11:37

às vezes somos montanha, ouvi dizer a alguem há uns dias atrás, ficamos ali, estáticos, cheios de nós e das nossas sábias convicções. e tantas vezes a revelação de tudo é apenas e só um vazio enorme. Muito bonito o teu texto.
Abraço

El Matador Says:
18 de novembro de 2009 às 11:45

Muito bonito o teu comentário.
Obrigado pela visita.

Abraço

Arisca Says:
18 de novembro de 2009 às 23:13

Ao ler o teu texto senti o incómodo de quem não está bem num mundo a preto e branco, mas também não se sente integrado no mundo a cores.
Gosto dos textos que provocam em mim emoções.
Muito obrigada!

*bons ventos

El Matador Says:
18 de novembro de 2009 às 23:46

Obrigado eu.

Anónimo Says:
27 de dezembro de 2012 às 00:44

Fantástico! Afinal era só deixar-me cair! Tanto tempo a equilibrar-me e afinal... Tanto tempo a calafetar os muros quando num passo se transpunha o INCONTORNÁVEL abismo.

Eh eh eh

Obrigados Matador, El Guru distraído. De puta madre. Agora sei.