O Descalabro

| quinta-feira, 5 de novembro de 2009 | |
Era fraca a conversa e compararam-no a Gulliver – O gigante. Ele respondeu que não, não era um gigante, os liliputianos é que eram pequeninos por serem tão mesquinhos. Ele tinha um tamanho normal, passava despercebido na multidão, era anónimo e já não estava no seu primor. O seu tempo havia acabado e não, não se dão segundas chances a ninguém, só nos filmes. Agora discursava de gosto, era o que acontecia sempre bebia umas a mais. Nos filmes, continuava ele, «o rapaz é sempre muito bonito e bem educado, e está sempre com um problema, o problema do rapaz é ser bonito e ninguém gostar dele. Geralmente no fim há um twist, um volte-face e toda a gente assume que sim, porra, o rapaz é mesmo giro e, do nada, surge uma rapariga tão bonita quanto ele e depois casam-se e vão-se embora em câmara lenta. Na vida real, na estúpida da realidade...», gritava agora, «...o rapaz em abono da verdade é uma aberração que até dá dó olhar para ele, um estafermo de raça lobo, ninguém o vem buscar, os problemas não se resolvem: acumulam-se! Não há rapariga em câmara lenta, não há twist e no fim morre-se de cancro». Bebeu mais um longo trago, desta vez directamente da garrafa e encostado ao bar continuava a vociferar:«Já não há pensamento crítico, já ninguém pensa por si próprio, onde é que está o filosofar espontâneo? Temos alguém que nos diz o que fazer, para onde ir, e melhor: o que comprar. Ao domingo depositamos um bilhetinho na ranhura de uma caixa e pronto, vamos para casa satisfeitos, já não precisamos de pensar em mais nada: a nossa missão está cumprida. Feliz natal.»
A reacção dos convidados à sua volta dividia-se em duas: aqueles que concordavam com ele mas abanavam a cabeça com pena de o ver naquele estado deplorável e os que viam nele só mais um bêbado a uivar à lua. O certo é que naquela noite, e para infortúnio dos anfitriões, ele decidira despejar a sua alma ao mesmo tempo que se encharcava em vodka.
«Enfileirem-se carneiragem! Sigam o vosso pastor! O caminho é estreito e curto e o destino é o matadouro.» Estas palavras já as proferiu sentado no chão. Meteu a cabeça entre os joelhos e começou a chorar. Uma senhora mais ou menos da sua idade acercou-se dele e ajudou-o a levantar-se. Conduziu-o até à porta de saída. Não era bonita.

2 comentários:

Joaninha Says:
11 de novembro de 2009 às 11:02

É desta que dás continuação? este tem de ter continuação, vá lá! Please?

Obrigada :)

beijos

El Matador Says:
11 de novembro de 2009 às 11:11

Hummm, vou pensar nisso Joaninha. Se reparares bem, alguns deles até têm continuação, tens é que estar atenta.