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Pegadas na Areia

| quarta-feira, 11 de julho de 2012 | 2 comentários |

- ...Olho para trás e qual não é o meu espanto quando só vejo um par de pegadas na areia. Onde é que estavas tu quando eu mais precisei de ti?
- Ah, foi nessa altura que eu carreguei contigo ao col…
- Outra vez essa história de andares comigo ao colo, mas tu pensas que eu sou parvo ou quê?
- Mas é uma metáfora tão bonita.
- Metáfora? Querem lá ver que agora deste em lírico?
- A bem da verdade se diga que eu estive sempre contigo nos momentos mais dific…
- Tangas!
- Porque me arrenegas?
- Sabes onde é que tu estavas quando eu precisei de ti na Páscoa?
- ???
- A beber copos e a comer pão com os teus amigos.
- Mas isso foi na última ceia.
- Deixa-te de teorias. É verdade ou mentira?
- Bem… Tenho que confessar que falas a verdade.
- Eu sabia.
- O que posso fazer para te compensar?
- Quero um iphone.

Voo Nocturno

| terça-feira, 10 de julho de 2012 | 6 comentários |

Ildefonso tinha uma tara que muito desagradava a sua esposa: andar de bicicleta à noite. À hora que as pessoas normalmente se iam deitar, depois de se despedirem no facebook, àquela hora em que já começa a fazer fresquinho, era quando Ildefonso agarrava na bicicleta e desatava a pedalar rua acima, rua abaixo. Era um prazer como outro qualquer, explicava ele à mulher, gostava de sentir o vento nocturno roçar-lhe a fronha.
Hoje vou inovar, Maria, e nisto agarrou no velocípede e saiu de casa. Maria não prestou muita atenção, embrenhada que estava a copiar frases inteligentes do Citador, mas depois, como se acordasse violentamente de um sonho, resolveu ir à janela para ver o que é que o marido queria dizer com aquilo do inovar.
Ai! - Exclamou Maria da varanda ao ver Ildefonso percorrer a rua, em alta velocidade, montado na bicicleta: todo nú. Ildefonso, não podia estar mais contente, era um antigo sonho que finalmente concretizava. Sentia-se como se atravessasse as nuvens a alta velocidade com o vento a sacudir-lhe o corpo inteiro, é o que há de mais parecido com voar, pensou com os botões que não tinha. Maria praguejava baixinho, volta para casa cabrão, volta imediatamente para casa, apetecia-lhe gritar mas continha-se devido às avançadas horas da noite.
Numa das indas e vindas vertiginosas de Ildefonso, eis que a roda da frente se prende numa brecha do asfalto (posta ali pelos deuses da coincidência) fazendo a bicicleta empinar e cuspindo violentamente Ildefonso para o ar. Nisto, vinha o vizinho do rés-de-chão a chegar casa, depois de ter levado a passear o caniche irritante, quando vê Ildefonso passar por ele num voo arcado, de badalo ao léu e sorriso na cara. Boa noite vizinho, cumprimenta Ildefonso. Nem o vizinho, nem o cão retribuiram o cumprimento, quedando-se apenas boquiabertos no meio do passeio.
No primeiro andar, Maria, de mãos na cara, aflita, não se contém e deixa escapar em voz alta, Ah! desgraçado, ao menos cai de costas.

Misturas

| | 2 comentários |

Não há muito mais que fazer disse-me ele, é tudo uma questão de como se mistura o vodka. Em quantidades exageradas provoca sonolência acompanhada de instintos violentos e autodestrutivos, por outro lado, em fraca quantidade torna-se num sumo forte e acabas por beber mais do que a tua conta. Há que descobrir a via do meio - como o Buda? - Exacto. Anular todas as paixões, todas as expectativas, procurar viver na verdadeira ataraxia. Como o vodka bem misturado? Aprendes rápido jovem gafanhoto, lembra-te sempre do velho ditado tibetano: se procuras deus, mistura bem o vodka.

O Altruísta

| segunda-feira, 9 de julho de 2012 | 7 comentários |

“Yet each man kills the thing he loves,
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword!”

Oscar Wild – The Ballad of Reading Gaol



Peguei na máquina fotográfica e saí de casa com alguma urgência. Desatei a disparar a torto e a direito, indiscriminadamente: pessoas, animais, casas. Fotografar casas não dá tanto gozo como fotografar pessoas. As casas não se desviam, nem se agacham, nem gritam: vai fotografar a tua mãe, cabrão.
Só comprei a máquina fotográfica porque não me venderam uma caçadeira. Um pequeno azar para mim, uma grande sorte para o mundo dizem vocês. Discordo. A máquina isola, congela e eterniza: a pessoa não morre mas fica ali para sempre, naquela posição, presa em duas dimensões, sem voz, sem cheiro, sem sabor; parada no tempo, todos os dias. Se alguém se chegasse ao pé de mim e me perguntasse: olhe desculpe, o senhor prefere ser fotografado ou levar com um tiro de caçadeira à queima roupa mesmo em cheio nos intestinos? Eu cá prefiro o tiro de caçadeira, diria eu sem pestanejar, quem é que quer ficado parado no tempo? O indivíduo tem que se mover para a frente, tem que se renovar, a sua felicidade depende disso.
Foi imbuído desse espírito filantropo, dessa vontade altruísta de ajudar a sociedade, que eu tentei comprar a caçadeira, mas recusaram-me essa vocação missionária. Por isso fotografo, anonimamente. As pessoas que me vêem passar, nem imaginam, que quem ali vai, só lhes deseja o bem.

A Bomba

| sábado, 7 de julho de 2012 | 3 comentários |

Quando lhe pediram para construir a bomba atómica, ele construiu a bomba atípica. Era uma bomba que não explodia. Lançava-se na terra e ficava ali, apática de tudo e de todos, uma bomba sem aptidão para a maldade. Passado algum tempo as pessoas habituavam-se à presença da bomba e deixavam de lhe prestar atenção; era mais um bibelot enorme que estava espetado no meio do jardim. Os namorados beijavam-se na sua sua sombra e as criancinhas usavam-na como escorrega. Era uma bomba feita para a paz, portanto.
Um dia falaram-lhe de Oppenheimer e no papel relevante que este teve na construção da bomba atómica. Esse Oppenheimer é um mariconço, retribuiu o cientista, fazer bombas para destruir, qualquer um faz; agora um bomba de inércia, uma bomba que pode ser usada por crianças, adultos e idosos, uma bomba de brandos costumes, quem é que criou? Quem? Eu!

#300

| sexta-feira, 6 de julho de 2012 | 2 comentários |
- ...É uma espécie de tristeza que se cola aos braços. Depois sobre pelos ombros e dispersa-se pelo corpo todo. É como uma película fina e branca nos olhos, que nos impede de ver decentemente...
- Como as cataratas?
- Sim, mas com menos água.

Na Praia

| quinta-feira, 5 de julho de 2012 | 10 comentários |

Na praia não há enganos. O que está ali é aquilo mesmo: a praia. Há a água, areia e sol. Também há sol na cidade e no campo, dizem os especialistas. Sim, é verdade! Mas na praia o sol sente-se mais em casa, faz parte do pacote.
Na praia não há mentira nem dissimulação. Ninguém diz que tem frio quando está calor. O céu é azul e a areia é branca, e é assim que tem de ser, não nos serve de nada dizermos o contrário. Para quê? As ondas enrolam-nos porque está na natureza delas enrolarem, se não enrolassem, não eram ondas.
Andamos semi nus na praia para deus nos ver melhor, para lhe mostrarmos que já não temos medo dele. Estamos aqui, dizemos, e agora? Roçamos corpos e cometemos o pecado original vezes sem conta. Só existe um pecado: não ser original. E deus, envergonhado vira a cara por segundos. Cada segundo de deus corresponde a um milénio na Terra.
O que eu gosto mais na praia é da cerveja.

Mansos e Drogados

| sexta-feira, 29 de junho de 2012 | 5 comentários |

Acabou a febre da bola. Ficou só a febre. A, cada vez mais dolorosa, existência; a perturbante sensação de mesquinhez perante algo ou alguém que não se compreende e que nos esmaga diáriamente, sem vaselina.
A galáxia rodopia indiferente: braços estendidos ao universo, leite vertendo na noite escura. É onde vivemos, num desses braços. Grão de poeira suspenso num pedaço de luz. É tudo o que se poderia pedir: um lugar cativo numa viagem circular, sentados à beirinha, para podermos molhar a ponta dos pés no cosmos, e expandir-mo-nos, mas desta vez só em pensamento.
E no entanto ela gira, e o que nos sobra desta liberdade estonteante que recebemos de presente logo à nascença, é uma vil tristeza e malfadada existência, carregada de ignomínia e afronta.
Dão-nos um papel para decidirmos das nossas vidas e depois atiram-no com ele à cara. Insultam-nos.
Chamam-nos brandos, acomodados e até bons alunos...que insulto. Enchem-nos até às orelhas de fait-divers e de outras minúcias futilidades e conduzem-nos para o matadouro, mansos e drogados, como um boi sacrificial. Morrer assim: não sei se é castigo se é libertação. É a vida, dizem eles, tem que ser, dizem outros, ai o fado, o nosso rico fado, e assim nos levam: mansos e drogados.
E não há um único David que surja de funda ao alto, e espete com uma valente pedrada no olho do cú que estes gigantes trazem no lugar da cara.
Na aldeia global somos todos filisteus.

um dia um homem cansa-se

| quinta-feira, 31 de maio de 2012 | 10 comentários |

Jogava sempre com duas chaves e os resultados saíam-me sempre ao lado. Eu explico, saía sempre o número ao lado daquele que eu escolhia. Cedo delineei um método infalível baseado nesta minha descoberta teórica da lateralidade: comecei então a jogar com três chaves. A primeira e original, a segunda só com os números ao lado da primeira e a terceira com os números ao lado da segunda. Não por sorte ou azar, por sarcasmo apenas, digo eu, começaram a sair os números ao lado dos números ao lado do números ao lado. Seria o destino a rir-se de mim?
Eu, um não crente da providencia, um apostador do caos, de imediato urdi um plano para fintar a aparente ironia poética desse tal destino parvalhão. Optei pelo cerco, a jogada mais paciente ainda que aparentemente desesperada: joguei com uma chave ao centro e as outras com os números todos à volta. O boletim era um massacre, havia cruzes por todo o lado. Nada! Gastei uma fortuna, duas até, e não me saiu nada. Cheguei a comparar-me com aquele homem da televisão que apostava sempre no vermelho e saía-lhe sempre o preto. Deixar de jogar era fácil, e talvez uma das melhores coisas que faria na vida, o meu médico havia de gostar, mas não me conformo. Estou obcecado, tem de haver uma saída, as combinações são incontáveis mas não são infinitas; é só apostar ao lado do lado do lado do lado do lado... A ansiedade só por si é o suficiente para me matar. Mas não pode ser, tenho que continuar, estou viciado. Sou um masoquista ao fim de contas. Um dia pode ser que me canse

O Pesadelo

| terça-feira, 29 de maio de 2012 | 6 comentários |

O senhor Onofre sonhou com o dr. Reis toda a noite; onde este o perseguia com os outros heterónimos e lhe gritava impropérios e o insultava furibundo. Uma descompostura nunca vista, uma humilhação ímpar. Que mal teria ele feito ao poeta, pois se mal se conheciam.
Abriu a janela do quarto e sentiu o ar de maresia encher-lhe a casa. Sentou-se à secretária antes da quebra do jejum e escreveu sem tino:

Vem deitar-te comigo Lídia, à beira mar.
Massaja-me as têmporas de ressaca que eu lambo-te as feridas abertas.
O mar molha, de cima abaixo o corpo já de si húmido, salgado.
Deixa o tempo passar Lídia, à beira mar, como se o tempo não passasse.
Só existe um tempo à beira mar, Lídia, Agora.
Vem deitar-te, Lídia, e esquece-te comigo
descomprometida da história, da vida e de tudo.

Não era uma homenagem ao poeta, nem sequer uma qualquer forma baixa de plágio. Era vingança apenas, da pura: não se persegue um homem assim; uma noite inteira, aos gritos.