Asneira

| terça-feira, 17 de abril de 2012 | |

Sai do banho e cometi uma das maiores anseiras da minha vida: desfiz a barba. Senti-me despido. Uma brisa incómoda e estranha atravessou todo o meu ser. Lembrei-me depois que estava efectivamente despido e vesti-me. Mas já não era o mesmo. O indivíduo que se levantou de manhã não era o mesmo que saía de casa agora; tinha havido uma evolução. Cortei cerce com o passado cro-magnon e revesti-o de bálsamo perfumado homo sapiens. Na rua ninguém me reconhece. A cara descoberta encobre paradoxalmente a minha entidade, sou outra pessoa. O carteiro não me reconhece, nem a menina no café; eh lá, pensei, olha que isto ainda é capaz de ter as suas vantagens. Não mais vou ter que aguentar as desmesuradas secas que o maluquinho da bola me dá todos os dias, junto ao quiosque, quando compro o jornal. Dou-lhe os bons dias e ele embrenhado nas páginas sebentas do benfica-sporting-porto, não retibui, grunhe apenas.
Ao passar em frente de uma loja reparo com o canto do olho que sou acompanhado por um esbelto jovem modesto, quem será, interrogo-me. Viro-me repentinamente e apercebo-me que o jovem não passa da minha própria imagem reflectida na montra. Olha que surpresa agradável, inclino-me para frente e cumprimento-me respeitosamente, o duplo faz o mesmo.
Como se de um verdadeiro estranho se tratasse ninguém me reconhece no local de trabalho. Mas se sou eu, reclamo. Eu também sou eu, diz-me um, eu somos todos, atira outro. Mas eu sou mesmo eu, sou aquele eu que estava aqui ontem, afirmo veementemente. Aquele que estava aí ontem era outro, responde o chefe de secção. Outro que sou eu! Gritei já um pouco irritado. Se é outro não pode ser voçê, além do mais ainda há pouco disse que era eu. E nisto chamou a Segurança. Fui arrastado para a rua por dois gorilas que me empurraram porta fora sem apreço maior pela minha identidade. O dia não me está a correr nada bem, cogitei por momentos. Olha do que eu me havia de lembrar logo de manhãzinha, eu e as minhas ideias idiotas, agora nem sou eu nem o outro; havia de cair-me um piano em cima por cada asneira que faço na vida.
De caminho para casa sou atingido por algo. Olho para trás e não vejo ninguém, aliás, toda a rua está deserta. Agacho-me para examinar o estranho objecto quando sou atingido outra vez, tu queres ver, tu queres ver, irrito-me um bocado. Olho para o céu e toda a pele se me arrepia em modo galináceo: do nada começara a cair uma chuva forte de pianos de cauda.

9 comentários:

luisa Says:
17 de abril de 2012 às 22:46

Pois se foste tu quem pediu um piano de cauda...

El Matador Says:
17 de abril de 2012 às 22:55

pois é, há deuses que castigam logo.

Briseis Says:
18 de abril de 2012 às 16:18

O Tim Burton era capaz de fazer um filme genial a partir disto... Tu tens qualquer coisa, meu rapaz! =) ...e, aqui entre nós, para toda esta gente que se anda a queixar da chuva, que vem em má época... Tomem lá agora pianos de cauda! Essa é que era!

El Matador Says:
18 de abril de 2012 às 20:00

essa do Tim Burton é interessante, até porque o Johnny Depp poderia perfeitamente fazer o meu papel.

Brown Eyes Says:
18 de abril de 2012 às 20:14

Desfazer a barba é suficiente para alterar toda a fisionomia. Muito interessante esta história. Dava jeito choverem pianos. Beijinhos

El Matador Says:
18 de abril de 2012 às 20:22

dava jeito chover uma banda inteira, pra animar a malta.

ditonysius Says:
19 de abril de 2012 às 18:50

"Pai! Posso estar aqui, a ver-te tirar a neve da cara?" diz-me o filhote...
Coço o cabelo, com estranheza,... desejando que ele não me imite. a médio prazo.
"Claro! Porquê?"
"É que tu picas, como o picante!"

Apologista de quem odeia a barba, ... sem dúvida! É uma reacção em cadeia, ... que desencadeia.

Um abraço do Canto de Cá ...

desejo Says:
21 de abril de 2012 às 22:51

foi por cortares a barba que a chuva veio. estava a fazer falta El Matador, o homem que mata todas as hipóteses de ser ele próprio, e aos outros.


:)

El Matador Says:
22 de abril de 2012 às 20:49

por acaso aqui a chuva não veio com o corte de barba, isto nem sempre resulta :)