O Embarcadiço

| segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010 | |
O senhor Mirobaldo estava sentado num banco de jardim, o olhar vítreo, os ombros descaídos e a natureza apagada. Olhava fixamente os pombos na sua azáfama diária de pombo, sempre a levantar vôo e a aterrar de seguida para comer pedaços de pão que outros, como o senhor Mirobaldo, lhes atiravam. Desde que uma vez havia comido um pombo passara a detestar o animal. Passara-se noutros tempos, quando era embarcadiço, cheio de vida, cheio de força, aventureiro e uma vontade avassaladora de conhecer o universo. Agora estava capaz de pagar ao pombo para que este lhe desse um pouco de atenção e lhe cagasse em cima. Quem passava, via apenas velhos à espera de morrer, montes de ossos a fazer sombra e peso (pouco) no jardim.
Na sua juventude atravessara o oceano várias vezes, para cima e para baixo, de um lado para o outro, era a sua vida: o movimento. Criara raízes em terras da Argentina assim como na lusa pátria. Nunca se casou mas manteve duas famílias, uma lá e outra cá. Gostava de ambas com a mesma intensidade, a mesma paixão com que fazia tudo; se havia música, dançava – era este o seu lema. Não conseguia ficar quieto durante muito tempo, para grande mágoa de ambas as mulheres que, não desejavam mais do que contrair o sagrado matrimónio aos olhos do Senhor. Ele, por seu lado, não podia estar mais desinteressado nos desígnios do Senhor, e se estava lá com a sua crioula que tanto amava, desatava a ter saudades da sua castiça e logo abalava outra vez mar adentro, embalado no movimento das ondas, que era o seu carrossel favorito. Gostava daquilo; do vento salgado a fustigar-lhe o rosto, da pele curtida, da boca gretada pelo sol, do mar revolto em desafio.
No jardim sentia-se enjoado; nada se mexia. Olhava em volta e via os outros velhos também eles quietos. Estava tudo parado; apetecia-lhe vomitar. «É isto a velhice...» suspirou «...os bancos de jardim não navegam».

Para a Fábrica de Letras - Velhice

25 comentários:

Brown Eyes Says:
1 de fevereiro de 2010 às 21:44

Não sei a tua idade, mas pelo que descreves, como o descreves nota-se um grande conhecimento deste problema: a velhice. Para alguém que viveu é chocante ver-se sem puder viver porque o seu corpo deixou de estar unido ao seu espírito. A maneira como descreveste esta vida deixa marcas em quem a lê mesmo naqueles que ainda estão longe da velhice. Parabéns. Beijinhos

El Matador Says:
1 de fevereiro de 2010 às 21:58

Obrigado Brown Eyes. Ainda estou um bocado longe desta velhice, como tu, imagino.

johnny Says:
1 de fevereiro de 2010 às 22:06

E no entanto muitos velhos esperam ansiosamente que esses bancos de jardim os levem para algum lugar.

roserouge Says:
1 de fevereiro de 2010 às 22:24

Muito triste, este conto. Não gosto da palavra "velho" nem "velhice", acho demasiado redutor e descriminatório. Uma vez li no livro "Uma Casa do Fim do Mundo" de Michael Cunningham que a razão pela qual os mais idosos gostam de viver no deserto é porque não sentem tanto o tempo a passar. A paisagem e o clima mantêm-se inalteráveis ao longo das quatro estações do ano. Como se o tempo tivesse parado por completo. Sentem-se seguros e confortáveis. Como se pudessem adiar a morte. Fiz-me entender?

El Matador Says:
1 de fevereiro de 2010 às 23:05

@Johnny: Alguns esperam até ao fim.

@Roserouge:Perfeitamente.

meldevespas Says:
2 de fevereiro de 2010 às 16:22

é a inércia dos bancos do jardim, dos bancos dos lares, do fim da vida activa, que provoca esse vómito, neles que chegaram a essa idade, e em nós que caminhamos para lá sem esperança de dias melhores.
Muito bonito.
Beijinho

El Matador Says:
2 de fevereiro de 2010 às 21:09

Obrigado Meldevespas.

Eva Gonçalves Says:
2 de fevereiro de 2010 às 22:34

Há quem goste de navegar... e há quem goste de estar quieto no seu canto(ou banco de jardim...), mesmo na juventude! Há quem anseie um banco de jardim... sossego depois de uma vida de trabalho e tempo para desfrutar do que não pode na juventude...não os mares nunca antes navegados, não as terras longínquas, não o rodopio da cidade, mas a quietude... a amizade entre convivas num banco de jardim, uma tarde solheira a ver o rio... e regresar a casa feliz por não estar a navegar. Perspectivas ... mas gostei do texto, porque ele retrata acima de tudo, o medo de quem ainda não envelheceu ou uma vekhice resignada, indeejada, triste(mas não são todas assim, I hope)! :) Bjo

El Matador Says:
2 de fevereiro de 2010 às 22:42

É como dizes: perspectivas. Neste caso é a de alguém que gostava do movimento, e do mar.

Catsone Says:
3 de fevereiro de 2010 às 00:04

Os outros velhos ao lado certamente teriam suas próprias histórias para contar, certo?
A velhice nada mais é do que esse acumulo de experiências. Um velho é um livro, bem ou mal escrito, a espera de que alguém o retire da estante do esquecimento.
Gostei muito deste teu texto.

El Matador Says:
3 de fevereiro de 2010 às 08:38

E algumas dessas histórias são das mais surpreendentes que se pode imaginar; davam os melhores filmes.

brita Says:
3 de fevereiro de 2010 às 08:40

tipo "estou bem onde não estou pk eu só quero ir aonde não vou" (ou qualquer coisa do género)
bj

El Matador Says:
3 de fevereiro de 2010 às 10:49

Também pode ser visto dessa forma, sim.

Teresa Says:
3 de fevereiro de 2010 às 14:28

Acho que temos tendência a ver só o lado triste e abandonado da velhice.Mas não tem de ser assim. Conheço velhos cheios de graça e de actividades, que se recusam a terminar, e conheço jovens ancorados em bancos de jardim, verdadeiros ou virtuais.
Bjs

El Matador Says:
3 de fevereiro de 2010 às 15:13

Tens toda a razão, mas é assim, eu ou tendo para o lado mais cinzento da questão ou então para o lado mais cómico, e desta vez calhou o lado cinzento.

Lala Says:
3 de fevereiro de 2010 às 22:11

Ao ler este texto recordei a história do Sr. Luís. Fiz voluntariado num lar de idosos há uns anos e o Sr. Luís era um "velho" castiço, atiradiço e muito engraçado. Fartava-se de navegar. Dei com ele inúmeras vezes sentado no sofá do salão a olhar para a janela e a falar com "amigos navegantes"
-"Sabes minha negrinha (era assim que me tratava)gosto de recordar. E a melhor maneira de recordar que um dia fui feliz é reviver tudo outra vez... enquanto tenho tempo! Olha! Estás a ver?? Terra à vista!! É ali que vou desembarcar e embaraçar-me nos braços da minha mulher!" - isto dizia-me ele, vezes sem conta entre um cigarrinho e outro que fumávamos às escondidas!

Excelente este teu texto El Matador! Parabéns e obrigada por me fazeres recordar o Sr. Luís!!

El Matador Says:
4 de fevereiro de 2010 às 00:07

Eu é que te agradeço por teres partilhado aqui a história do sr. Luís.

Joaninha Says:
4 de fevereiro de 2010 às 14:46

Fiquei com a lágrima no canto do olho...Está excepcional...

beijos

El Matador Says:
4 de fevereiro de 2010 às 15:10

Como na música...

Beijos

Sinhã Says:
5 de fevereiro de 2010 às 23:48

e navegar é preciso.

(mas aqui navega-se).:-)

El Matador Says:
8 de fevereiro de 2010 às 15:52

...na maionese.

Fia Says:
9 de fevereiro de 2010 às 21:49

Cinzento profundo este teu texto. Muito bom

El Matador Says:
9 de fevereiro de 2010 às 22:10

Obrigado Fia.

Gingerbread Girl Says:
11 de fevereiro de 2010 às 14:43

A questão que se impõe é... ele ficou inerte "cá" ou "lá"? :p


**

El Matador Says:
11 de fevereiro de 2010 às 15:32

Olha que ainda não tinha pensado nisso; boa pergunta.