A Campainha Paradoxal

| segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010 | |
Abrenúncio acordou sobressaltado com o toque da campainha da porta. Um toque insistente e irritante, como só as campainhas o sabem ser em manhãs de ressaca. Um berbequim a perfurar-lhe os tímpanos teria surtido o mesmo efeito.
Levantou-se como quem se arrasta e arrastou-se como se pagasse uma promessa; Quem seria logo de manhãzinha? “Há-de ser o carteiro!” O carteiro, quando o tempo o permitia, gostava de ficar à conversa com Abrenúncio; discutiam mecânica quântica, a teoria das cordas, os universos paralelos, as onze dimensões, e às vezes filatelia.
Assomou-se da varanda para baixo e para grande espanto seu, quem premia insistente o botão da campanhia era ele: Abrenúncio. Descalço, em tronco nú, só com as calças do pijama, a tiritar de frio. “Ah! Um prodígio” - Felicitou-se. Estava a assistir a uma aberração da natureza, daquelas que poucas pessoas têm a oportunidade de experimentar na vida.
Desceu as escadas a correr com um sorriso rasgado nos lábios, já nem se lembrava da ressaca, esta era uma oportunidade única para tirar vantagem sobre o carteiro que se presumia douto em matérias da Física. Abriu a porta entusiasmadíssimo mas já não se encontrou. Transpôs a ombreira e já no passeio pôs-se a chamar por si próprio, mas não se deu resposta.
Uma rajada de vento gelado levantou-se e arrancou de Abrenúncio um valente espirro; já se tinha constipado por menos, pensou. No mesmo instante a porta de casa, vítima de uma corrente de ar,  fecha-se e deixa Abrenúncio do lado de fora: em tronco nú, descalço, só com as calças do pijama, a tiritar de frio. “Malditos ajustes da realidade”- resmungou e espirrou de novo, desta vez com mais força, a constipação era certa. Não podia ficar por ali naqueles preparos, e, sem se aperceber do absurdo da situação, encostou o dedo à campainha e tocou insistentemente. Lá dentro, no quarto, Abrenúncio acordava sobressaltado com o toque da campainha da porta.

12 comentários:

brita Says:
16 de fevereiro de 2010 às 16:44

muito bom
um sisifo nos dias de hoje

El Matador Says:
16 de fevereiro de 2010 às 17:06

constipado :)

roserouge Says:
17 de fevereiro de 2010 às 22:02

Se um Abrenúncio incomoda muita gente... :D

El Matador Says:
17 de fevereiro de 2010 às 23:22

Eh, eh, eh...

Lala Says:
18 de fevereiro de 2010 às 00:03

Eu bem sabia que este Abrenúncio tinha qualquer coisa de estranho...!!:D
..
Enquanto lia imaginava-me [gosto de imaginar o que leio]. E acho que o entendo. Talvez o Abrenúncio simplesmente andasse a tentar encontrar-se!

Beijinho**

El Matador Says:
18 de fevereiro de 2010 às 08:31

Como os cães quando correm atrás da cauda.

Joaninha Says:
18 de fevereiro de 2010 às 11:45

Gostei do facto de ele discutir mecanica quântica e por vezes filatelia...Com o carteiro of all people!

Um carteiro douto em coisas da fisica...Realmente um mundo paradoxal esse do Abrenuncio...Ele estar a tocar à sua própria campainha é mais provavel...

Adorei como sempre...Olha vê lá se escreves uma coisa mais "fraquinha" para eu poder criticar ;)

El Matador Says:
18 de fevereiro de 2010 às 11:58

Eheh, eles são fraquinhos muitas vezes, a tua boa vontade é que é enorme.
:)

Lala Says:
20 de fevereiro de 2010 às 12:53

Exactamente! Tipo cão a correr atrás da sua própria cauda!! Excelente comparação!! E... obrigas-me a concordar com a Joaninha... dá para escrever algo mais 'fraquinho'?? (a resposta que lhe deste a ela... eu não vou aceitar)!!

Beijinho****

El Matador Says:
20 de fevereiro de 2010 às 13:53

Vocês estragam-me assim :)

roserouge Says:
22 de fevereiro de 2010 às 09:17

Elas estragam-te com mimos, pequeno! E tu ralado, oh oh!!

El Matador Says:
22 de fevereiro de 2010 às 09:42

eh,eh