O Aborrecimento

| segunda-feira, 30 de novembro de 2009 | 2 comentários |
Romualdo sabia que naquele dia se ia aborrecer. Acordou bem disposto, cantou no duche, desfez a barba com uma lamina nova e tomou um pequeno-almoço reforçado. Vestiu a sua melhor farpela, que ao mesmo tempo era a única que estava lavada e saiu de casa sabendo de antemão do aborrecimento que o aguardava. Havia algo que o puxava para aquela reunião, uma atracção mórbida que o seduzia sobremaneira. Ao mesmo tempo estava feliz por sair de casa; entre os livros e as conversas com Speedfreak, o cão, estava curioso de saber se ainda sabia falar humano, melhor, se ainda era reconhecido como um deles.
O seu isolamento deu-se numa altura em que a humanidade o deixou doente, fisicamente doente e mentalmente exaurido. Jurou que nunca mais iria abdicar dos seu feitio sui generis, estapafúrdio aos olhos do observador ocasional, por uma posição de conforto numa congregação de bandalhos mentecaptos, bêbados de sobranceria. Comprou ração para o cão e fechou-se em casa consigo mesmo, o seu melhor amigo. Naquele dia porém impunha-se um regresso anunciado e um sacrifício aos deuses da estultícia.
Chegou e sentou-se a um canto como que para não ser reconhecido, mas a forma como olhava para tudo e todos com desinteresse cedo o denunciou. A bajulação, a hipocrisia, a baixeza, a vilanagem; foi uma insana comédia a que se desenrolou à sua volta. Era o que ele esperava, tudo tal e qual como antes. Tinham passado dez minutos quando a profecia se cumpriu: estava aborrecido.

Crime Sem Importância

| terça-feira, 24 de novembro de 2009 | 2 comentários |
Quando a D.Ermelinda entrou em casa deparou-se com um espectáculo que ia do caótico ao grotesco. A sala estava toda desarranjada e no meio do chão, espalhado por todos os lados, estava Abrenúncio em cacos. A sua primeira reacção foi ir à cozinha e colocar as luvas de borracha com que costumava lavar a loiça, era muito importante não contaminar a cena do crime se é que tinha havido um. Pôs os óculos escuros e desatou a avaliar a situação. Segurou com cuidado uma orelha de Abrenúncio, que jazia junto ao móvel da televisão, aproximou-a da boca e mandou dois dos seus gritos mais estridentes: nada. Olhou em volta com um ar perscrutador e decretou: «Hummf! Isto não vai lá nem com super-cola 3.» Estava portanto para além de qualquer remedeio físico. Passeou-se lentamente por entre os destroços em busca de sinais de delito mas não os encontrou. Aliás, as garrafas vazias de vodka contavam bem a história: «O homem estava emocionalmente danificado»- diagnosticou a D.Ermelinda cujo marido era mecânico e uma vez consertara o carro de um psicólogo. Pela parte que lhe tocava o assunto estava arrumado, só havia ainda uma medida a tomar: foi buscar a vassoura e varreu os restos de Abrenúncio para debaixo do tapete.
À saída, mirou-se ao espelho que estava à entrada, tirou lentamente os óculos escuros, voltou a colocá-los na cara e com as mãos nas ancas proferiu com uma voz grave: «Foi...Uma limpeza!»

Aquilo

| sexta-feira, 20 de novembro de 2009 | 4 comentários |
A descida de Zeferino ao inferno começou no dia em que chegou ao paraíso. Pensando que ia encontrar o fim do caminho, a última paragem, a estação de repouso, Zeferino deparou-se com aquilo que todos encontram quando chegam ao topo: o caminho inverso. Por isso começou a descer. Pelo caminho, que iniciou depois de acender um charuto, pôs-se a relativizar:«Ah! Quão mau pode ser o inferno?» Era tudo uma questão de ponto de vista, afinal, muitos dos defeitos apontados ao diabo eram as suas melhores qualidades. As pessoas em quem se tinha apoiado na sua subida vertiginosa abriam agora alas para que descesse mais rápido, sem atritos. Não os reconheceu. Cruzou-se com a mulher e os filhos que não lhe retribuíram a saudação ao percorrem o caminho contrário:«Não me devem ter visto» desculpou Zeferino a família. De certa forma tinha razão, não o tinham reconhecido sem as suas roupas, os seus acessórios, a sua tecnologia de ponta e o seu característico charuto. «O meu charuto?» apercebeu-se Zeferino que já não o tinha quando chegou ao inferno. Cedo deu-se conta que não era só o charuto que lhe faltava, era tudo. Não tinha forma sequer, era só pensamento. Um pensamento que pairava mas não progredia, era vazio, estéril. Já não era Zeferino sequer; era aquilo. Tudo era branco e o diabo não havia.
«O inferno sou eu!» Foi o último raciocínio lógico que observou.

A Revolução

| terça-feira, 17 de novembro de 2009 | 9 comentários |


Compareceram todos na praça velha, junto ao edifício antigo do Governo Civil, que parecia aborrecido com mais aquele ajuntamento rebelde a conspurcar-lhe as paredes intemporais. O que fazer? Era o único posto representativo da autoridade que conheciam, e, se queriam começar uma revolução, que melhor sítio para mandar pelos ares do que aquele? A agitação era constante, haviam movimentações desordenadas, homens com o cenho franzido treinavam poses de indignação, outros corriam de um lado para o outro a reagrupar uns poucos que se tinham tresmalhado para fumar cigarros. Tinha que haver união porra, senão a coisa não avançava. Depois de muitas considerações “engenheiras” sobre qual seria o melhor local para pôr o barril de pólvora, foram unânimes em colocá-lo à porta do edifício. Inseriram o rastilho e pronto, logo se excitaram no ar as bandeiras da revolta.
- Pela Lei e pela Grei – Gritou Abrenúncio-O Simples, e levantou alto a tocha que poria em marcha a sublevação.
- Pela quem? - Inquiriu Romualdo que estava nas filas de trás e ouvia mal.
- Pela Grei – repetiu Ildefonso.
- O que é isso?
- É o povo, somos nós – Explicou Ildefonso a uma pequena multidão que rapidamente se ajuntara para escutar a “descomposição” da malfadada palavra que nunca ninguém tinha ouvido.
- Nós somos a Pelagrei? - Resmungou Anacleto desconfiado.
- Diz que sim – Confirmou Labregoísio encolhendo os ombros. E de repente, como se tivessem sido ensaiados  largaram todos a uma só voz:
PELAGREIPELAGREIPELAGREI-...
Abrenúncio, sentindo finalmente o apoio da chusma, incendiou o rastilho e  todos se acocoraram abrigados à espera do estardalhaço que por aí viria.
O estardalhaço chegou sem dúvida mas não passou disso. A porta permaneceu intacta, aborrecida como sempre, sem ceder um mílimetro que fosse aos rebeldes. A "comissão de engenheiros” reuniu-se de novo e chegou à conclusão que a pólvora usada fora a seca, a que costumavam usar nos dias de festa. E agora? Já não havia maneira de arranjar pólvora boa àquelas horas. Abrenúncio–O Simples, como líder nato que era declarou:
- Meus amigos! A Revolução fica para a próxima quarta-feira à mesma hora - E dito isto a multidão debandou lentamente e a praça ficou vazia com o edifício do Governo Civil a rir-se baixinho. Chegaram todos a casa à hora do jantar. O dia seguinte era dia de trabalho e o trabalhinho é muito bonito.

Nunca Mais

| domingo, 15 de novembro de 2009 | 14 comentários |
Há muito que todos se tinham ido embora. O homem ficara sozinho naquele mundo a preto e branco, um mundo antigo cheio de coisas do outro tempo e de modos e costumes que já não se usavam. Porque ficara só nesta existência de dois tons? Era a pergunta que repetia a si próprio. Também não sabia responder. Havia algo naquela existência que o acalmava, os planos policromáticos assustavam-no; ele que não gostava muito tomar decisões entre isto e aquilo, e a quem o cinzento já fazia confusão, apavorava só de imaginar as múltiplas radiações do arco-irís. Os outros falavam-lhe das maravilhas do espectro da luz, de como todas as cores eram belas e das múltiplas possibilidades que advinham da sua combinação, mas ele, que era igualmente daltónico a tudo o que não fosse a sua convicção fechava-se em teimosia e recusava-se a partir para a outra margem. A pouco e pouco a Cidade foi ficando deserta e quando os últimos resistentes deram o salto para o lado de lá, o homem ficou irremediavelmente sozinho naquela vida que tinha escolhido para si. Não tinha vocação para solitário e quando vagueava pelas ruas, discursando sozinho e discutindo com as figuras imaginárias que outrora foram os seus amigos sentia-lhes a ausência. Gritava impropérios numa rua vazia e o eco devolvia-lhe a sua angústia monocórdica.
Um dia caminhou rente à fronteira que separava os dois mundos como que a testar a sua perseverança e o destino (que não gosta que o ponham à prova) colocou-lhe uma pedra no caminho onde ele tropeçou. A gravidade, que também não estava para meias medidas, puxou-o com violência. Caiu estatelado de braços abertos desenhando no chão uma figura circense algo patética. Sentiu que sangrava e levou a mão à boca, os dedos recolheram uma amostra, era vermelha.
O mundo à sua volta depressa o inebriou. Sentiu-se tonto e ao mesmo tempo desperto. Sim era verdade, as possibilidades eram infinitas e havia esperança. Nunca mais serei fiel ao meu estranho fado jurou a si próprio e quando se levantou já era uma pessoa a cores.

Para a Fábrica de Letras - Preto e Branco

O Descalabro

| quinta-feira, 5 de novembro de 2009 | 2 comentários |
Era fraca a conversa e compararam-no a Gulliver – O gigante. Ele respondeu que não, não era um gigante, os liliputianos é que eram pequeninos por serem tão mesquinhos. Ele tinha um tamanho normal, passava despercebido na multidão, era anónimo e já não estava no seu primor. O seu tempo havia acabado e não, não se dão segundas chances a ninguém, só nos filmes. Agora discursava de gosto, era o que acontecia sempre bebia umas a mais. Nos filmes, continuava ele, «o rapaz é sempre muito bonito e bem educado, e está sempre com um problema, o problema do rapaz é ser bonito e ninguém gostar dele. Geralmente no fim há um twist, um volte-face e toda a gente assume que sim, porra, o rapaz é mesmo giro e, do nada, surge uma rapariga tão bonita quanto ele e depois casam-se e vão-se embora em câmara lenta. Na vida real, na estúpida da realidade...», gritava agora, «...o rapaz em abono da verdade é uma aberração que até dá dó olhar para ele, um estafermo de raça lobo, ninguém o vem buscar, os problemas não se resolvem: acumulam-se! Não há rapariga em câmara lenta, não há twist e no fim morre-se de cancro». Bebeu mais um longo trago, desta vez directamente da garrafa e encostado ao bar continuava a vociferar:«Já não há pensamento crítico, já ninguém pensa por si próprio, onde é que está o filosofar espontâneo? Temos alguém que nos diz o que fazer, para onde ir, e melhor: o que comprar. Ao domingo depositamos um bilhetinho na ranhura de uma caixa e pronto, vamos para casa satisfeitos, já não precisamos de pensar em mais nada: a nossa missão está cumprida. Feliz natal.»
A reacção dos convidados à sua volta dividia-se em duas: aqueles que concordavam com ele mas abanavam a cabeça com pena de o ver naquele estado deplorável e os que viam nele só mais um bêbado a uivar à lua. O certo é que naquela noite, e para infortúnio dos anfitriões, ele decidira despejar a sua alma ao mesmo tempo que se encharcava em vodka.
«Enfileirem-se carneiragem! Sigam o vosso pastor! O caminho é estreito e curto e o destino é o matadouro.» Estas palavras já as proferiu sentado no chão. Meteu a cabeça entre os joelhos e começou a chorar. Uma senhora mais ou menos da sua idade acercou-se dele e ajudou-o a levantar-se. Conduziu-o até à porta de saída. Não era bonita.

O Primeiro Amor

| quarta-feira, 4 de novembro de 2009 | 2 comentários |
Apaixonou-se por ela mal lhe pôs os olhos em cima. Era de manhã e tinha ido comprar o jornal para o seu pai ao quiosque do senhor João como era hábito. E de repente lá estava ela, com aqueles olhos grandes como se chamassem por ele. Era a primeira vez que uma moça tão bonita aparecia num sítio de esquecimento e abandono como era aquele. Encostou-se à banca do senhor João e sentiu que ela o observava fixamente. Corou. Recebeu o troco das mãos do vendedor e largou a correr para casa como se fosse perseguido por algo que não conseguia explicar. Era aquilo o amor? Devia de ser. Cada vez que pensava nela o coração acelerava arrítmico, sentia um frio percorrer-lhe a espinha, suava e tremia das mãos:«É o amor é, o meu pai já me tinha dito que era igual à gripe.»
No dia seguinte para seu espanto e alegria e um bocadinho de terror, encontrou-a no mesmo sítio, à mesma hora. De pernas bambas, e com um nó do tamanho dum camião TIR a atravessar-lhe a garganta, engasgou-se ao pedir o jornal.«Então pá, 'tas bem ou quê?» O senhor João que topara a cena toda logo ao primeiro dia divertia-se a fazer pouco do embaraço do moço. Em casa, no seu quarto, já mais calmo fez uma promessa a si próprio: «Amanhã, se ela lá estiver, tomo uma decisão. De amanhã não passa.» Logo pela manhãzinha, como sempre, dirigiu-se à praça e encostada à banca do senhor João, lá estava ela, parecia que o provocava cada vez mais. Comprou o inevitável jornal e depois, com assombros de timidez apontou o dedo para ela a tremelicar e balbuciou:«Era também...» O senhor João, que já estava careca de saber o que ele queria, não o deixou acabar a frase e entregou-lhe a Playboy Portugal, que estava no expositor com a rapariga dos seus sonhos na capa: «Estava a ver que não ó rapaz, ah!ah!ah!» Ele, contente consigo próprio, saiu esbaforido e foi aninhar-se à sombra da sua árvore preferida. Ao fim da tarde já ele conhecia a sua paixão, o seu primeiro amor, como a palma da mão.

O Faroleiro

| terça-feira, 3 de novembro de 2009 | 2 comentários |
Olhava o mar e esperava: algo ou alguém, não sabia. Ela, sempre optimista discorria sobre as inúmeras hipóteses de saída para uma situação que não era de todo desesperante - incentivava-o. Era uma constante das suas alucinações, reflectia ele, eram sempre femininas e optimistas. Há muito que desistira de lhes dar ouvidos. Sentia-se bem, em forma, o isolamento ainda não lhe afectara as articulações, a gravidade era a mesma em toda a parte. Mas a vontade era a de se deixar estar, naquela ilha junto ao farol, a ver o mar e esperar. «Vá lá pá!!!» exortava-o ela nas suas conversas imaginárias «parte uns pauzinhos, faz uma fogueira...». Ele respondia com o silêncio de quem já se habituou a não falar, para quem uma conversa não passava de ruído de fundo, um ruído que vai e vem com a marulhada. À distancia, para quem o olhasse através dum monóculo, numa tentativa vã de o descobrir, parecia um ser decente, afável talvez, mas quem o observasse mais de perto e com atenção logo daria com o sinal que alertava: produto defeituoso.
Subiu ao farol e maravilhou-se com a violência das vagas. A fúria da natureza era o seu espectáculo favorito; os trovões, as tempestades, os cataclismos.
Gostava de pensar que tinha nascido para faroleiro, a profissão tinha as suas medidas exactas: a solidão e o afastamento. A luz guiava-os a todos e ele controlava a luz.