Páginas

A Busca

| quinta-feira, 8 de abril de 2010 | 10 comentários |
Esmeraldina sugeriu (em tom de desafio) que conseguiria encontrar Romualdo, em qualquer parte do mundo, mesmo que este se escondesse no mais recôndito e inacessível dos lugares. Romualdo primeiro riu-se à gargalhada, mas depois, e como se ela não arredasse da ideia, aceitou o réptil. Esmeraldina era conhecida por esse mundo fora pelos seus dotes de investigadora. Era capaz de encontrar uma agulha num palheiro cheio de agulhas, dizia-se. Uma vez encontrou um homem perdido ainda antes de este perceber que estava perdido. O seu currículo era vasto e Romualdo sabia-o, no entanto julgava-se capaz de escapar àquele faro de raça lobo. A resposta estava no mundo virtual, mais propriamente na blogosfera. Pensava ele que ali estaria a salvo por tempo indefinido, entre poesia, fait-divers, fotografia, design, política, enfim, entre todo um mundo que, de tonitruante e sinuoso não deixava nada a dever à balbúrdia do mundo físico. Se bem o pensou, melhor o fez: com um clique rápido abriu o browser, acedeu ao blog do El Matador, escreveu a palavra passe e num estante cá estava ele, estendido ao comprido. Mal cá chegou descalçou logo os sapatos, parece que gosta de andar descalço na internet, agarrou nuns pedaços de bytes que encontrou espalhados pelo chão e com as mãos que vos escrevo deixou o seguinte recado para Esmeraldina:

Se me estás a ler é porque me encontraste.
Se não me encontraste, estou aqui.

A Conta

| quarta-feira, 7 de abril de 2010 | 4 comentários |
The piano has been drinkin'...

Levantou-se à rasca depois de mais uma noite perdida entre vielas escuras a cheirar a mijo, adolescentes bêbados, polícias brutos, atendimento do pior e música de péssima qualidade. A vida aqui já não é a mesma, pensou. Já não há a alegria ébria de outrora; tudo é forçado, de plástico, em copos minúsculos a arder. «Os problemas resolvem-se à chapada!» viu escrito numa parede, e esta era a frase que explicava todo um estado de espírito noctâmbulo. A bebida bebe-se depressa, sem tempo a perder, há que circular enquanto as pernas ainda andam. Correu para a casa de banho e vomitou os restos do enjoo da noite que, acabara não havia muito tempo. Agora as noites terminam não raramente, para alguns, no hospital; será isto um aviso para abrandar, fazer sinal com o pisca e encostar à berma? «Um dia ainda havemos de nos embebedar por osmose, ou por telepatia, sem sair de casa», o corpo descansava mais é um facto. O que o preocupava mesmo era a memória. A memória, meu Deus, estava cada vez mais... mais...mais o quê? Esqueceu-se do que ia a dizer.
Teria a festa acabado? Era bem provável; os restos apontavam cansaço, depressão e esquecimento. Estava na altura de pedir a conta.

...Not me

O Sacrifício

| terça-feira, 6 de abril de 2010 | 5 comentários |
Foi com desconfiança que Abraão subiu os montes Moriá com o seu filho ao encontro de Deus. «Que me quererá Ele agora?» conjecturava em silêncio Abraão do alto dos seus cento e poucos anos. A subida era lenta e dolorosa devido à provecta idade do patriarca. Isaac, o filho, por seu lado divertia-se como podia; brincava com o cabrito e atirava pedras ás gralhas que tendiam em agoirar a empresa, com o seu voo raso e o gralhar irritante. Era um criança forte e despreocupada, tinha uma vida inteira pela frente carregada de aventuras, prosperidade e outras tantas glórias, o seu nome certamente iria ser recordado por éons de tempo porvir. Um verdadeiro milagre aquele filho – pensava Abraão – Uma verdadeira dádiva. Ele e a mulher riram-se quando receberam a notícia, e com razão. Ele, um velho de noventa e nove anos a passos largos dos cem, ela, uma senhora já na casa dos noventa com a agravante de ser estéril; não, não podia ser possível, e no entanto ali estava ele, cheio de vida, massacrando as gralhas e rindo-se do mundo. «Que me quererá Ele?»
Chegado ao cimo do monte, Abraão, erigiu um altar e sobre ele colocou lenha de modo a proceder-se a um sacrifício, como lhe tinha sido instruído. O ribombar de um trovão e o escurecer do dia era sinal que Deus tinha chegado, Abraão descobriu a cabeça e ordenou a Isaac que fizesse o mesmo.
-Abraão! - Trovejou Deus – Quero que me ofereças o teu filho em sacrifício.
Abraão estremeceu, estava à espera de tudo menos daquilo. O filho, o seu querido filho, por quem ele esperara tantos anos, o milagre da sua vida, o orgulho e resplendor da mãe.
-Não – respondeu Abraão sem certeza do que dizia, os seus ouvidos não acreditavam na sua voz.
-NÃO??? - Enfureceu-se Deus – Como te atreves? Posso destruí-lo com um piscar de olhos.
-Assim será Senhor, mas não com a minha ajuda, aliás, tudo farei para que tal não aconteça e darei a minha vida se para isso for preciso; é em função dele que vivo, se o levares a ele terás que me levar a mim também pois sem ele não sou ninguém. Faço tudo por ti meu Deus, mas isso não me peças, isso é anátema, não consigo. Deixa-nos ficar e ganharás dois fieis servidores em vez de um só, ou nenhum, pois se mo levares não mais te poderei seguir em consciência.
Deus saiu irritado da mesma forma que chegou, num trovão. Abraão e Isaac ofereceram em sacrifício o cabrito que os tinha acompanhado na subida. Foi um primeiro acto de desobediência civil que selou para todo o sempre o amor que os pais sentem pelos filhos; ensinou os homens a não cometerem todo tipo de atrocidades ainda que estas lhes sejam impostas pela autoridade vigente.

Mil Folhas

| domingo, 4 de abril de 2010 | 6 comentários |
“Quão pouco é preciso para ser feliz! O som de uma gaita.
Sem música a vida seria um erro.”
Friedrich Nietzsche


Alambáceo, o sem-abrigo acordou a babar-se. Deitado no chão, apenas um pedaço de cartão o separava da calçada. Sonhou que estava a comer um mil-folhas enquanto bebia uma coca-cola. «Estarei grávido?» perguntou-se, «Não, não pode ser, essas coisas só acontecem às mulheres». Arrumou o chão, varreu a calçada com o boné e guardou a “cama e a mesa-de-de cabeceira” na mochila. Saudou o senhor Abstrúsio, dono do quiosque e perguntou-lhe pelas notícias. O senhor Abstrúsio era como que uma espécie de agência Lusa para Alambáceo, e, como gostava de se fingir de pivot de telejornal, era com agrado que logo pela manhãzinha narrava as desgraças da nação e do mundo ao indigente. «Descobertos mais cinco casos de padres pedófilos» - lia o senhor Abstrúsio com voz grave - «Isso resolvia-se bem era com um ferro em brasa p'lo cú acima deles todos» sugeria Alambáceo. A nível local as notícias não eram mais entusiasmantes «Mulher com unha encravada morre na ambulância a caminho do Hospital» - As sobrancelhas do senhor Abstrúsio arcavam-se de indignação ao mesmo tempo que suspirava. «A culpa dessa e doutras é deste Governo!» rematava Alambáceo, «Ah! Se eu tivesse um ferro em brasa».
Depois de saciar a sede de informação, Alambáceo dirigia-se à sua esquina favorita afim de ganhar uns trocos para o pequeno almoço. Não gostava de mendigar, por isso tocava harmónica. Custava-lhe menos aceitar o dinheiro que lhe dispensavam se estivesse a fazer qualquer coisa, e a música é algo que faz falta às pessoas na cidade logo pela manhã. Alambáceo era aquilo a que ele próprio designava como novo pobre. Porém, ao contrário do novo rico que se torna boçal e arrogante quando a sua situação melhora substancialmente; o novo pobre, como Alambáceo, gosta de manter a sua dignidade através da prática de velhos rituais como a boa educação e a humildade.
Quando não estava na sua esquina, o senhor Alambáceo gostava de ir passear para o jardim. Gostava do ar fresco que por lá se respirava e sentia-se em casa; a natureza era o que lhe restava e podia ser dele, livre de pagamento, das oito da manhã às oito da noite.
Quando chegava a noite, o senhor Alambáceo dirigia-se célere para o local onde ficava o seu quarto improvisado de todas as noites. Se chegasse um pouco mais tarde que fosse o lugar era prontamente ocupado por outros. Já ia apressado quando algo o fez estacar; do balcão montra de um café, um mil-folhas olhava para ele com aquele ar malandro que ele tinha visto no sonho. Ficou longos minutos a contemplar o bolo, à espera que o sonho, por um qualquer passe de mágica, se tornasse realidade.
Naquela noite, Alambáceo dormiu sem sonhar.

Uma Ponte Sobre o Abismo

| quinta-feira, 1 de abril de 2010 | 29 comentários |
A manhã chega...chega...chega
Por onde anda você
?...

Eufrázia era uma intelectual, uma mulher culta, formada, possuidora do mais fino gosto e trato; gostava de ir à ópera e ao teatro e de beber flutes de champagne.
Labregoísio era do género humilde, simples, terra a terra, forte e brutalmente sincero, gostava de caracóis e do Benfica.
Ela, quando frequentava os círculos da intelligentsia da Cidade, discutia filosofia contemporânea, o estado da economia e a influência da arte no pensamento moderno. Era respeitada ao mais alto nível e as suas dissertações eram aguardadas com ansiedade.
Quando Labregoísio saía à noite, já se sabe, era para beber mines e jogar snuckre. Devido à sua formação profissional, não podia ouvir o ruído de um motor sem deixar de dar a sua opinião de entendido. Longas eras as horas que passava nas Tasca do Alambáceo, a explicar a complexidade do motor de explosão a quatro tempos, com os seus cilindros e êmbolos, e o cárter, é importante não esquecer o cárter. Era uma sumidade entre os amantes das bielas.
Ela sofria com o Kafka. Ele sofria com o Cardoso. Ela debatia-se com a eterna dúvida: caviar beluga ou trufas de Alba? Ele, quando não havia tremoços comia amendoíns, o que não podia faltar era a frescura que às vezes o deixava na incerteza: Super-Bock ou Sagres?
Quando num dia de chuva se encontraram, havia entre eles um abismo colossal, mas amaram-se como selvagens à distância de apenas um beijo.

Para a Fábrica de Letras - Abismo

O Regresso Condicionado

| segunda-feira, 15 de março de 2010 | 9 comentários |
Quando nos vêm buscar de volta à nave-mãe, fazem-nos duas perguntas: O que aprendeste? O que ensinaste? É um teste, destinado a avaliar a nossa condição, depois de anos de exposição à barbarie. No caso do ensino a resposta é fácil uma vez que é nosso apanágio o ensino e prática do amor e a disseminação da paz; algo que aprendemos desde pequenos e que faz parte da nossa essência. A primeira pergunta é capciosa. Eles sabem bem que ao nos imiscuirmos nesta “sociedade” somos bombardeados com toda a espécie de perfídia e crueldade, da guerra ao canibalismo; a aprendizagem, quando há, é dolorosa e sem sentido; por isso eles perguntam pelo que aprendeste; querem avaliar o teu estado, se mais réptil ou se mais humano. O que aprendeste deverá ser um reflexo do que ensinaste, mas regra geral não o é. A casmurrice é a primeira emoção que aprendemos, o que é de todo adverso aos nossos cânones, por isso, não raramente, ao não conseguirmos responder satisfatoriamente à primeira pergunta somos condenados a palmilhar esta Terra por tempo indefinido, até que a nossa primeira resposta seja uma mais condigna e humana, o que vai sendo difícil, quando cada vez mais nos ensinam a rastejar.

Dia 4

| quinta-feira, 4 de março de 2010 | 24 comentários |
Romualdo: Faz hoje um ano que o Matador se lembrou de criar o seu inferno pessoal. Pouco tempo depois cheguei aqui, como um condenado às galés, ao degredo dos seus delírios pessoais.
Zeferino: Eh! Eu até nem tenho muito que me queixar, só acho é que devíamos beneficiar de uma qualquer espécie de compensação,...Em numerário talvez.
Romualdo: E o que é que fazias tu com dinheiro aqui?
Zeferino: !!!
Ildefonso: Eu cá só me queixo de não haver mais gajas!
Anacleto: Será que vai haver bolo de anos?
Abrenúncio: E pensar que isto começou porque sua excelência deixou de fumar.
Labregoísio: Ainda me lembro bem, quando acordei aqui o ano passado fiquei em pânico, parecia que estava naquele filme, o Só.
Abrenúncio: Saw!
Labregoísio: Foi o que eu disse.
Zeferino: A princípio nem ele acreditava que isto fosse passar da primeira semana e agora olha, cá estamos um ano depois.
Romualdo: Como é que sabes disso?
Zeferino: Ora, faço parte dele, como tu, como todos nós. Somos todos expressões dos seus delírios pessoais como tu mesmo lhe chamaste. Agora mesmo, é ele que está a ditar as nossas falas.
Romualdo: Aposto que se está a divertir, o cabrão.
Anacleto: Ele podia era comer qualquer coisa a ver se me passava esta fome.
Abrenúncio: Uma vez consegui escapar-me mas não cheguei mais longe que ao sub-consciente e posso-vos garantir uma coisa, aquilo lá embaixo é bem pior que aqui, parece uma lixeira.
Romualdo: Pergunto-me seriamente quanto tempo mais irá esta situação durar.
Abrenúncio: Para quê essa ansiedade? Quando isto acabar tu também te acabas e depois só resta o nada, o vazio, o esquecimento. Não há nada a fazer, o melhor ainda é aproveitarmos ao máximo enquanto cá estamos, e pelo caminho tentar aprender qualquer coisa, e quando menos esperas...o tempo passa.
Ildefonso: E pode ser que ainda apareçam gajas...

O Silêncio dos Omnipotentes (2ª parte)

| segunda-feira, 1 de março de 2010 | 22 comentários |
“...Odeio tudo quanto seja sagrado, tudo o que cheire a incenso e a louvores cantados. Odeio o intocável e o sacrossanto; a falsa beatitude e a inefável hipocrisia.
Espetam-nos com esta moral desde pequeninos, a moral deles, e crescemos com esta sensação de sermos culpados de alguma coisa, como se tivéssemos contraído uma dívida a qual nunca iremos conseguir pagar e por isso estamos sempre em falta perante o seu julgamento, nesta vida e mais além...”
Um conto e quinhentos foi quanto lhe custara, ao sétimo dia, encomendar a alma da sua companheira que se tinha ido com o mal maior. A moeda é antiga, a história já não é nova.
Romualdo ruminava nestas considerações quando lhe pareceu ouvir um nome familiar, vindo de muito lá ao fundo. Quando saiu do estupor em que se encontrava já não conseguiu agarrar com os ouvidos o nome dela. Tinha passado o momento. O nome dela passara camuflado entre a graça de tantos outros infelizes de tal forma que surgiu e desapareceu como num suspiro; menos que isso, um piscar de olhos.
“É isto? Já está?” - Indignou-se. Se ali estava, se fizera aquele esforço, foi porque vozes vindas de todo o lado lhe ceceavam que era assim que tinha de ser, que era assim que era decente, que era o que ela teria querido...“Mas que porra esta!” de repente toda a gente era perita em descodificar a vontade dos defuntos.
Sentiu-se ultrajado até ao âmago; era como se lhe tivessem cuspido em cima da sua humildade, da sua decência pobre. Levantou-se e num gesto raivoso afastou a cestinha das esmolas que lhe forçavam junto ao nariz: “Ele que venda o ouro que tem ao pescoço” resmungou Romualdo e saiu espaventado.
No altar, impávido e sereno, o Deus menino, tornado criança, tornado homem, tornado mártir, tornado Deus, pontificava a toda aquela tragédia com o ar triste de sempre. O seu silêncio era ensurdecedor, a sua ausência milenar. Assistia mudo e quedo à desorientação dos seus filhos; à sua auto-destruição; ao seu egoísmo pérfido; aos eternos trinta dinheiros trocados todos os dias em Seu Nome. À sua volta, os querubins tentavam cantar-lhe loas, mas não cantavam nada porque eram de pedra.
Um dia voltará! - dizem eles – para apascentar de novo o seu rebanho.
Ainda não foi ontem, e hoje tudo indica não ser a véspera desse dia.

Para a Fábrica de Letras -Silêncio

O Silêncio dos Omnipotentes (1ª parte)

| | 28 comentários |

Os Abutres

| | 4 comentários |
O que abutres gostam é de carne. Carne queimada, carne moída, carne quebrada, nervo torto.
Perante a constatação da desgraça, a antevisão de lágrimas, dor e miséria, avançam salivando com as suas objectivas e pivots em garra. Escarafuncham nas feridas até o pus saltar amarelo e escorrer pelos abcessos infectos. Partilham com os vampiros o horário nobre e o gosto pelo sangue quente. Digladiam-se pelo direito ao pranto estridente de uma velhinha despojada de tudo, e partilham entre si o alarmismo e a histeria pandémica.
Estes abutres, nada têm a ver com as aves falconiformes necrófagas que limpam as carcaças dos outros animais porque é essa a sua natureza, não. Estes abutres, quando descascam um cadáver ou o que dele sobra, quando debicam o globo ocular de uma criança ensanguentada na rua, fazem-no em nome de uma outra espécie, dizem eles. Fazem-no unicamente para alimentar uma outra casta necrófila, que mantém com eles um perfeito mutualismo: o ignobilis sedentarius, vulgo sanguessuga de sofá, também ele sequioso de uma boa catástrofe alheia, mal passada de preferência.
- Gostas mais do pai ou da mãe? – Perguntaram à criança.
- Gosto de CARNE! – Respondeu.